Legado

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E quando o Criador determinou:
- Nascei, crescei e multiplicai-vos.
Cada homem resolveu a seu modo
seguir a orientação.
Uns procuraram ter mulheres
para gestarem filhos.
Outros procuraram ter ideias
para gestarem a evolução.

P.S.: Querido Sibarita, espero que goste da letra e do que diz a letra... rs.

Ela não sabia

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Todos os dias ela acordava pontualmente às 6 e saía da cama silenciosamente em direção à cozinha. Antes mesmo de pensar em hábitos higiênicos ou mesmo na tão proclamada vaidade feminina, ela preparava o capuccino e duas torradas, arrumava-os cuidadosamente numa pequena bandeja com pés de madeira e voltava pro quarto. Ele sempre acordava logo que ela saía da cama, mas fingia que dormia até que ela voltasse. Não abriria mão de ficar jogado na cama, sentindo o cheiro forte do café, antevendo o prazer de prová-lo. Ela não sabia que ele fingia dormir mas continuaria levantando, preparando o capuccino e vindo acordá-lo mesmo se soubesse. Ela não sabia que ele fingia dormir, mais tarde descobriria que também desconhecia outros detalhes importantes.

Enquanto ele tomava o café-da-manhã, ela falava sobre o dia, as notícias da semana, a última exposição de arte moderna que visitara. Ele escutava absorto pensando na capacidade que ela tinha de falar com propriedade tanto da crise mundial quanto dos hits da moda outono-inverno. Ela falava, olhava pra ele e ainda se vestia dando a nítida sensação de que fazia cada uma dessas coisas da melhor forma que seria possível fazê-las.

Chegando ao banheiro, ele sentia o perfume dela. Ela tinha cheiro de sexo, ela tinha cheiro de roupa limpa. Era uma mistura improvável, mas era o que lhe vinha à cabeça todas as manhãs. Pronta pra sair, ela dava-lhe um beijo na boca molhada pela água quente que caía do chuveiro. Ela não tinha medo de se molhar ou despentear o cabelo, o que, surprendentemente, nunca acontecia. Depois do beijo, lançava-lhe um sorriso e batia a porta.

No fim do dia, eles se encontravam em algum lugar pra jantar e decidir se dormiriam juntos ou iria cada um pra sua casa. Invariavelmente decidiam dormir juntos, na maioria das vezes, na casa dele. Ela dizia se sentir marcando território e o fazia lembrar que melhor isso a mijar nos cômodos da casa ou mesmo nele. Ele sorria sinceramente mesmo já conhecendo a piada. A graça estava nela.

Todas as noites ele a possuía com toda fúria do seu desejo, ela se entregava sem restrições e tomava pra si o que considerava seu. Às vezes, ela pedia pra ele ler em voz alta trechos dos inúmeros livros que ela lia ao mesmo tempo. Às vezes, ele pedia pra ela lhe massagear os pés e a alma com suas mãos banhadas em óleo e seus olhos banhando afeto.

Havia noites em que eles acordavam um pouco antes do amanhecer, abriam a janela do quarto e calados admiravam o "nascer" do dia. Os olhos dela sempre ficavam marejados e brilhantes, como se fosse a primeira vez que presenciava aquele espetáculo. A brisa gelada da manhã era abrandada pelo calor dos braços dele que a enlaçavam.

Numa dessas manhãs, ele desviou os olhos do céu, encarou-a de frente e disse que a amava. Ela retribuiu o olhar, sorriu e calou-se. Tempos depois, eles pararam de se ver. Mas foi naquele exato momento que eles deixaram de se encontrar.

Ela nunca descobriu que ele fingia dormir enquanto ela preparava o capuccino. Ela nunca descobriu que ele gostava mais do cheiro do café do que do próprio café.

Antenada

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- Como foi o jantar?

- Foi como assistir um filme da sessão da tarde. Temas óbvios, os mesmos cenários, aquela coisa de sempre. Diversão água com açúcar.

- Olha pelo lado bom. Pelo menos chegou em casa cedo... rs.

- Tecnicamente, sim. Seis e meia da manhã é cedo, não? Cheguei a tempo de tomar um banho e correr pro trabalho, nem deu tempo de tomar café.

- Então o encontro que começou tipo sessão tarde acabou virando tela quente?

- Que nada. De tela quente só o fato de ser um filme de segunda. Na hora do vamos ver, o roteiro foi o mesmo da conversa do jantar. Uma certa habilidade com os lugares-comuns. Nada além disso.

- Então com esse não vai ter reprise?

- Claaaaro que vai. Já até marcamos um programinha de quinta.

- Espera um pouco. Acho que perdi algum capítulo. Você não disse que o encontro foi um fiasco?

- Ah, amiga. Pior do que assistir sessão da tarde é não ter TV, né não?

- Sabe de uma coisa? Você devia experimentar ler um livro.