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Corrente

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Fim de tarde... Tarde

de sol... Sol

enamorado por um mar de mansas ondas... Ondas

lambendo a fofa areia... Areia

arena de meninos (alguns não tão meninos) correndo atrás da redonda... Redonda

curva da musa morena, ainda que loura... Loura

gelada saindo da lata num chiado-melodia... Melodia

doce do violão safado no dueto com o mar... Mar

que apaga os passos dados e descortina outros caminhos... Caminhos

tortuosos de um cigano coração... Coração

mambembe que, à beira-mar, brinca de estar em paz... Paz

de fim de tarde... Tarde

furta-cor, cambiante, passageira... Passageira...


E agora José?

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13 de abril, 01:23 h. Estou em casa, em Icaraí, Niterói. Há uma semana, bem perto daqui, um homem morreu soterrado em seu próprio carro enquanto trafegava em uma área nobre da cidade. Junto com ele estavam esposa e filha. Ambas foram salvas por um conhecido atleta brasileiro. Mas não faz sentido identificá-lo. Na história que estou contando, heróis são anônimos. Eles usam apenas uma alcunha, um nome de guerra. Solidariedade.

A madrugada agora está silenciosa. Não chove, não venta forte. Há apenas um frio que percorre a espinha, como pra me lembrar que neste exato momento, não muito longe daqui, uma tragédia continua se desenrolando. Fico me perguntando como pode estar tudo tão aparentemente normal. Como as pessoas podem continuar indo ao cinema, levando o cachorro pra passear, comprando roupas enquanto há dezenas de pessoas perdidas num mundo de lixo e lama?

Neste instante, enquanto escrevo, mães, irmãos, filhos, amigos esperam ansiosos uma notícia. Só que eles sabem que a notícia não será confortante, muito menos feliz. No máximo, um alívio. O alívio de enterrar os corpos dos seus entes queridos longe de onde estiveram "enterrados" enquanto vivos. No lixo, na lama, no esquecimento. É por isso que eles esperam, de olhos vidrados, as buscas que bombeiros e voluntários fazem no meio dos escombros. Querem que a morte ao menos seja a redenção, que ela liberte seus afetos da "cova" em que estiveram presos por toda a vida. E também é por isso que tantas pessoas, a apenas alguns quilômetros do lugar da tragédia, continuam suas vidas normalmente. Pra elas, aquelas pessoas já estavam enterradas no lixo e na lama muito antes do morro desabar.

Há quem diga que é isso mesmo. Os viúvos que chorem seus mortos e deixem que o resto do mundo continue a girar. Mas há quem pense diferente, especialmente há quem sinta diferente. Pessoas que, ao ver seres humanos vivendo e morrendo numa montanha de lixo, sentem-se meio órfãs também. Pessoas que não podem passar impunemente por uma tragédia dessas acontecida bem diante dos seus olhos. Pessoas que choram a dor do outro porque, de alguma forma, também é sua aquela dor. Pessoas que saem de suas casas debaixo de chuva para ir a um abrigo cheio de desconhecidos oferecer comida, roupa, solidariedade.

Todos sabem que houve, mais uma vez, omissão do governo. Todos sabem que a tragédia podia ter sido evitada. Milhões de discursos são reproduzidos, críticas formuladas. O poder público merece cada uma delas e é através da nossa cobrança que novas tragédias serão evitadas. Mas, enquanto observo da minha janela a apatia de tantos de nós, penso que a omissão não é um mal que ataca só o governo. Nós também nos omitimos, também jogamos um pouco de lixo sobre aquelas pessoas e agora também podíamos estar fazendo um pouco mais por elas.

P.S.: Vocês não têm ideia de como está a situação em várias áreas aqui de Niterói. Parece um cenário de guerra. Qualquer descrição que possa ser feita será incompleta, rasa. Centenas de pessoas perderam tudo que tinham, inclusive a esperança. Tudo é extremamente importante pra essas mulheres, homens, crianças, idosos, mesmo as coisas mais simples como pasta de dente, água mineral, papel higiênico. Se alguém se interessar em ajudar, com qualquer coisa, entre em contato através do e-mail daspe3@hotmail.com.