Mostrando postagens com marcador Causos e causas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Causos e causas. Mostrar todas as postagens
Flagrante cumplicidade
- E aí, doutora? Como está a minha situação?
- Você conhece o procedimento quase tão bem quanto eu. Quantas vezes já foi preso nas mesmas condições?
- Essa é a sétima vez.
- Pois então. Já sabe tudo o que vai acontecer, não?
- A senhora acha que demora muito a me soltar dessa vez?
- Eu vou primeiro conversar com o delegado, depois começo a fazer previsões.
- As coisas estão feias pro meu lado, né? Pode falar, doutora. A senhora sabe que sou macaco velho.
- Justamente por isso que não entendo você. Tantos anos nessa vida e ainda dá um mole desses?
- Doutora, a senhora pode ser advogada só escrevendo petições? Consegue ficar na segurança de seu escritório, entre seus livros? Não tem que dar a cara a bater nas audiências? Se expor?
- E daí?
- E daí que cada profissão tem seus riscos. O risco da minha é a prisão. Faz parte.
- Desde quando estelionato é profissão?
- É a única coisa que sei fazer. É o que eu faço melhor do que os outros. Onde me sinto o melhor. E é o que paga meus desejos, meus vícios, meu sustento.
- Aptidão e satisfação.
- O que foi?
- Nada, só estava pensando alto. Continue.
- Pois é isso, doutora. A senhora usa seu talento e seu esforço pra conseguir sobreviver, eu faço o mesmo.
- Você só esqueceu de um detalhe. Todas as profissões têm uma função social. Elas servem de alguma forma pra contribuir com as outras pessoas, cada um se especializa em alguma coisa e oferece aos outros. Como se fosse um escambo de aptidões.
- Um o quê?
- Escambo, troca.
- Ah sim. Ouvi dizer que antigamente as pessoas trocavam o que plantavam com as outras. Um plantava milho, outro feijão, daí eles trocavam.
- Pois então. Hoje em dia, trocamos aptidões. Um sabe tratar de doentes, outro sabe construir casas, e cada um "vende" o que sabe fazer pra que todos vivam melhor.
- Entendi o raciocínio. Estelionatário não torna a vida de ninguém melhor.
- O que você faz é justamente prejudicar a vida em sociedade, à medida que você engana alguém pra ficar com o que é dele, além de causar um dano àquela pessoa, você gera uma sensação de insegurança e desconfiança nos outros, que começam a sentir que precisam se defender a qualquer custo porque podem ser as próximas vítimas. Isso cria toda uma desordem social, entende?
- A senhora tem razão. Eu não contribuo mesmo pra esse "meio social". Sabe por que, doutora? Porque ele também não me deu nada. Pra mim não existe mundo social, existe mundo cão, onde é cada um por si. Olha, doutora, não sou um cara ruim, sei reconhecer quando alguém me faz um favor. Mas eu não faço parte desse meio social, ele nunca fez nada por mim. E nem eu me sinto na obrigação de fazer alguma coisa por ele.
- Talvez seja principalmente por isso que anos de cadeia não conseguiram te ressocializar. Você nunca foi nem socializado. Mas eu ainda não entendo uma coisa. Como você se deixou pegar denovo?
- Doutora, o destino do estelionatário é a cana. Eu nunca quis juntar dinheiro. A senhora estuda, lê, fica cada vez mais instruída porque é essa a sua maneira de conquistar o seu lugar, de se fazer aceitar e respeitar pelos outros. Eu roubo pra comprar essas mesmas coisas.
- O seu discurso é muito bonito, mas há diversas formas menos prejudiciais a você mesmo e aos outros de conseguir o que quer.
- A sua, por exemplo?
- A minha, por exemplo.
- A senhora põe gente como eu na rua.
- Eu não senhor. Eu ofereço a pessoas como você o direito de ter uma defesa competente. Há o Ministério Público pra tentar provar que você é culpado se assim entender. E no fim das contas, quem decide é o juiz.
- O seu discurso é muito bonito, mas...
- rs... Você é muito bom na argumentação... Imagino que seja assim que você consegue enganar suas vítimas.
- Não somos tão diferentes quanto pode parecer à primeira vista, não é mesmo doutora?
P.S.: A cada dia mais me convenço de que cada post publicado aqui é em parte meu e em parte das pessoas que não só me visitam como deixam um pouco delas por aqui. Um comentário, uma sugestão, uma provocação. Uma única palavra deixada pode fazer surgir em mim uma torrente de pensamentos, emoções e mais palavras. Obrigada, Cris.
Uma questão de honra
- Doutor, tá indo embora?
- Estou, já falei com meu cliente.
- Tem um homem aí que tá precisando de advogado. Foi preso em flagrante há um tempão e até agora nem foi chamado no fórum. O senhor quer falar com ele?
- Ele pode pagar?
- Não sei. Parece que não tem muita coisa não. A mulher dele vem pras visitas puxando um monte de menino remelento pelo braço. Talvez tenha uma casa que possa vender. Só falando com ele.
- Manda trazer o homem.
(...)
- Doutor, já vou dizendo que não tenho como pagar pelo seu serviço e nem sou homem de explorar o trabalho de ninguém. Dizem que tem um doutor que trabalha pra pobre, mas até agora nada desse homem aparecer. E a mulher fica chorando querendo saber se me demoro aqui, os meninos tão precisados de uma ruma de coisa e lá em casa de homem só eu mesmo. Só preciso que o senhor me responda se fico aqui ainda muito tempo.
- Não sei. Essas coisas nunca dão pra saber com exatidão, mas eu poderia prever mais ou menos se tivesse seu processo em mãos. Bom, me diga o que aconteceu que vou ver o que dá pra fazer.
- Eu furei um amaldiçoado há uns tempos atrás.
- E ele morreu?
- Ah doutor, homem que é homem não tira uma faca do cós só pra fazer medo não. Ele ofendeu minha santa mãe que já foi embora dessa terra de perdição há um bom tempo. Se eu deixasse por nada não andava de cabeça erguida mais nunca nessa vida.
- E além de ofender sua mãe, o que mais ele fez?
- Ele disse que ia matar. Foi legítima defesa, doutor.
- Então ele tinha uma arma também?
- Sei não. O que ele tinha não sei dizer. Sei o que ele não tinha. Juízo. Com licença da má palavra, mas o filho de rapariga não tinha um pingo de juízo, se tivesse, não tinha bulido com a honra de um cabra macho.
- Entendo.
Mas ele não entendia. Nem sabia o sentido dessa palavra. Tal assunto não fazia parte da grade da faculdade que ele cursou. Não há questões de honra na prova da OAB.
- Estou, já falei com meu cliente.
- Tem um homem aí que tá precisando de advogado. Foi preso em flagrante há um tempão e até agora nem foi chamado no fórum. O senhor quer falar com ele?
- Ele pode pagar?
- Não sei. Parece que não tem muita coisa não. A mulher dele vem pras visitas puxando um monte de menino remelento pelo braço. Talvez tenha uma casa que possa vender. Só falando com ele.
- Manda trazer o homem.
(...)
- Doutor, já vou dizendo que não tenho como pagar pelo seu serviço e nem sou homem de explorar o trabalho de ninguém. Dizem que tem um doutor que trabalha pra pobre, mas até agora nada desse homem aparecer. E a mulher fica chorando querendo saber se me demoro aqui, os meninos tão precisados de uma ruma de coisa e lá em casa de homem só eu mesmo. Só preciso que o senhor me responda se fico aqui ainda muito tempo.
- Não sei. Essas coisas nunca dão pra saber com exatidão, mas eu poderia prever mais ou menos se tivesse seu processo em mãos. Bom, me diga o que aconteceu que vou ver o que dá pra fazer.
- Eu furei um amaldiçoado há uns tempos atrás.
- E ele morreu?
- Ah doutor, homem que é homem não tira uma faca do cós só pra fazer medo não. Ele ofendeu minha santa mãe que já foi embora dessa terra de perdição há um bom tempo. Se eu deixasse por nada não andava de cabeça erguida mais nunca nessa vida.
- E além de ofender sua mãe, o que mais ele fez?
- Ele disse que ia matar. Foi legítima defesa, doutor.
- Então ele tinha uma arma também?
- Sei não. O que ele tinha não sei dizer. Sei o que ele não tinha. Juízo. Com licença da má palavra, mas o filho de rapariga não tinha um pingo de juízo, se tivesse, não tinha bulido com a honra de um cabra macho.
- Entendo.
Mas ele não entendia. Nem sabia o sentido dessa palavra. Tal assunto não fazia parte da grade da faculdade que ele cursou. Não há questões de honra na prova da OAB.
Cada um luta com as armas que tem
- Vovó, minha cabeça está doendo.
- Deixa eu ver, meu filho. Onde dói?
- Aqui.
- Valha meu Deus. Tem um bruta caroço na tua cabeça, menino. Desde quando está doendo?
- Desde semana passada.
- Tudo isso? Vá chamar tua mãe.
(...)
- A senhora mandou me chamar?
- Claro. Já viu o calombo na cabeça do teu filho?
- Vi sim. Ele caiu jogando bola. Coisa de criança.
- Ele disse que já faz uma semana.
- Tenho dado remédio. Passa já.
- Passa já nada. Você sabia que caroço na cabeça pode dar aquela doença?
- Aquela doença tem nome. Câncer. E a senhora está dizendo bobagem. Isso é ignorância.
- Não sei o que é ignorância. Mas sei o que é judiação. É o que você está fazendo com seu filho. Deixando o bichinho sofrer desse jeito e ainda correr o risco de pegar a maldita doença.
- A senhora não sabe o que está falando. Preciso ir. Tenho que trabalhar.
- Espera. Por que você não faz uma promessa pra São Francisco? Eu tenho um santo aqui. A gente pode rezar pra ele, pedir essa graça e prometer que o menino vai andar de marrom durante um ano.
- Eu não tenho fé. Pra mim, esse santo da senhora é só um monte de gesso.
- Desconjuro. Deixa de maledicência, mulher. Deve ser por isso que seu filho está com um caroço do tamanho do mundo na cabeça. Você não quer, não faça. Eu vou rezar pro meu São Francisco e pedir mais essa graça.
- Enquanto a senhora reza, eu vou trabalhar. Preciso comprar mais remédios pra dor de cabeça.
P.S.: O melhor dessa história é o fato de ser verídica (está certo, eu mexi só um pouquinho). A simpática avó é minha cliente e me contou essa passagem sem se dar conta do quanto me encantam essas sutilezas cotidianas.
- Deixa eu ver, meu filho. Onde dói?
- Aqui.
- Valha meu Deus. Tem um bruta caroço na tua cabeça, menino. Desde quando está doendo?
- Desde semana passada.
- Tudo isso? Vá chamar tua mãe.
(...)
- A senhora mandou me chamar?
- Claro. Já viu o calombo na cabeça do teu filho?
- Vi sim. Ele caiu jogando bola. Coisa de criança.
- Ele disse que já faz uma semana.
- Tenho dado remédio. Passa já.
- Passa já nada. Você sabia que caroço na cabeça pode dar aquela doença?
- Aquela doença tem nome. Câncer. E a senhora está dizendo bobagem. Isso é ignorância.
- Não sei o que é ignorância. Mas sei o que é judiação. É o que você está fazendo com seu filho. Deixando o bichinho sofrer desse jeito e ainda correr o risco de pegar a maldita doença.
- A senhora não sabe o que está falando. Preciso ir. Tenho que trabalhar.
- Espera. Por que você não faz uma promessa pra São Francisco? Eu tenho um santo aqui. A gente pode rezar pra ele, pedir essa graça e prometer que o menino vai andar de marrom durante um ano.
- Eu não tenho fé. Pra mim, esse santo da senhora é só um monte de gesso.
- Desconjuro. Deixa de maledicência, mulher. Deve ser por isso que seu filho está com um caroço do tamanho do mundo na cabeça. Você não quer, não faça. Eu vou rezar pro meu São Francisco e pedir mais essa graça.
- Enquanto a senhora reza, eu vou trabalhar. Preciso comprar mais remédios pra dor de cabeça.
P.S.: O melhor dessa história é o fato de ser verídica (está certo, eu mexi só um pouquinho). A simpática avó é minha cliente e me contou essa passagem sem se dar conta do quanto me encantam essas sutilezas cotidianas.
Assinar:
Postagens (Atom)
