Morta de medo
- Você é terrivelmente incômodo.
- Por quê? Por que te chamo de princesinha? Ou por que digo que sou apaixonado por sua boquinha?
- Não. Quando você diz essas coisas é só patético, e patéticos não são incômodos, são até confortavelmente comuns.
- Então por que te incomodo tanto?
- Porque você renova em mim a esperança nos seres humanos.
- Eu? Você é mais maluca do que eu pensava. Posso ser qualquer coisa, menos um modelo de dignidade, honestidade, honradez.
- Eu disse que você renova minha esperança nos seres humanos, não que me lembra homenagens póstumas. Não estou falando do manto de perfeição com o qual só a morte (ou a distância) pode nos cobrir. Falo de vida, de estar vivo, sangue correndo nas veias, alimentando membros, coração, cérebro.
- E isso te incomoda? Ter esperança é tão ruim assim?
- Acreditar sempre tem uma boa dose de apreensão.
- Assim como viver.
- Assim como viver.
- Medo da frustração?
- Medo da morte.
- Deixar de viver?
- Deixar de acreditar.
Ficção
- Não está incomodando. Pode falar.
- A questão é bem simples. Estou à venda e quero saber se você tem interesse em me comprar.
- Comprar você?
- Pra ser mais exata, me alugar. Um aluguel que irá da hora em que você fechar negócio até o primeiro raio de sol.
- E esse aluguel dá direito a exatamente o quê?
- Ao meu amor total e irrestrito.
- Mas aí não seria amor.
- Por que não?
- Porque amor é algo que se conquista com o tempo. Não pode ser fruto de um contrato.
- E o casamento? Não é um contrato?
- Mas ele não dá início ao amor, ele só firma um pacto entre os noivos. Um pacto abençoado por Deus.
- Um pacto de?
- Ahhhh... de convivência, de respeito mútuo, de...
- Amor.
- Mas, como eu já disse, não é o casamento que faz nascer o amor. É justamente o oposto. O amor faz nascer o casamento.
- Não quero questionar suas verdades. Estou te fazendo uma proposta simples, espero uma resposta. Só isso.
- Você está me fazendo uma proposta impossível de ser cumprida. Se você estivesse me oferecendo seu corpo tudo bem, mas seu amor...
- Estou te oferecendo meu corpo também. Quem ama se entrega de corpo e alma.
- Alma. Aí é que está. Você pode até me entregar seu corpo, mas sua alma não, a não ser que seu amor seja sincero.
- Você pode ver a alma de alguém que diz te amar? Pode tocar a alma?
- Não, mas posso perceber através das atitudes. Falar que ama é fácil, agir conforme esse amor já é outra coisa.
- Então, no fim das contas, o que realmente importa não é o sentimento, mas as atitudes?
- O sentimento leva às atitudes.
- Pode até ser, mas o fato é que você não vê sentimentos, então não deixa de ser uma suposição, fruto de uma espécie de fé.
- Sim. Se sentir amado pode ser isso mesmo, perceber as atitudes do outro e acreditar que elas são motivadas por amor, e não por outro sentimento.
- Então, na verdade, não interessa tanto se eu sou capaz de te amar ou não, mas se você é capaz de acreditar ou não. O meu amor por você tem que ser uma criação tão sua quanto minha. É isso?
- Você não disse qual é o preço do aluguel.
- Isso é você que vai decidir.
- Eu que vou dizer quanto vale o seu amor?
- E não é sempre assim? O máximo que a gente pode fazer é amar, mas quem diz o quanto esse amor vale é o ser amado.
- E se eu te oferecer nada em troca.
- Aí nada feito. Amor sem qualquer retribuição só o materno, e não é isso que estou te oferecendo.
- Ei, garota. Estava ouvindo a conversa e estou disposto a atribuir um valor ao seu amor e pagar por ele.
- Negócio fechado.
Ela se aninhou no abraço aberto a sua espera e acompanhou aquele homem impetuoso que escutara toda a conversa sem que ela tivesse percebido. Antes, porém, despediu-se com um sorriso daquele a quem ela poderia ter amado. Mas não amou.
Lua, lagartixa, ledo (engano)
- Tenho medo de você.
- Acha que posso roubar seu coração?
- Não. Meu coração é feito rabo de lagartixa.
- Frio e dispensável?
- Ele se reconstrói sozinho quando alguém o mutila. Ele se regenera.
- Hummmm... Então temos aqui um coração regenerado. Largou o vício de amar pouco e desejar tudo?
- Eu não desejo tudo.
- Só ama pouco?
- Eu poderia te amar muito.
- E eu poderia ir à Lua.
- Você é tão intangível quanto a Lua?
- Não acho que a Lua seja intangível. Ela só está distante de nós.
- O que acaba sendo a mesma coisa. Que diferença faz algo ser tangível, se EU não posso tocar?
- A diferença é que, neste caso, é uma questão circunstancial, não é definitivo.
- Tudo é definitivo se levarmos em conta que a única coisa que temos é o agora.
- Temos outras coisas também. Você, por exemplo, tem um coração de rabo de lagartixa.
- Assim como você tem o seu sarcasmo.
- Cada um se defende como pode, não?
- Até não conseguir mais se defender.
- Ou não querer.
- É. Ou não querer...
O pé do coelho que não saiu do Cartola
O alarme do celular havia começado a tocar quando a bateria acabou. Ainda dormia, mas a consciência (que nunca dorme) me lembrou da sorte que foi a bateria não ter acabado antes. Afinal, eu não podia acordar atrasada denovo. Tinha que, ao menos, tomar um café forte e fazer uma maquiagem mais ou menos descente. Enfim, eu tinha que estar vestida, preparada e disposta às 8 da manhã. Eu tinha muitas coisas. Mas quem é que pode ser tantas coisas a essa hora? Você? Sorte a sua. Mas eu não sou você, eu sou a doida varrida que torceu o nariz pra sorte do alarme ter tocado antes da bateria acabar, virou pro canto e dormiu mais meia hora. Às 7 e meia dei um pulo como se alguém (deve ter sido a consciência que nunca dorme) tivesse me empurrado pra fora da cama.
Correria. Agora eu tinha meia hora (ironicamente, o mesmo tempo de sono a mais) pra tomar banho, me vestir, tomar o café e sair. Não preciso dizer, não é? O café ficou pra próxima. As duas primeiras tarefas tomaram todo o tempo que eu tinha e ainda fiquei devendo uns cinco minutos. Saí de casa com a incômoda sensação de que os sapatos pretos ficariam melhores.
É nesse momento que você pergunta. Mas você gastou meia hora pra tomar banho e se arrumar? Óbviooooo. Sou mulher, lembra? Escolher uma roupa não é assim a tarefa-mais-fácil-desse-mundo. Ah, está bom, eu confesso. Entre o banho e a roupa, eu liguei a TV pra ouvir as notícias animadoras que mais uma vez renovariam minha fé no ser humano e me fariam começar o dia mais confiante, aquelas mesmo tipo a derrubada à bala de um helicóptero pelos traficantes, a maior taxação da poupança, a polícia que rouba os ladrões que tinham acabado de matar pra roubar o que a polícia mais adiante lhes roubaria. Aquelas notícias que retratam perfeitamente como a nossa vida é bela.
Mas, voltando ao assunto, liguei a TV e a Record News passava um vídeo de Beth Carvalho cantando Folhas Secas há trezentos e cinquenta e dois anos atrás. Gente, juro, foi mais forte que eu. Tive que parar pra ver. Pensem comigo, era Cartola, era o início de um dia em que fui acordada pelo alarme do celular antes da bateria acabar. Devia ser um sinal de sorte, afinal, o coelho sai da cartola e o pé dele é ou não é um talismã? Está bom, não era um sinal tão bom assim. O dia foi longo, as reuniões intermináveis, o café (aquele que eu não tomei pra ver o vídeo) foi tomado na hora do almoço.
Não podia ser diferente. Naquele mesmo dia, bem no meio da mais chata e inútil das reuniões (já falei sobre a minha teoria da inutilidade das reuniões?), a consciência (a insone) gritou aos meus ouvidos.
- Sem querer ser desagradável, preciso te dizer uma coisa. Folhas Secas não é do Cartola. É uma composição do Nelson Cavaquinho e, se não me engano, do Guilherme Brito.
- Eu desconfiei desde o início. Este não estava mesmo parecendo um dia de sorte.
- O que você queria? Ganhar na loteria, uma viagem pra Marte, um princípe encantado montado num cavalo branco?
- Pode ser um princípe encantado, montado numa nave espacial, pra me levar a uma viagem a Marte, em comemoração por eu ter ganho na loteria? rs
- Muito engraçada. O fato é que hoje é um dia comum, você tomou café na hora do almoço e provavelmente almoçará na hora do jantar, tudo porque não acorda na hora em que deveria e ainda se dá ao luxo de ficar vendo TV. Pare de divagações inúteis e preste atenção no seu trabalho.
- Estava demorando. A consciência estava permissiva demais pra ser verdade. Ei, consciência, me diz uma coisa. Você nunca dorme mesmo?
- Nunca.
- E o que você faz enquanto eu durmo?
- Vigio seus sonhos.
- Mas isso não é justo. Os sonhos deveriam ser território livre.
- Não há territórios livres de consciência, minha cara. Essa é a sina de vocês, tolos seres humanos, destacados dos demais por sua racionalidade. Mas, não vou cair nessa sua armadilha de quinta. Vá trabalhar.
- Só mais uma pergunta, vai.
- Só uma.
- Já ouviu dizer que cavaquinhos são amuletos em algum desses lugares exóticos pelo mundo afora?
- Boa tentativa, mas pra mim, não existe mundo afora. Existe mundo adentro. Dentro de você. Já é trabalho suficiente. Até mais.
E assim a consciência deu por encerrada a conversa e meu suposto dia de sorte. É isso. Ela frustra minhas mais doces ilusões, me persegue até nos sonhos e quando eu quero conversar, resolve se calar. Cala-se mas não vai embora, nem nunca, nunca dorme.
O fim é o início do amor
Ela chegou como quem estava de volta à casa. Seus passos seguros, seus gestos tranquilos. Nenhum sinal de receio ou insegurança. Ela decididamente sabia o que estava fazendo. Só havia algum sinal de agitação em seu olhar. Olhar que ardia, que desejava, que exigia. Ela não disse uma palavra sequer. Naquela situação, qualquer palavra seria um fardo a ser carregado por algum dos dois, talvez por ambos. Ambos sabiam o que queriam, era o bastante.
Lançaram-se nos braços um do outro e em um segundo já não se distinguia mais dois corpos. Eles eram um só. Boca, coxas, ventre, sexo. Sexo. Naquele momento, duas pessoas encontraram-se. Não houve limite, não houve restrições, não houve cansaço. Percorreram, exploraram e se apropriaram do corpo um do outro. Ele penetrou fundo naquela mulher que estava ali, entregue, quase submissa. E na hora seguinte viu a presa domesticada virar fera e tomar às unhas o que considerava seu. Gozaram um ao outro, o chão, o ar. Gozaram a vida. Uma, duas, incontáveis vezes. Até que exaustos, permaneceram ainda em silêncio, observando as matizes de cores criadas pelos primeiros raios de sol que entravam pelas frestas da janela. O silêncio permaneceu selando aquele encontro por mais muitos minutos. Até que foi repentinamente quebrado.
- Eu preciso te dizer uma coisa.
- Você tem uma doença incurável, está de mudança pra Europa, vai casar amanhã?
- Eu estou morrendo de sede.
Ele deu uma boa gargalhada, como há muito tempo não fazia. De repente, sentiu uma necessidade incontrolável de afundar seu rosto naqueles cabelos que pintavam de castanho o travesseiro branco. Enquanto escorregava o corpo pra mais perto dela, uma certeza invadiu-lhe a cabeça, o corpo, a alma. Ele ainda queria saber tudo, mas não precisava saber mais nada. Já amava aquela mulher.
Próximo Passo
(continuação do post anterior)
- Achei que você ligaria ontem.
- Você sempre atende o telefone assim. Não diz alô? Não pergunta quem está falando?
- Eu sei quem está falando. Estou esperando sua ligação desde ontem. Acabou de ler o livro?
- Ainda não.
- Onde ele está agora?
- Quem?
- O livro.
- Nas minhas mãos.
- Você se convenceu de que ele vai continuar aí, a sua disposição?
- No fundo é só uma queda de braço, não? Foi por isso que foi embora daquele jeito?
- Não é uma disputa. Mas não nego que tem a ver com escolha, com a sua escolha. Chega a ser uma metáfora. O livro e a revista. A segurança e o desconhecido.
- E sua saída triunfal foi planejada pra compor esse cenário?
- Não. Fui embora porque me convenci de que não adiantaria forçar a barra. Eu te disse o que eu queria, era só até onde você me deixaria ir naquele momento. O jeito era esperar você dar o próximo passo. Agora me diz você. O que você quer?
- Sexo.
- O quê?
- Sexo. É o que eu quero.
- Agora?
- Agora.
Ele desligou, mas não soltou o telefone. Será que ela estava brincando? Ela viria mesmo? Ela disse que estava a caminho. Agora era ele quem estava lidando com o desconhecido. Havia realmente sido pego de surpresa.
Quando deixou anotados seu nome e telefone, ele sabia que ela ligaria. Por curiosidade, por orgulho. Ele acertou. Ele podia prever como ela reagiria. E pelo tom de desconforto dela, ele estava acertando até aquele momento. Ele conhecia aquele tipo de mulher. Tudo estava sob controle. Até a resposta que mudou tudo. Quando perguntou o que ela queria, mais uma vez antecipou a resposta que ela daria. Dessa vez errou. Ela o havia surpreendido pela primeira vez. E agora ele estava ali, no meio da sala, surpreso, ansioso, excitado, à espera daquela mulher que ele pensara (equivocadamente) ser um livro aberto.
Revista
- Posso sentar?
- Você já está sentado. Mas não tem problema. Fique à vontade.
- Está gostando do livro?
- Olha só. Podemos dividir a mesa. Mas não é à toa que estou sozinha. Quero mesmo ler.
- Não entendo. Se queria ficar só por que veio ler num café?
- Talvez porque eu além de ler, também goste de café.
- Não é o que acho. Acho que você, mesmo sem saber, esperava alguém ou alguma coisa.
- Entendi. Quanto estou sozinha num café, espero alguém, quando estou roendo as unhas, estou nervosa, quando suspiro, estou apaixonada, quando coço a cabeça, estou indecisa.
- Piolho.
- O quê?
- Cabeça coçando... rs.
- Muito engraçado.
- Responde uma última pergunta? Prometo que te deixo em paz.
- Vá em frente.
- Quando vai ao consultório médico leva um livro?
- rs...
- Seja sincera.
- Não. Não levo livros ao consultório médico.
- Já sabe onde quero chegar, não? Você gosta de obter informações, úteis ou não, enriquecedoras ou não. Uma revista de amenidades e capa colorida, Dostoiévski, Nietzsche, Garcia Marques, bula de remédio. Você pode até gostar mais de um do que de outro, mas todos te atraem. Você não leva o livro pro consultório porque sabe que ele estará sempre na sua mesa de cabeceira à sua espera, já a revista, por mais simplória, pode não voltar as suas mãos.
- E você é a revista de capa colorida do dia?
- Eu preferia uma das outras opções, mas tudo bem... rs.
- Você quer mesmo me convencer de que EU quero conversar com você?
- A liberdade é um bem tão apreciado que o homem quer ser dono até da alheia.
- Agora posso eu te fazer uma pergunta?
- Faça.
- Analisar reais desejos escondidos atrás de comportamentos supostamente banais e parafrasear Montesquieu normalmente dá certo?
- Você acha mesmo que há muita gente por aí que reconhece uma citação de Montesquieu?
- Sinto-me realmente lisonjeada... rs.
O celular. Achá-lo dentro da bolsa era como caçar um desses insetos estranhos que se camuflam no ambiente em que vivem. Sempre que o celular tocava na rua lembrava-se de que não devia usar bolsas tão grandes. Enfiou quase todo o rosto dentro da bolsa pra encontrar o aparelho gritante. Achou. Atendeu o telefone ainda com a cabeça enfiada na bolsa. Era a atendente do consultório médico. A consulta que marcara pro dia seguinte estava confirmada. Desligou o celular rindo da coincidência.
- Você não acredita quem...
Ele não estava mais lá. Havia ido embora.
No dia seguinte, na hora marcada, estava sentada na recepção do consultório médico. Em seu colo, uma revista aberta cheia de fotos coloridas. Absorta, ela olhava. Mas não era pra revista. Olhava pras próprias mãos. Em suas mãos, um guardanapo meio amassado. Nele, havia um nome e um telefone anotados.
Antenada
- Foi como assistir um filme da sessão da tarde. Temas óbvios, os mesmos cenários, aquela coisa de sempre. Diversão água com açúcar.
- Olha pelo lado bom. Pelo menos chegou em casa cedo... rs.
- Tecnicamente, sim. Seis e meia da manhã é cedo, não? Cheguei a tempo de tomar um banho e correr pro trabalho, nem deu tempo de tomar café.
- Então o encontro que começou tipo sessão tarde acabou virando tela quente?
- Que nada. De tela quente só o fato de ser um filme de segunda. Na hora do vamos ver, o roteiro foi o mesmo da conversa do jantar. Uma certa habilidade com os lugares-comuns. Nada além disso.
- Então com esse não vai ter reprise?
- Claaaaro que vai. Já até marcamos um programinha de quinta.
- Espera um pouco. Acho que perdi algum capítulo. Você não disse que o encontro foi um fiasco?
- Ah, amiga. Pior do que assistir sessão da tarde é não ter TV, né não?
- Sabe de uma coisa? Você devia experimentar ler um livro.Cada uma com sua máscara
- De onde você vem com essa roupa ridícula?
- Como assim de onde eu venho? Helloooooo... Hoje é quarta-feira de cinzas. Estava curtindo os últimos minutos de carnaval, como qualquer pessoa normal.
- Pessoa normal não senhora. Pessoas normais não ficam pulando feito macacos, pintadas feito palhaços, rindo feito tolos, enquanto acontece tanta desgraça nesse mundo.
- Eu havia esquecido. Pessoas normais acordam às 6 da manhã em plena quarta-feira de cinzas, com um humor super apurado, e vão... Pra onde você está indo mesmo?
- Trabalhar.
- Mas hoje é feriado. A empresa está fechada.
- Vou por em dia umas coisas que estão atrasadas.
- Pois é. É justamente isso que fazem pessoas normais.
- O que você está querendo dizer com isso.
- Nada. Não ligue pro que estou dizendo. Afinal, sou só uma idiota que, mesmo sem dinheiro, cheia de contas pra pagar e sabendo de toda miséria que assola esse país, ainda se dá ao luxo de pintar o rosto, rir, brincar.
- É isso. Você brinca de ser feliz por 4 dias mesmo sabendo que vai passar todos os outros dias do ano levando essa mesma vida dura. Quanta alienação.
- E você? Vai deixar pra ser feliz quando? Quando for possível ser feliz o ano todo?
- Talvez.
- E depois a alienada sou eu.
- Não me enche. Vai lavar essa cara. Pare de se esconder atrás dessa pintura ridícula. - E ela disse isso enquanto acabava de se maquear pra esconder os sinais que o tempo e a amargura já tinham deixado em seu rosto. Lançou um último olhar de despreza pra amiga, que ainda sorria, colocou os enormes óculos escuros que lhe cobriam quase todo o rosto, abriu a porta e saiu.
P.S.: Post nascido de uma das muitas viagens que a andarilha, generosamente, me deixou acompanhar. Obrigada, Paula.
Dualidade
- Você quer saber quantas ave-marias deve rezar pra ser perdoada?
- Bem que eu poderia te adotar como meu confessor mesmo. Cada um tem o que merece... rs. Mas então, não vai dizer o que achou?
- Sobre o quê?
- Sobre o que acabei de te contar, oras.
- Especificamente sobre a história não tenho nada a dizer, mas sobre você...
- Sobre mim...
- Bom, sobre você eu poderia fazer muitas coisas... rs.
- Muito engraçado.
- Não gostou da idéia?
- Voltando ao assunto...
- Vou te dizer o que penso. Há pessoas que têm tanto apego às regras sociais, morais, religiosas, que reprimem seus instintos mais primitivos. Eu sinceramente penso que essas pessoas são chatas e desinteressantes, mas, à sua maneira, elas vivem em paz. Outras pessoas seguem seus instintos sem qualquer pudor ou arrependimento simplesmente porque vivem centradas em si mesmas, em seu prazer, em seu bem-estar. Essas pessoas podem viver em eterna guerra com os outros e nem se importam com isso, mas não guerreiam consigo mesmas. Não há grandes conflitos internos porque já escolheram um lado do muro.
- Você, por exemplo.
- Isso. Eu me enquadro no segundo grupo.
- E eu?
- O terceiro grupo. Você faz parte de um grupo de pessoas que reprimem seus instintos até não poderem mais, daí explodem e tudo acontece de forma ainda mais intensa do que se não fosse contido. Depois que se sentem saciadas, pessoas como você são arrebatadas por todo aquele sentimentalismo e questões morais que as corroem, que as fazem se sentir culpadas por serem quem são.
- Está querendo dizer que não escolhi um dos lados do muro?
- Exato. Você é potencialmente uma boa menina e uma bomba pronta pra explodir a qualquer momento. Não dá pra conciliar as duas coisas sem uma boa dose de angústia.
- Todo mundo é assim.
- Não vem com essa história de todo mundo. Você sabe que isso é conversa fiada.
- Conversa fiada é o que estamos tendo agora. Tenho que ir.
- Falou a boa menina. Quando estiver chegando a hora da erupção, promete que me liga?
- Está querendo se queimar, é?
- Com certeza... rs.
Conflito de pessoas
- Nem eu.
- Você não me entende?
- Eu não me entendo.
- E isso não te angustia?
- Não tanto quanto a você.
- Não é importante pra você entender a si mesma?
- É importante, não urgente. Já fico satisfeita de entender minhas reações, minhas atitudes. Tentar entender uma pessoa é como interpretar um texto. Ainda que essa pessoa seja você mesma. Você pode até ter a sensação de que captou a mensagem. Mas certeza nunca terá. Pessoas não são equações, não podem ser resolvidas.
- Então suas atitudes você entende?
- Às vezes demoro bastante... rs.
- Você entende por que foi embora, por que me deixou falando sozinho?
- Porque concordo contigo. Você não me entende.
- Mas você também não se entende. Foge de si mesma?
- Se fujo de mim mesma? Algumas vezes.
- E como você faz pra te trazer de volta? Como eu faço pra te trazer de volta?
- Aí é que está. Não tente me fazer voltar, me fazer ir. Não tente entender. Essas coisas acontecem naturalmente. Ou não.
- Eu não vou desistir de você.
- Nem eu.
- Não vai desistir de mim?
- Não vou desistir de mim.
Questão de escolha
- Você acredita?
- Meus amigos da escola dizem que ele não existe.
- E você?
- Não tenho certeza. Sou criança. Por isso estou perguntando pra você, que é adulta.
- Aí é que você se engana. Provavelmente quando tiver a minha idade você terá muito menos certezas do que tem hoje.
- Mas quanto mais a gente cresce, mais aprende coisas.
- Pois eu acho que o aprendizado tem muito mais a ver com a capacidade de duvidar do que com certezas absolutas.
- Tia, você está complicando tudo.
- Está vendo o que falei? Adultos são essencialmente complicados.
- E o Papai Noel, existe?
- Você acredita?
- Eu sinto que ele existe, mas todo mundo diz que não existe.
- Ah, querido, hoje é o Papai Noel, amanhã o amor, depois a eternidade. Durante sua vida, por diversas vezes, as pessoas vão te dizer que coisas que você sente são só ilusão. O grande lance é decidir quem vai determinar em que você acredita.
- Eu vou determinar.
- Então...
- Papai Noel existe. O MEU Papai Noel existe.
A ressaca e seus desdobramentos existenciais
- Ressaca.
- Ih, nem me fale. No sábado passado, acordei numa ressaca atroz, olhei pro homem que dormia a meu lado e tive que perguntar: "Quem é você?". Imagine que situação deprimente.
- Deprimente foi a situação que vivi hoje. Acordei numa ressaca atroz, olhei pra mim mesma e tive que perguntar: "Quem é você?".
A merda e o bolo
- É pra ser sincera ou educada?
- Sincera, mas sem xingamentos hein. Lembre-se que essa é uma conversa vespertina.
- Engraçadinho.
- O que foi?
- Nada demais. Se eu conseguisse ser um pouco racional, perceberia que nem vale à pena me preocupar tanto. Pelo menos não agora. Mas quem disse que estou conseguindo usar a razão?
- Na verdade são raros os momentos em que pensamos com razão. Acho que nunca pensamos com razão quando realmente precisamos.
- Isso já é um consolo. Tipo: "Você está fazendo merda, mas sorria, você não é a única."
- Exato! Afinal de contas, é fazendo merda que se aduba a vida.
- Se é assim mesmo, minha vida está devidamente adubada. Mas calma aí. Cadê as flores?
- Aí você está querendo tudo mastigado demais. Por falar em mastigado, procura aí suas flores que eu já venho, antes que meu bolo queime!
...
- Tudo sob controle.
- E você sabe até fazer bolo, é?
- Claro, afinal não é só de merda que vive o homem. Por falar nisso, encontrou as flores?
- Não.
- Vai continuar procurando?
- Sempre.
- Boa menina, merece até um pedaço de bolo.
P.S.: Todos os créditos pra Frank, seus ditos populares e sua mania de, brincando, me fazer pensar.
Tempo, chuva e até logo
- Tempo pra pensar?
- Não !!! Tempo pra não pensar. Só o tempo, passando, curando, serenando.
- Ei, é o tempo, não é a chuva. Não há ligação entre os dois.
- Será mesmo?
- O tempo não tem "cara" de infância, não cheira a mato molhado, não tem som de acalanto.
- É, pode ser que não mesmo. Mas ele pode ser assustador e também nosso maior aliado; ele cai dos céus em nossas cabeças, sem pedir licença, sem perguntar se estamos preparados; ele destrói mas também é renascimento.
- O tempo?
- E a chuva.
- Sabe de uma coisa?
- Não.
- Você precisa mesmo de um tempo.
- Pra pensar?
- Não !!! Tempo pra não pensar. Só o tempo, passando, curando, serenando.
P.S.: Eu vou mas volto, viu? Comportem-se e deixem um monte de recados pra eu pensar que fiz falta... rs... brincadeirinha... Até sábado.
Confissões e reflexões
Eu também queria saber uma série de coisas. Por que ele complica tanto? Por que ironiza quando eu falo sério? Por que se entristece quando eu revido a brincadeira? Afinal de contas, ele é frio demais ou sensível demais? Acho que ele é louco demais.
- Eu te adoro, por isso sou tão complicado.Se não gostasse tanto de você, eu seria “facim, facim”... rs.
Ele me adora. Foi isso que eu ouvi? Ele me adora e por isso é complicado? Então se não gostasse de mim, ele seria menos duro comigo? Facinho? Não, não mesmo. Ele nunca seria facinho. Mas, que ele podia ser menos complicado, ah, isso podia.
- Então... saiba que você é tudo o que falam, mas é o que eu falo também.
Ahn? Então quando ele dizia que eu não tinha todas aquelas qualidades que meus amigos falavam, era tudo mentira? Ai, que fofo. Espera aí. Ele estava falando sério quando me chamava de mimada, fria, egocêntrica. Aff... Nunca sei se ele me irrita ou me encanta.
- Eu te adoro mais pelos seus defeitos do que pelas suas qualidades.
Ele decididamente me encanta. Chato, inconveniente, irritante. Mas adorável.
- Gostar de quem só tem qualidades é fácil, gosto de HUMANIDADE.
Ele gosta de humanidade? Pois eu gosto mesmo é dele e do seu jeito meio irônico, meio doce e absolutamente sem jeito.
Idílios virtuais
Idílios virtuais. Relações baseadas em outras regras, outros conceitos, mas, no fim, do outro lado dos fios e cabos, pessoas. Pessoas são sensíveis. Pessoas são contraditórias. Pessoas são complicadas. Mas, acima de tudo, pessoas são engraçadas. São personagens vivas que tiveram a ousadia de pular pro lado de cá. A vida real.
Portanto, depois de algumas boas histórias (viu o "hi"? vida real, queridos, virtualmente real) ouvidas, eu tinha que escrever sobre isso...
Um encontro, vários desencontros e salsicha enlatada
- Olá !!!
- Oi.
- Quanta animação.
- Eu respondi, oras. O que você quer mais?
- Não quero nada. Aliás, não quero mais nada de você. Ainda está no trabalho?
- Estou.
- Sai a que horas?
- Às 6, como sempre.
- Você realmente não quer conversar hoje, não é?
- E não estamos conversando?
- Estamos.
- Então.
- Ontem pensei em você, em nós.
- Foi?
- Foi.
- Ahn.
- Ahn? O que significa “ahn”?
- Ahn é ahn. Não significa nada.
- Entendi. Nada. Quer saber? Desisto. Com você agora só falo de amenidades.
- Amenidades? E eu lá tenho cara de homem de “amenidades”?
- Pra mim, agora tem. Por falar nisso, estou com vontade de comer salsicha enlatada.
- Então seu conceito de amenidades envolve salsicha enlatada? Bom, melhor eu te lembrar salsicha que novela das seis.
- Que mente suja. Nem tinha pensado no duplo sentido?
- Não? Duvido.
- Está certo, eu pensei, mas estava falando só no sentido “comível” da salsicha.
- Então.
- Bobo.
- Sabe de uma coisa? O fato de eu não falar, não quer dizer que eu não sinta sua falta.
- Você é louco? Eu falando de salsicha e você lembra que sente minha falta.
- Eu não lembrei. Nunca esqueci.
- É?
- É.
- Se é assim, quando vier me ver, terá que trazer salsicha enlatada.
- Umas esperam flores, outras, bombons e você, salsicha.
- Digamos que meu gosto é meio duvidoso. Afinal, gosto de você.
- Eu também gosto de você, especialmente nos momentos em que não falo isso.
Apenas mais um ato
- Havia tantos amigos seus aqui em casa naquele dia.
- Você sabe sim. É aquele alto, que vive fazendo piadas.
- Ah, acho que sei. Não é aquele que tinha perdido a mãe há pouco tempo?
- Esse mesmo ! Hummm, agora sei por que ele não estava fazendo tantas piadas.
- Eu não gosto dele. Também não gosto desses seus outros amigos. Eles te incentivam a beber.
- Eles não me incentivam a beber. Você me incentiva a beber. Você e essa sua mania de falar mais palavras por minuto do que minha cabeça consegue processar. Daí preciso de algo que me faça relaxar depois de tanto esforço. Será que é possível alguém sofer de LER por esforço repetitivo do cérebro?
- Muito engraçado. Quer saber? Eu não falo muito, só o suficiente, aliás nem o suficiente, afinal ainda não te convenci.
- Afinal de contas, você quer me convencer a fazer o quê?
- Quero te convencer a mudar.
- Posso saber o que você quer mudar em mim?
- Nada demais. Quero que você pare de beber, comece a se tratar, durma mais cedo, faça as refeições na hora certa e faça exercícios físicos. Isso é pedir muito?
- Não, claro que não. Afinal você nem quer que eu morra e nasça de novo.
- Destesto quando você me responde nesse tom irônico.
- Verdade? Então, esse pode ser mais um item pra sua lista de mudanças. Mas, voltando ao assunto, eu não estou bebendo tanto assim e você está sendo injusta, estou me tratando. Não fui ao médico no mês passado?
- Foi.
- Então? Como você pode dizer que não estou me cuidando? Eu até comprei os remédios que ele prescreveu.
- Ah, é verdade. Você só esqueceu que gavetas não tomam remédios e que o médico não mandou você comprar os medicamentos, mandou você usá-los.
- Eu detesto remédios.
- E é pra mim que você diz isso? Estou cansada de saber que você detesta remédios. E sei exatamente por quê.
- Também, a resposta é fácil. O governo coloca veneno em remédios usados por velhos pra que morramos todos e deixemos de ser um peso pra seguridade social.
- Deixa de bobagem. Você compra seus remédios na farmácia, não pega no posto. Fora isso, o governo tem mais a fazer do que matar velhos, pra que sujar as mãos? A "violência" faz o trabalho sujo. Mas, não adianta tentar me enrolar. Você não toma os remédios porque se tomar não poderá beber.
- Claro que não. Eu já não tomava os remédios quando não bebia.
- Engraçadinho. Qualquer dia você morre e ainda vão dizer que não cuidei bem de você.
- Não vou morrer tão cedo. Tenho que cuidar de você, afinal sou o homem da casa.
- Sei, sei. Também me pergunto o que faria se não tivesse você.
- Agora é você quem está sendo irônica.
- Não estou sendo irônica. Passo metade dos meus dias cuidando de você e a outra metade pensando em como cuidar melhor de você.
- Eu sei, você ainda não desistiu, não é?
- Nunca vou desistir. Você não vive repetindo o quanto sou teimosa.
- Devia falar mais vezes o quanto você é adorável, além de teimosa.
- Isso é uma declaração de amor?
- Prefere que eu diga que te amo?
- Se eu preferisse esse tipo de declaração de amor, não tinha casado com você. Gosto do seu jeito.
- Querida, sabe de uma coisa? Eu não mudaria nada em você.
- Nem eu.
- Ah não? E aquela lista interminável?
- Amor, vamos dormir? Vem cá pertinho, vem. Apaga a luz.
- Está certo, boa noite.
