P.S.1: "Respeitável Público" foi literalmente uma lembrança dada a um querido amigo. Um dia estava na estrada, indo pra uma audiência numa cidade próxima, quando, de repente, Tossan veio a minha cabeça e esse poema surgiu assim, quase completo, como se já estivesse pronto, gravitando entre as nuvens que cobriam o céu naquela manhã nublada. Acho que ele (o poema, assim como o próprio Tossan) já vinha se construindo não só a partir de minhas próprias impressões, como de cada comentário que li no http://www.klictossan.blogspot.com/. Enfim, "Respeitável Público" não nasceu só da minha enorme simpatia por pessoas sensíveis, que não têm o menor pudor em mostrar sua delicadeza, em oferecer sua gentileza, tal poema nasceu antes do encantamento que vi se repetir incontáveis vezes nas palavras das dezenas de pessoas que o visitam a cada novo post.
P.S.2: Aproveito a oportunidade pra agradecer o recorrente carinho da In Natura que, mais uma vez, publicou um texto meu (www.goldinnatura.blogspot.com/2010/02/respeitavel-publico) e, ainda, me deu a oportunidade de homenagear um querido amigo.
O amor perfeito tem raízes profundas, pra se manter nutrido caule flexível, pra se manter de pé pétalas delicadas, pra espalhar beleza, renovar a fé
O amor imperfeito é exatamente igual. mas você o cultiva em casa como quem olha uma flor que cresce no quintal.
Então, meus caros, aviso: amem assim... mas olhando a flor no jardins do mundo. pois o amor perfeito é feito a luz de rio e mar: é ora doce, ora salgado, ora leve e ora profundo.
Mário Liz e Dani Pedroza - 30/01/10
P.S.: Escrever em parceria é como fazer sexo. Até que, no início, você tem algumas expectativas, pretensões, mas, ao fechar os olhos, abrir os lábios, entregar o corpo, o que realmente passa a determinar os acontecimentos, os sentimentos, os desejos, é o próprio desenrolar dos movimentos. Movimentos de corpos, almas, mãos. 4 mãos.
Ciranda girando, corando a cara da criança. Melodia pairando no ar tal qual o ritmo da dança.
Roda de mãos atadas é mundo. Círculo de elos entrelaçados é tempo.
O compasso pode mudar de direção no próximo segundo. A roda gira pra um ou outro lado. Portanto, menino, fique atento !
Cuidado pra não tropeçar na saia da garota. Ela é faceira e pode lhe enredar. Não olhe fixo em seus olhos. São águas profundas e turvas. Você pode se afogar.
Mas se não tiver medo e ainda houver no seu coração a vontade de brincar...
Aperte as mãos, acerte o passo, arregace o peito.
A vida tem jeito. Não é jogo, não é armadilha. É só a menina rimando um convite. É só a ciranda que continua a rodar.
P.S.: Não é essa a formatação original do poema. Mas, acho que não é mais segredo pra ninguém minha falta de jeito com essas ferramentas tecnológicas. Enfim, travamos uma batalha aqui e, no fim das contas, o editor de texto me ganhou... rs.
P.S.2: Alguns comentários referiram-se a música (sem crase mesmo, sem artigo). Pois é, vocês têm toda razão. Por motivos técnicos (mais alguns... rs), não postei um vídeo. Mas, enquanto escrevia o post, foi a música Falsa Baiana que esteve pairando por aqui.
A morte chegou numa noite de lua minguante, Suas mãos eram quentes, seu olhar insinuante. Chegada a hora de começar a minha jornada Não voamos, era abaixo a caminhada. Já imaginava que os céus não se abririam pra me receber, Há na morte uma justiça absoluta e irrestrita Que a vida jamais será capaz de conceber.
Descíamos escadas e mais escadas, Já iniciando minha penitência. O corpo, em torpor pelas drogas, Arrastava-se com extrema lentidão. A alma, anestesiada pela resignação, Entregara-se sem qualquer resistência.
Ao chegar às profundezas do meu inferno particular, Não mergulhei num poço fétido e incandescente. Os degraus desembocaram num corredor de gelo Terrivelmente iluminado por luzes fluorescentes. O enxofre não pairava no ar, Não ouvia gritos de dor lancinante. Só havia uma ausência de perfume, de tudo E sussurros abafados de uma desesperança angustiante.
Quis procurar alento nas mãos quentes da morte, Ela já não estava mais ao meu lado. Dando por fim sua breve visita, Largou-me à própria sorte. Por costume, persistência ou uma espécie de fé Continuei percorrendo aquela geleira deserta Margeada por gemidos de dor e portas entre-abertas.
Ao erguer os olhos, avistei-a mais adiante. Estava à minha espera, ao fim da linha, Com um risinho irônico e braços estendidos, Lá estava ela, a Vida que um dia fora minha.
P.S.: Viagem de volta é um dos poemas escritos no hospital durante a minha recuperação do transplante. Ele foi escrito no dia 9 de julho deste ano, 2 dias depois da cirurgia. Por que estou postando justamente agora? Porque chegou a hora. Simples assim.
Ela abriu a porta e o pó invadiu suas narinas causando uma forte ardência. Era a velha alergia à estagnação que lhe roubava ar e paciência. Prendeu a respiração e entrou. Foi logo abrindo as janelas, tomando aquele espaço que considerava seu. Ao menos, temporariamente.
Depois de claro todo o ambiente, encostou num canto e começou a planejar: Como ocuparia aquele grande espaço vazio? Ligou a velha vitrola, deixando que seu som atemporal pairasse no ar. Qualquer um que passasse por perto, de padre a vadio, saberia que ali era um lugar sem tempo determinado, uma ponte, um elo perdido.
Ela, cujo habitat sempre fora negro com pequenos adereços brilhantes, decorado por um grande enfeite prateado de forma variante. Ela, sempre tão criatura, resolveu brincar de criador, sentou no chão, remexeu a terra e plantou uma roseira, com uma estranha sensação que bem poderia chamar amor. Plantou a roseira pensando que faria todo sentido criar raízes naquele jardim que facilmente poderia ter saído de uma das telas que um certo pintor melancólico e frustrado vendia naquela praça de anos atrás, um ano que não se recorda agora, de quem ninguém se lembra mais.
Por dias, trabalhou incansavelmente. Quando chegavam as noites, ela dormia sono profundo, cansada de dias inteiros de labuta, na lida. Limpou, perfumou, ocupou. Ocupou-se daquele lugar, daquele momento, daquela vida. Até que num momento qualquer, que hoje não consegue determinar quando, surpreendeu-se com uma constatação a atordoada mulher. As paredes estavam todas ocupadas, estava pronta a acomodação. Seu cheiro estava em cada canto, sua música ecoava senhora da situação. A semente havia germinado, em pouco tempo a roseira começaria a brotar. Mas aquele cheiro não era mais o seu, tampouco era seu aquele lugar. Não reconhecia aqueles rostos nas fotografias, muito menos a face que via retratada em cada espelho. Voltou a perambular nas noites, a não ver mais passarem os dias. E a alergia ao pó que somente ela via tornou insuportável a respiração naquele ambiente de rotina, estagnação.
E quando, enfim, fechou a porta, antes de partir novamente, olhou o botão de rosa que não veria ser deflorado e riu de sua própria tolice ao imaginar em outro momento que um dia poderia não ser mais angústia, frustração, tormento, plantar seu destino em terra fresca e firme, colher o que fora plantado, deixar de arrumar malas, preparando-se pra partir. Descansar de olhos fechados, sem a brutal sensação de que nunca mais os poderia abrir.
P.S.: Depois de dias de gripe, mudança e adaptação, estou de volta (isso soou meio trágico). Ao abrir o blog e ler algumas mensagens deixadas, percebi o quanto senti falta desse meu reino de palavras, ideias e (cada vez) mais sentimentos..
Eu posso rasgar a capa que me cobre o peito Mas você sobreviverá sem sua armadura?
Eu posso deixar que mergulhe no abismo que é meu leito Mas você aprenderá a voar antes de chegar ao chão?
Eu posso desatar todos os nós, largar as rédeas Mas você terá fôlego pra me acompanhar?
Eu posso entreabrir a boca Mas você ainda pode fechar os olhos?
Você está pensando o quanto sou torpe Que nada faço ou ofereço sem ganhar algo em troca Você tem razão Meu amor não é sagrado É secular escambo Olho por olho Tem que pagar pra ver Jogar as cartas na mesa Correr os riscos
Eis sua chance Acalme seu coração Diga a ele que eu não posso Que sou uma grande covarde E vá em paz Sem pensar nos seus próprios medos Sem lembrar do que você não pôde
"Penso logo existo." Talvez devesse dizer: Penso que existo. Não seria tudo isso uma grande ilusão? Quer saber? Melhor não pensar mais nisso. Apenas continuar existindo. Ou não.
Ela surgiu assim de repente tal qual divindade Tive vontade de me jogar aos seus pés Adorá-la como deusa Oferecer-lhe um manto, meu pranto, um altar Mas nada disso a apeteceria Era a feiticeira do movimento Ela queria bailar
Não me restou outra opção Levantei-me e segui a aparição Em seu ritmo frenético, intenso, insano Ela continuou a dançar Trazia em uma das mãos a vara de condão O chão começou a riscar
Meu destino foi selado naquele instante A linha trêmula nascida do bailar da divina criatura Seria o único caminho a trilhar dali em diante Seguindo seus passos, ainda sem jeito Expurguei toda dor que me ardia no peito E de vazio, melancólico, malabarista Tornei-me ébrio, alucinado, equilibrista
P.S.: Essa cena foi uma das melhores coisas que vi na TV nos últimos anos. Ter visto essa metáfora em movimento me proporcionou 3 coisas dignas de nota: primeiro fiquei ali parada sentindo como certas sutilezas tocam profundamente em mim; depois me peguei lembrando o encantamente que senti ao conhecer a obra de Machado de Assis, especialmente as personagens femininas; por fim, pude lembrar que o "equilíbrio" não necessariamente encontra-se num porto-seguro, ele pode estar contido numa linha irregular nascida de uma dança insana, oscilante, livre.
Um novo dia é uma promessa Promessas são como bolhas de sabão Nascem impetuosas, ganhando os céus Mas podem estourar ao simples toque das mãos
Um novo dia é uma dádiva Dádivas são presentes divinos Ninguém sabe ao certo porque os recebe Nem mesmo se voltará a ser escolhido
Um novo dia é uma batalha Batalhas podem ferir, fazer chorar, fazer sofrer Há momentos de pura glória, satisfação, regozijo Mas a grande e real vitória é a capacidade de sobreviver
Um novo dia é uma dúvida Dúvidas alimentam a debilidade, a insegurança Mas também podem ser elas, as mesmas dúvidas As únicas mantenedoras da menina esperança
Um novo dia é uma chance Chances são como a garota faceira, espevitada Se não for João, será Pedro Fica com ela o que for capaz de conquistá-la
Um novo dia é um mistério Mistérios instigam o intrépido a desvendá-los E ele fica ali parado, imóvel, compenetrado Enquanto o dia, sem parcimônia, trata de devorá-lo
Um novo dia é uma folha em branco Folhas em branco podem virar lixo, tratado, carta de amor E seu destino será definido, escrito, será traçado Pelas mãos daquele que se aventurar a ser o escritor
Quando eu copiei a brincadeirinha de sexta (último post) do blog da Ana, uma das questões era "o que as outras pessoas pensam sobre você". Obviamente, não soube responder. Mas, essa pergunta me remeteu a outra pergunta que vira e mexe passa pela minha cabeça (e, conseqüentemente, já devo ter escrito sobre isso aqui algumas vezes). Somos quem pensamos que somos ou somos quem os outros pensam que somos?
Calma, calma, não vou me aprofundar nessas questões, afinal hoje é segunda-feira, não é um dia muito propício pra minha filosofia de botequim... rs.
Voltando ao assunto, as respostas de vcs me deram uma idéia, fazer uma colagem, um mosaico composto de fragmentos de mim, ou seria melhor dizer fragmentos de vcs? rs...
O fato é que, de repente, percebi que vcs tinham me dado um quebra-cabeça e não me "fiz de rogada" (essa é da lista "expressões da vovó"... rs), aceitei a brincadeira, eis o resultado...
Violeta da colina
Uma mulher como outra qualquer do planeta que ri quando deve chorar que mistura a dor e a alegria e possui a estranha mania de ter fé na vida
Começar de novo...
Uma garota que tem medo do escuro que tem medo do inseguro dos fantasma da sua voz
E contar comigo...
Controlando a minha maluquez misturada com minha lucidez Sozinha Não sei se me levo ou se me acompanho Sozinha Tudo parece maior
Vai valer à pena ter amanhecido.
Sonho semeando o mundo real Vem andar e voa Trazida por um simples torcer do destino
P.S.: Não pensem que esqueci das músicas que falam sobre vcs. Aliás, essa foi a parte mais interessante da brincadeira... rs.
"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela, que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja."