sábado, 7 de novembro de 2009

Epitáfio


Ele nasceu em uma manhã ensolarada. Chegou ao mundo forte, sadio, chorando bem alto, como quem avisa a todos a que veio. Foi uma criança cheia de energia. Os joelhos estavam sempre ralados e os pés do moleque tinham a cor escura do doce que lambuzava a boca nas festas juninas.

Na juventude, era tão popular com as garotas quanto com os meninos que o olhavam com admiração e certo despeito. Começou a trabalhar cedo para ajudar nas despesas de casa, mas nem por isso deixou de lado os estudos. Casou com a mulher certa e juntos construíram uma família modelo. Modelo de conduta, postura, viver.

Sempre agia como um homem de verdade deveria agir. Sabia exatamente o que todos esperavam dele e se orgulhava de corresponder a tais expectativas. Tudo ia muito bem até aquele momento.

No consultório, entre 4 paredes insuportavelmente brancas, de repente percebeu-se totalmente isolado do resto do mundo. Uma muralha intransponível. Só o que via diante de si eram os olhos miúdos e plácidos daquele médico que parecia lhe perscrutar a alma enquanto esperava a resposta pra pergunta que acabara de fazer:

- Onde dói ???

Acontece que apartado da opinião e expectativas alheias, ele estava irremediavelmente apartado de si mesmo. Sentia-se perdido, experimentava uma sensação de total solidão, ausência dele próprio. Pela primeira vez, não existia a resposta adequada, aceita, correta. O que, pra ele, significava não haver qualquer resposta.

Mas o médico, pacientemente, aguardava. Os olhos miúdos agora pareciam ainda mais investigativos. Lentamente, as paredes começaram a se movimentar, vinham a seu encontro. Ele tentou se levantar e sair daquela situação surreal. Não conseguiu mover um único músculo. Seu destino já estava selado.

O homem perfeito morreu ali. Espremido entre 4 paredes insuportavelmente brancas que lhe serviram de túmulo. E aquele fim absurdo não foi apenas a sua morte, mas a cabal declaração de que ele nunca havia existido. Como não poderia deixar de ser, seu epitáfio não foi a descrição de sua vida (anulada), mas o instrumento de sua morte. Seu epitáfio foi a simples e fatal pergunta do médico de olhos miúdos e plácidos:

- Onde dói ???

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Se conselho fosse bom...

Não tente entender o coração de uma mulher. O entendimento é o derradeiro passo rumo à banalização dos mistérios do sentir. Além do mais, essa seria uma tarefa tediosa e com resultados absolutamente inúteis. Entendê-la não te faria gostar mais ou menos dela. Felizmente, o afeto não acompanha a construção e a queda de nossas ilusões de saber ou não saber. Entendê-la, tampouco, tornaria a convivência mais interessante. Se você buscasse a paz suprema de uma vida sem surpresas, compraria um pinguim de geladeira. Mas não, você está diante de uma mulher. Então, pra que ficar se perguntando por que ela é tão imprevisível ou o que se passa com ela? A única pergunta que deve fazer a si mesmo é se, mesmo sem compreendê-la, você a quer por perto.

Se a resposta for não, qualquer tentativa de entendimento é apenas uma busca por um parâmetro a ser utilizado em relações futuras. Acontece que mais adiante, não só a mulher será outra, como você mesmo será diferente. Morremos e renascemos a cada segundo. Tentar criar um padrão, além de inútil, seria bem frustrante.

Se a resposta for sim, aí mesmo que deve deixar de lado essa tolice de entendimento. Puxe-a pra bem perto, não permita que ela se refugie em suas próprias incertezas. Encare-a nos olhos e deixe que agora ela decida se também te quer.

Se ela falar, ouça-a. Não é preciso entender os mecanismos da translação pra se encantar com o nascer do sol.

Se ela se calar, compartilhe do seu silêncio. Silêncios partilhados são como confidências reveladas. Tem o poder de sobrepujar fronteiras de tempo e distância.

Se ela chorar, não tente enxugar suas lágrimas. Não construa represas que não resistirão à força ininterrupta das águas. O estrago pode ser devastador.

Por fim, meu caro, se ela sorrir. Ahhh, se ela sorrir, mergulhe de cabeça no fundo dos seus olhos. Somente lá, encontrará a única resposta da qual você realmente precisa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O pé do coelho que não saiu do Cartola


O alarme do celular havia começado a tocar quando a bateria acabou. Ainda dormia, mas a consciência (que nunca dorme) me lembrou da sorte que foi a bateria não ter acabado antes. Afinal, eu não podia acordar atrasada denovo. Tinha que, ao menos, tomar um café forte e fazer uma maquiagem mais ou menos descente. Enfim, eu tinha que estar vestida, preparada e disposta às 8 da manhã. Eu tinha muitas coisas. Mas quem é que pode ser tantas coisas a essa hora? Você? Sorte a sua. Mas eu não sou você, eu sou a doida varrida que torceu o nariz pra sorte do alarme ter tocado antes da bateria acabar, virou pro canto e dormiu mais meia hora. Às 7 e meia dei um pulo como se alguém (deve ter sido a consciência que nunca dorme) tivesse me empurrado pra fora da cama.

Correria. Agora eu tinha meia hora (ironicamente, o mesmo tempo de sono a mais) pra tomar banho, me vestir, tomar o café e sair. Não preciso dizer, não é? O café ficou pra próxima. As duas primeiras tarefas tomaram todo o tempo que eu tinha e ainda fiquei devendo uns cinco minutos. Saí de casa com a incômoda sensação de que os sapatos pretos ficariam melhores.

É nesse momento que você pergunta. Mas você gastou meia hora pra tomar banho e se arrumar? Óbviooooo. Sou mulher, lembra? Escolher uma roupa não é assim a tarefa-mais-fácil-desse-mundo. Ah, está bom, eu confesso. Entre o banho e a roupa, eu liguei a TV pra ouvir as notícias animadoras que mais uma vez renovariam minha fé no ser humano e me fariam começar o dia mais confiante, aquelas mesmo tipo a derrubada à bala de um helicóptero pelos traficantes, a maior taxação da poupança, a polícia que rouba os ladrões que tinham acabado de matar pra roubar o que a polícia mais adiante lhes roubaria. Aquelas notícias que retratam perfeitamente como a nossa vida é bela.

Mas, voltando ao assunto, liguei a TV e a Record News passava um vídeo de Beth Carvalho cantando Folhas Secas há trezentos e cinquenta e dois anos atrás. Gente, juro, foi mais forte que eu. Tive que parar pra ver. Pensem comigo, era Cartola, era o início de um dia em que fui acordada pelo alarme do celular antes da bateria acabar. Devia ser um sinal de sorte, afinal, o coelho sai da cartola e o pé dele é ou não é um talismã? Está bom, não era um sinal tão bom assim. O dia foi longo, as reuniões intermináveis, o café (aquele que eu não tomei pra ver o vídeo) foi tomado na hora do almoço.

Não podia ser diferente. Naquele mesmo dia, bem no meio da mais chata e inútil das reuniões (já falei sobre a minha teoria da inutilidade das reuniões?), a consciência (a insone) gritou aos meus ouvidos.

- Sem querer ser desagradável, preciso te dizer uma coisa. Folhas Secas não é do Cartola. É uma composição do Nelson Cavaquinho e, se não me engano, do Guilherme Brito.

- Eu desconfiei desde o início. Este não estava mesmo parecendo um dia de sorte.

- O que você queria? Ganhar na loteria, uma viagem pra Marte, um princípe encantado montado num cavalo branco?

- Pode ser um princípe encantado, montado numa nave espacial, pra me levar a uma viagem a Marte, em comemoração por eu ter ganho na loteria? rs

- Muito engraçada. O fato é que hoje é um dia comum, você tomou café na hora do almoço e provavelmente almoçará na hora do jantar, tudo porque não acorda na hora em que deveria e ainda se dá ao luxo de ficar vendo TV. Pare de divagações inúteis e preste atenção no seu trabalho.

- Estava demorando. A consciência estava permissiva demais pra ser verdade. Ei, consciência, me diz uma coisa. Você nunca dorme mesmo?

- Nunca.

- E o que você faz enquanto eu durmo?

- Vigio seus sonhos.

- Mas isso não é justo. Os sonhos deveriam ser território livre.

- Não há territórios livres de consciência, minha cara. Essa é a sina de vocês, tolos seres humanos, destacados dos demais por sua racionalidade. Mas, não vou cair nessa sua armadilha de quinta. Vá trabalhar.

- Só mais uma pergunta, vai.

- Só uma.

- Já ouviu dizer que cavaquinhos são amuletos em algum desses lugares exóticos pelo mundo afora?

- Boa tentativa, mas pra mim, não existe mundo afora. Existe mundo adentro. Dentro de você. Já é trabalho suficiente. Até mais.

E assim a consciência deu por encerrada a conversa e meu suposto dia de sorte. É isso. Ela frustra minhas mais doces ilusões, me persegue até nos sonhos e quando eu quero conversar, resolve se calar. Cala-se mas não vai embora, nem nunca, nunca dorme.

sábado, 24 de outubro de 2009

Movimento das marés


A água que escorre do meu cabelo, desce pelos peitos, brinca envolta do umbigo e empoça na cadeira. Há dias não escrevo uma única linha. Nem mesmo a lista do supermercado. A comida veio depois de uma breve oração via telefone. Dai-me pão, queijo, vinho e traz troco pra R$ 50,00. Amém. O circo não podia faltar, mas focas não escrevem e parecem se divertir bastante. Elas nadam, pulam, dançam e se comunicam razoavelmente bem. Verdade que enquanto a plateia aplaude e os cães ladram, as focas me parecem manter um olhar marejado, mas esse não é um momento propício a suposições metafísicas. Acabo de lembrar que jornalistas também são focas e escrevem, ao menos, tentam. Eu também tentei escrever alguma coisa nos últimos dias. A questão era até bem simples. Algumas palavras rabiscadas em bom português. "Senhor doutor juiz, dê ao meu cliente o que lhe é de direito. E se puder dar mais um pouco, não serei eternamente grata, mas provavelmente meu senhorio receberá de bom grado o aluguel atrasado. Amém... ops... Nestes termos, pede deferimento." Só que há, entre meu cérebro e minhas mãos, meandros mais intrincados que em minha própria alma, que desconfio ser imortal. Bem diferente do meu corpo que, se o coração não pulsa, o sangue não jorra, o cérebro não funciona, morre. Talvez por isso não tenho escrito. Afinal, como pode uma contenda entre seres sem razão fazer o coração pulsar, o sangue correr, o cérebro se assanhar? Faz mesmo sentido as mãos andarem encontrando afazer mais divertido. E o senhorio que espere mais um pouco que a paciência é marca registrada dos homens de boa fé. Minha fé não é das melhores. Ao menos foi o que disse a professora primária na tarde em que me recusei a adorar um amontoado de gesso. A tal mulher desfiou todo um rosário tentando iluminar a garota que tinha fé no movimento das marés, no girar do mundo, no caminhar da vida. Os anos passaram, eu cresci e continuo não levando muita fé na estagnação de altares, santos do pau oco e vasos de flores mortas que, por sinal, vêm sendo substituídas pelo plástico. Talvez a professorinha ainda reze pela aluna desviada. Talvez tenha desistido. Mas eu não. Apesar de dias e noites de mãos paralisadas, hoje, quando senti a água fria arrepiar a pele queimada de sol, o sangue correu vívido pelas veias e o corpo, que justamente por ter a consciência da mortalidade, apega-se tão fortemente a cada lampejo de vida, encaminhou-se pra velha mesa de madeira manchada, povoada por poemas inacabados, sonhos desencontrados, relatórios e requerimentos aguardando revisão. A água que escorria do cabelo agora não passa de chuvinha rala, o que respingou no chão o calor tratou de secar. A cadeira ainda está molhada, o pedido ainda precisa ser redigido, mas o papel já não parece a mulher despida, numa súplica silenciosa pra ser finalmente violada. Mais um papel foi marcado por meus devaneios vadios, outros mais terão o mesmo destino. Os clientes continuarão deflagrando suas guerras particulares, depois tornando-as públicas, eu continuarei escrevendo e as focas continuarão nadando, pulando e dançando. Os olhos continuarão marejados. Porque ninguém, homem, mulher ou foca, pode ser mais ou menos do que verdadeiramente é.

P.S.: Às vezes, as palavras parecem emperrar, daí aparece alguém que te dá um empurrão e a enxurrada te carrega mar adentro. Daí vc fica assim, à mercê do movimento da maré...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Yes, we créu.


Confesso. Chorei quando soube da escolha do Rio pra sediar as Olimpíadas de 2016. Motivos? Tirando o fato de eu ser uma manteiga derretida, acho que vai fazer bem à auto-estima brasileira, vou poder assitir a tudo razoavelmente de perto e não posso negar um certo prazer ao ver meu estado natal sediando um evento de repercusão mundial, a cidade do Rio derrotando Chicago, Tóquio, Madrid. Dor de cotovelo tupiniquim? Que seja. O fato é que essa parada, ganhamos.

É nessa hora que os pragmáticos perguntam. Será que ganhamos mesmo? Será que o legado deixado pelas Olímpiadas será positivo ou herdaremos apenas dívidas, obras inúteis e a sensação de ter comprado gato por lebre?

Nesse momento, não há como deixar de lembrar dos inúmeros defensores da ideia de que sediar o Pan não foi nada lucrativo pro Rio, alegam que as obras realizadas estão sendo mal aproveitadas, que o sistema de transporte não se desenvolveu e que muitas das promessas de melhorias não foram cumpridas, entre outras lamúrias. Além do mais, natural que se pense que um país com tantos problemas graves em áreas como saúde, educação e segurança não pode se dar ao luxo de gastar dinheiro sediando um evento esportivo desse porte.

Acontece que, a meu ver, dois fatores devem ser levados em conta. Primeiro, o maior dos benefícios que teremos com as Olimpíadas não é passível de ser medido monetariamente, tem muito mais a ver com a possibilidade do Brasil se posicionar mundialmente por uma realização positiva. Além do mais, ninguém em sã consciência acredita que esse dinheiro que está sendo captado pra investir na preparação do Rio seria usado na saúde, educação ou segurança caso não tivéssemos sido escolhidos como sede. Eis a cpmf que não deixa qualquer dúvida, alguém viu alguma melhoria expressiva na saúde no período em que ela vigorou?

Por fim, não acho muito produtivo chorar pelo leite derramado. As Olímpiadas de 2016 serão no Rio, fato, não há o que fazer pra evitar isso. Portanto, sinceramente desejo que o tempo que falta até lá seja muito bem aproveitado pra que tudo seja preparado da melhor maneira possível e que usemos esse evento como mais um degrau. Rumo ao pódio olímpico? Sinceramente, conheço pódios mais interessantes... rs.

sábado, 26 de setembro de 2009

Recados


Sou uma parede sem quadros, um mural de recados. Estou aqui, exposta, aberta, disposta. Receptiva. Ofereço-me nua, num convite explícito. Quero que venha, marque-me com cada uma de suas impressões. Escreva um bilhete, cole em mim antes de partir. Deixe impressa em minha alma a parte de ti que achar conveniente compartilhar. Se quiser, raspe minha superfície lisa, guarde numa caixinha de música e leve contigo. Quando abri-la, dançarei junto com a bailarina, voarei com a melodia. Estarei ao seu lado. Dança, música e presença. E você, junto com todos os outros, estará comigo, colado a mim, através das palavras que deixou gravadas antes de partir.

P.S.: Há algum tempo atrás vi essa foto no blog da Kaká (http://kakabullon.blogspot.com/) e simplesmente fiquei apaixonada. Pedi pra copiar e ela que, além de talentosa (como fotógrafa e blogueira), é generosa, de pronto aceitou. Guardei a foto por muito tempo, esperando que as palavras surgissem pra acompanhá-la. Hoje elas (as palavras) apareceram sem aviso prévio e aqui estão. Palavras e imagem. Espero que vc goste, querida Kaká.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Breve adeus

Hoje erguerei um brinde à morte,
a tudo o que fomos ontem,
a velhas crenças, a antigos hábitos.
Hoje beberemos a nossos cadáveres decompostos.
O adubo que fertilizará a terra firme de um outro caminho.
Hoje brindaremos às lágrimas de decepção, ódio, frustração.
A água que regará a semente de um novo tempo
e o fará germinar.
Hoje beberemos à dor mais profunda
que fez cair por terra cada verdade absoluta.
A luz que nos fortalecerá as entranhas
e nos trará a clareza de uma bela manhã.
Hoje erguerei um brinde à morte,
luz, água e adubo,
à morte que fará a vida novamente florescer.