Morta de medo
- Você é terrivelmente incômodo.
- Por quê? Por que te chamo de princesinha? Ou por que digo que sou apaixonado por sua boquinha?
- Não. Quando você diz essas coisas é só patético, e patéticos não são incômodos, são até confortavelmente comuns.
- Então por que te incomodo tanto?
- Porque você renova em mim a esperança nos seres humanos.
- Eu? Você é mais maluca do que eu pensava. Posso ser qualquer coisa, menos um modelo de dignidade, honestidade, honradez.
- Eu disse que você renova minha esperança nos seres humanos, não que me lembra homenagens póstumas. Não estou falando do manto de perfeição com o qual só a morte (ou a distância) pode nos cobrir. Falo de vida, de estar vivo, sangue correndo nas veias, alimentando membros, coração, cérebro.
- E isso te incomoda? Ter esperança é tão ruim assim?
- Acreditar sempre tem uma boa dose de apreensão.
- Assim como viver.
- Assim como viver.
- Medo da frustração?
- Medo da morte.
- Deixar de viver?
- Deixar de acreditar.
Eu, tu, ele, ela
(Mário Liz)
eu ceio o amor. ceio sem saber se seio ou se pele ou se coração. o vento na direção do meu peito. minh’alma longe do chão. perto de mim. deserta de medo. repleta dos mundos que quero. refém da paixão que decoro. minhas cismas de afeto. um cheiro repleto do teu olhar. do Eu-Olhar tuas ruas. tuas carnes nuas de seda. tua nudez nas alamedas do meu desejo. eu vejo uma força tremenda a me dominar. eu sinto a loucura ninar meus ensejos. e vejo teus beijos no som que vem me abraçar. no sol que nasce vermelho. e que morre vermelho tal como o amor vai me findar. tal como as roseiras que vertem seu brilho. no caminho certo que os olhos vão repousar. tal como o sangue também é vermelho. o sangue da terra. o sangue do rio. o sangue do mar. eu tenho esse visgo nas veias. o avesso exposto no verso. universo que ponho a rimar. é por isso que ri mares na vida (ao invés de chorar). é por isso que minha flor se prende ao Agora. e que a poesia me surge Senhora: sem hora de partir ou voltar. vou estar sempre aqui. no acolá das emoções. é onde caminho. é onde me enlaço. desata teus dedos. é cedo, vem me encontrar.
Sobre os brios da soberba
(Ana Clara Otoni)
É difícil me despedir, sem nunca ter chegado. Sem ter percebido a capacidade de me acolher dos seus braços. Nunca ter me feito sua de fato.
O mais complicado porém é confessar tudo isso sem dizer nada. É reconhecer que o meu orgulho me mantém parada e firme na minha completa arrogância.
É pior ainda não ter seu afago, aquele mesmo que eu nunca senti. Ou não quis. Pensar que nada mais justifica o seu bem querer a mim mesma, uma vez que sou eu quem pede para ser deixada. A palavra que mais admiro é muda: o silêncio. E é talvez por isso que eu nunca tenha sentido sua respiração quente, seu peito febril e seu amor incontrolável.
Me perdia sempre no vazio, no meu mudo, surdo e calmo quarto. Enquanto você contava problemas, soluçava façanhas e eu com o olhar fixo no branco gélido da parede. Se eu pedir baixinho, se mendigar cura, se rezar todas as noites e você prometer que tudo isso passa, a prepotência, a insegurança, o medo e o vazio, eu juro que te tento me entregar. Se me ajudar a vender, doar, erradicar todo esse orgulho que ruboriza, der viço e o tom a toda a minha petulância, juro que tento me entregar. Mas que fique claro, não poderei me despedir, falar ou prometer coisas assim vãs sem que tenha me mostrado o poder de seus braços.
P.S.: 10.000 acessos. É impressionante isso já que vejo tantos blogueiros preocupados em escrever o que e da forma que interesse o leitor. Há técnicas, dicas, estratégias. E eu, que neste contexto, não me considero blogueira (coisa mais pomposa), muito menos "marketeira" de mão cheia, só posso agradecer aos queridos que não satisfeitos por visitarem o Impressões, ainda deixam suas próprias impressões, que me levam a tantos outros destinos. Alguns inimagináveis, inicialmente. Por isso que minha forma de comemorar é reverenciar o que me é tão caro quanto escrever, ler. Ler textos, pensamentos, sentimentos, pessoas. 2 pessoas que não se conhecem, nem sequer sabem da existência uma da outra, mas, em determinado momento, conversaram através de seus textos. Cada uma com seu estilo, seus mecanismos, seus motivos, sua beleza. A intersecção? Eu. Meu gosto, meu respeito, minha admiração.
Mário pode ser "lido" em www.meiomarmeiorio.blogspot.com/
Ana Clara pode ser "lida" em www.anaclaraotoni.blogspot.com/
Aos dois e a todos aqueles que alimentam essa "força estranha" que há dentro de mim, muito obrigada.
Respeitável público
Que comece o espetáculo
Ele, em trapézio de versos
Eu, olhos atentos
Coração aos saltos
Ele não é o que parece ser
Nem só poeta
Nem só palhaço
É o que não se pode conceber
Doma o tempo
Adestra sentimentos
Ele é o mago
Mais que perfeito
O amor perfeito
tem raízes profundas, pra se manter nutrido
caule flexível, pra se manter de pé
pétalas delicadas, pra espalhar beleza, renovar a fé
O amor imperfeito
é exatamente igual.
mas você o cultiva em casa
como quem olha uma flor que cresce
no quintal.
Então, meus caros, aviso:
amem assim... mas olhando a flor
no jardins do mundo.
pois o amor perfeito
é feito a luz de rio e mar:
é ora doce, ora salgado, ora leve
e ora profundo.
Mário Liz e Dani Pedroza - 30/01/10
P.S.: Escrever em parceria é como fazer sexo. Até que, no início, você tem algumas expectativas, pretensões, mas, ao fechar os olhos, abrir os lábios, entregar o corpo, o que realmente passa a determinar os acontecimentos, os sentimentos, os desejos, é o próprio desenrolar dos movimentos. Movimentos de corpos, almas, mãos. 4 mãos.
Voltando à tona
Hoje é dia 31 de dezembro de 2009. Faz exatamente 10 dias que ele resolveu dar fim a sua vida. Fez isso antes que simplesmente deixasse de existir, se desintegrasse, implodisse, fosse esmagado por seus próprios sentimentos (ou pela falta deles). Morreu mas não partiu. Nem pra cima, nem pra baixo. O chão não se abriu, uma luz não brilhou no céu. Nenhum sinal, nenhuma trombeta tocando. Ele foi ficando, sempre esperando, mas nada aconteceu. Só que hoje é dia 31 de dezembro e, se resolveu se matar justamente por não querer se transformar em um vivo morto, muito menos vai entrar o ano de 2010 na condição de morto vivo.
Pra frente é que se anda, já dizia o ditado. Já que nem o céu nem as profundezas pareciam muito dispostos a recebê-lo, o jeito era caminhar pra frente. Tentou o primeiro passo. Nada. Sentia como se seus pés (de vento) pesassem 200 kg, simplesmente não conseguia movê-los. Não entendeu. Era um fantasma, devia plainar no ar, com a leveza dos espectros. Mais uma tentativa. Nem sinal de qualquer movimento. Exausto, olhou em volta à procura de abrigo. Não havia cadeiras, não havia encostos. Talvez o castigo divino por uma vida inteira de ócio e sacanagem fosse passar toda a eternidade em pé, sem conseguir dar ao menos um passo (ou vôo) à frente. Mas cadê o Todo Poderoso que nem se dignou a se levantar de seu trono sagrado e dar "pessoalmente" a sentença?
Não podia ser. Devia haver uma saída. Lembrou que morto não sentia dor. (Doce ilusão. Mas disso ele não sabia ainda.) Juntou toda a força que lhe restava e se jogou de costas ao chão que, na verdade, não conseguia enxergar. Não caiu, mas deu alguns passos atrás, o que o fez descobrir que, se pra frente não conseguia andar, o caminho de volta estava aberto, esperando por ele. Por total falta de opção, voltou a mergulhar na escuridão de uma noite sem estrela, sem luar.
...
Abriu os olhos. Não estava mais caindo, estava plainando. Seus braços e pernas, num movimento ritmado. O homem, como não sabe voar, nada. Aquela noite em que ele se lançou num mergulho cego a princípio lhe parecia um mar revolto, agora era rio tranquilo. Se antes o repelia, empurrava cada vez mais em direção ao chão, agora o acolhia, o embalava, tal qual mãe saudosa envolvendo seu filho num abraço afetuoso. Chegou a sentir as mãos que o seguravam, os laços invisíveis que o puxavam de volta.
De repente, foi tomado por um surto de lucidez e tudo ficou muito claro, como se uma lua cheia resolvesse dar o ar da graça pra fazer da noite dia, da perturbação consciência. Era o amor. O amor que ela sentia por ele. O amor que ele sentia por ela. Era ela que não lhe deixava partir de vez, a amante que se joga de joelhos, tranca as portas, rasga a carne e o peito. A amante que não deixa o ser amado prosseguir. Não ainda. Não até que o fogo se apague, não até serem totalmente consumidos, sorverem até a última gota. Ela que o trouxe de volta. E naquele instante ele soube que seria ela que diria a última palavra. Decidiria como seria o fim dessa história. A ele só restara a condição de refém. E não é isso, de uma forma ou de outra, que acontece com todos aqueles que ousam amá-la irrestrita e despudoradamente? Ela. Sempre ela. A vida.
P.S.: O final não é tão feliz como pode aparentar à primeira vista. Mesmo uma casa de paredes rosadas, com placa escrita "Lar, doce lar", será uma prisão angustiante se portas e janelas forem todas trancadas. A vida, geralmente, é amante muito mais "possessiva" que a morte.
Brincadeirinha... o final é feliz sim, afinal, continuo sendo uma eterna otimista... rs.
Um mergulho na escuridão
Ele olhava pela janela um mundo ao qual, desde muito cedo, sabia não pertencer. Um mundo que girava alheio a sua vontade de parar, traçar novos rumos, voltar a andar, a sua vontade de poder escolher. Aliás, essa coisa toda de movimento circular e intermitente dava-lhe um certo enjôo, além de cansaço e uma sensação insuportável de inutilidade.
Falava sem parar. Questionava. Ironizava. Usava todo o seu sarcasmo pra idiotizar um mundo de pessoas que, enquanto ele rosnava de sua janela escancarada, continuavam dormindo, vendo TV, comendo, sendo comidas, vivendo, sem ao menos se dar conta da existência de um homem cansado de tudo, de suas poesias, de suas músicas, de sua sordidez, de sua humanidade.
Não era desprezo o que sentiam por ele. Era uma ausência total de sentimento, uma completa desconsideração da existência do outro. Ele, por motivos diferentes dos meus (o narrador), passou à condição igual a minha. Tornou-se uma ilusão. Só que eu sou um delírio de alguém. E ele, pobre-coitado, um delírio de si mesmo. Algo infinitamente mais solitário que a própria morte.
Mas ele não desistia de usar a sua janela como um palanque. Comício de partido pobre. Silencioso, melancólico, vazio. Naquela noite sem luar, nem mesmo uma estrela meio apagada resolveu aparecer. Só que uma ilusão tem a capacidade de criar outras pra garantir sua permanência e ele não agiu diferente. Ele podia sim ver uma plateia atenta. Atenta e necessitada, como miseráveis sedentos por pão, circo e uma migalha de afeto. Tratou logo de subir na janela pra ficar mais perto de sua audiência, o mundo inteiro. Um mundo que precisava ser parado. Se não por sua própria vontade, mas pelos dois pés que ele pretendia cravar no pedal do freio. Pés que, pra isso, precisavam se desgrudar da janela onde, naquele momento, ele estava de pé.
Jogou-se. Mergulhou naquela noite apagada, sem lua, sem estrelas. Arregalou os olhos, queria ver o exato momento em que o mundo pararia de girar e as pessoas, enfim livres, deixariam de andar a esmo e trilhariam um novo caminho. Mas, de olhos bem abertos, tudo que conseguia ver era o chão, cada vez mais perto, mais perto, mais perto. Fechou os olhos.
P.S.: Enfim, estou de volta com texto inédito. E devo dizer que andava com muita preguiça de escrever, de férias desses mergulhos profundos, mais disposta a molhar os pés em poças bem rasas e cristalinas. Só que alguns estímulos são prazerosamente arrebatadores e cá estou eu. Mário, poeta das minhas angústias, ser citada em seu blog é uma honra, mas o maior prazer disso tudo é a reciprocidade, a troca, a "comunhão", falo isso porque minhas inquietações, se não nascem, transbordam quando leio suas tão bem traçadas linhas. E como o assunto aqui é água, pra quem quer conhecer a nascente, eis o caminho: www.meiomarmeiorio.blogspot.com/
Ahhh... já ia esquecendo, vale à pena dar uma olhada na letra da música que acompanha o post. Não é novidade que gosto (muito) das letras do Dylan, portanto, sou suspeita, mas, enfim, fica aí a dica.
Blogagem Coletiva
Tu já estavas próximo o bastante pra me fazer ouvir com clareza o teu convite. Chamava-me pra dançar a tua música, no compasso ritmado, em que, naquele momento, já pulsava meu corpo. Senti teu cheiro e todos os efeitos que ele causava em mim. Ainda tentei controlar, mas era tarde. Eu já sabia o que aconteceria a seguir.
Levantei-me e caminhei em tua direção. A cada passo, despia-me mais um pouco. Percorri a distância que nos separava, deixando pra trás um caminho de vestes jogadas ao chão. Entreguei-me plenamente desnuda.
Nua, pude sentir o prazer de tuas carícias. Deixei que percorresses todo meu corpo. Libertando-me de tudo que eu havia sido. Lavando a pele, renovaste a alma. As pernas afastadas uma da outra faziam com que eu te sentisse entre as coxas. A boca aberta permitia que eu provasse teu gosto de vida. Gosto pela vida. Gozo pela vida.
Aos poucos, senti acalmarem-se teus murmúrios e abrandar-se a força do teu toque. Eu já sabia exatamente o que aconteceria a seguir. Era naturalmente inevitável. As tempestades sempre transformam-se em chuva fina até... secar.
Após sentir que já tinhas ido. Voltei pelo caminho de roupas que eu havia traçado. Vesti-me com o corpo ainda molhado pra manter por mais tempo o frescor que deixaste em mim.
Com um sorriso mudo nos lábios, pensei antes de adormecer. Aquela tempestade se foi, outras virão e eu, apesar do frio e dos riscos, continuarei sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.1: Aproveitei a Blogagem Coletiva promovida pelo Néctar das Flores, dos queridos Rebeca e Jota Cê, para revisitar Banho de Chuva, texto já postado aqui no Impressões há uns meses atrás. É isso. Continuo sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.2: Já ia esquecendo... Dêem uma olhada lá no Néctar das Flores (http://www.nectar-da-flor.blogspot.com/) e votem no seu texto preferido. Sem vontade de votar? Ainda sim vale a visita, nem que seja pra se embriagar com o perfume das flores.
Recados
P.S.: Há algum tempo atrás vi essa foto no blog da Kaká (http://kakabullon.blogspot.com/) e simplesmente fiquei apaixonada. Pedi pra copiar e ela que, além de talentosa (como fotógrafa e blogueira), é generosa, de pronto aceitou. Guardei a foto por muito tempo, esperando que as palavras surgissem pra acompanhá-la. Hoje elas (as palavras) apareceram sem aviso prévio e aqui estão. Palavras e imagem. Espero que vc goste, querida Kaká.
Impressões de um Nowhere Man
* Era mais uma daquelas verdades, mas de tão absurda que parecia, preferiu mentir.
* Correndo, ainda alcançou o ônibus. Blasfemou quando viu que esquecera a carteira, mas sorriu quando anunciaram o assalto.
* Era o momento mais angustiante da sua vida, nunca sofrera tanto. Noites seguidas de insônia pelo medo de dormir e não conseguir mais sonhar.
* Quem somos? Onde estamos? Para onde vamos? O que fazer em caso de despressurização? O discurso da comissária de vôo parecia muito filosófico.
* Os gemidos de prazer aumentavam, tal qual sua impaciência. Não tanto em relação ao barulho dos vizinhos, mas sim quanto à esposa, dormindo ao lado.
* Viciado em literatura, todo dia retirava um livro novo na biblioteca para satisfazer seu vício. Revendia no sebo, para comprar mais drogas.
* Estava numa situação tão complicada que sua melhor opção era se cagar. E não hesitou.
* Tinha pontos de vista e opiniões bem definidas sobre quase tudo, mas não fazia questão de expô-los a ninguém. Vivia feliz assim, e bastava.
P.S.: Esse post foi retirado de uma série de microcontos escrita pelo Eslley (http://therubbersoul.blogspot.com/). Não é à toa que pedi autorização pra publicá-los no Impressões. Mesmo antes do Eslley criar seu blog, eu já sabia que iria gostar de algo escrito por ele. A sua visão crítica, seu humor ácido e sua forma aberta e direta de se expressar, não podiam dar em nada menos do que textos que realmente me fazem pensar (e rir, é claro).
Por inteira
Eu já disse que a proposta desse blog não é virar um diário. Também já repeti algumas vezes que os textos postados aqui são essencialmente ficcionais. Acontece que... vcs sabem como é, né? Eu sou uma pessoa. Pessoas criam laços afetivos. Laços afetivos tornam tudo muito pessoal. Enfim, por motivos óbvios, não há como fugir, pessoas são pessoais. E ponto final... rs.
Por que essa embromação toda? Porque estou de volta. Viva, vibrante e surpreendentemente inteira. É, queridos, naquele hospital me retiraram um rim e parte da costela (pra poderem retirar o rim), mas foi lá também que eu recuperei partes de mim que haviam ficado pelo caminho. Estranho? Nem tanto. A gente não vive ouvindo casos de pessoas que à beira da morte resgataram a vontade de viver? É comum ouvir pessoas que quase morreram dizerem o quanto encararam a vida de forma mais positiva depois dessa experiência. Pois então. Eu tive que colocar minha vida profissional em stand by por um ano e meio pra acompanhar mais de perto a doença da minha mãe e o processo do transplante. Eu deitei numa mesa cirúrgica depois de assinar um termo de responsabilidade, em que estavam descritos os aterrorizantes riscos aos quais eu estaria vulnerável (aliás, essa parte em si merece um post, cômico, é claro). E, de quebra, ainda ganhei a oportunidade de passar por um clássico pós-operatório, com sessões intermináveis de vômito, dores mais teimosas que eu e a total dependência à (boa) vontade de médicos e enfermeiros. E o mais importante, o constante medo da morte, já que só consegui ver minha mãe e ter a certeza de que ela estava fora de risco 3 dias depois da cirurgia. Enfim, eu pude por a vida (aquela com letra maiúscula) em xeque e isso sem precisar ter uma doença grave. Viu? Essa coisa de doador e receptor, herói e vítima, isso tudo é muito relativo. Afinal de contas, quem salvou quem? Não importa...
Saímos, eu e minha mãe, vivas daquele hospital. Provavelmente, mais vivas do que quando entramos. Com certeza, mais felizes. A recuperação até que está sendo bem rápida. Já estou até conseguindo viver grandes emoções. É isso. Quando eu saí do hospital, abriram um laptop pra que eu pudesse ler e-mails de amigos. Como vcs devem imaginar, vim dar uma espiadinha no blog. O que aconteceu? Um rio de lágrima, assim mesmo, bemmmm estilo novela mexicana.
Não estarei exagerando se disser que depois de sair do hospital, 3 coisas me fizeram sentir gente denovo: tomar banho sozinha, escovar os dentes e o sentimento que as mensagens deixadas no blog geraram em mim.
Léo, vc conteve as lágrimas porque afinal de contas é meu super-estivador, com covas no queixo, doçura e tatuagem no peito, um monte de sacanagem na cabeça e asas de corvo escondidas por baixo da camisa. Vc é o meu (anti)herói !!!
Ana, vc disse que a homenagem que me fez em seu blog foi simples e se surpreendeu por ter me tocado tanto. Vc só esqueceu que são justamente as "simplicidades" dessa vida que mais me encantam. Eu amo música, acho que meu coração não bate, canta. Saber que pensar em mim te faz lembrar dessa música é mesmo um afago.
Paula, Tossan, Bill, Rebeca e Martha, queridos amigos, vcs representam pra mim a luz do sol que entra pelas frestas da janela quando amanhece um novo dia. A cada vez que leio vcs, fico feliz por saber que ainda existe tanta sensibilidade nesse mundo tão brutalizado.
Mai e Batom e Poesia, nunca medi sentimento por tempo, acredito que uma ligação forte entre pessoas pode ser sim construída num único segundo, quando duas pessoas de coração aberto compartilham uma situação que vale por uma vida inteira. Vcs duas, através das palavras que escreveram, estiveram presentes (e foram um presente) num momento muito importante da minha vida.
Kaká, Candy, Kari, Branca, Fabricante, Ava, Bárbara e Miguel, por mais complicada que seja a recuperação depois de uma cirurgia, tudo fica mais fácil quando a gente tem motivos pra continuar. As palavras de vcs me fazem acreditar mais na vida e gostar mais das pessoas.
Enfim, ler vcs me fez por alguns momentos esquecer que havia outro órgão no meu corpo além do coração. Obrigada, muito obrigada. Mas eu não estaria sendo justa se não ressaltasse uma coisa. Não é a “grandeza” de um gesto que demonstra a grandeza de sentimentos. Saber doar afeto, ser desprendido de pré-conceitos daqueles que determinam o que é amizade e seus limites territoriais e emocionais, estender a mão a um “desconhecido”. Pra mim, nada disso é menor ou menos digno de aplauso do que doar um órgão pra ajudar alguém que amamos. Afinal, doar o corpo é fácil, o difícil é doar a alma.
P.S.: O transplante foi aqui em Juiz de Fora, Minas Gerais. Os médicos já liberaram minha mãe pra voltar pro Rio, mas ela ainda está sentindo algumas dores e resolvemos ficar mais um pouco. Apesar disso, a recuperação dela tem sido bem rápida. Agora é só uma questão de tempo. A palavra rejeição ainda nos ronda feito uma sombra, mas nessas horas a gente escancara as janelas e deixa a luz entrar.
Carinhoso
Todos os dias, eles pintam os rostos e levantam bandeiras
pela moral, bons costumes, pela natureza.
Pois algo me diz que logo não haverá vida a ser salva,
Se caras e corações não forem lavados
num manifesto pela delicadeza.
P.S.: Eu simplemente adoro esse vídeo. Não há nele efeitos especiais, jogos de luzes, imagens sobrepostas ou uma dessas coisas que fazem a gente pensar o quanto são variadas e impressionantes essas "ferramentas" tecnológicas. O que existe nele é um feliz encontro, como diversos outros que a gente vê pela vida todos os dias. A magia da simplicidade, o menos que é tudo. Foi por isso que escolhi esse vídeo pra agradecer a todas as pessoas que passam por aqui quase diariamente e que, muitas vezes, com algumas palavras, simples palavras, acabam me dizendo coisas que fazem todo sentido. Sentido que pode ser entendimento, significado, mas que também pode ser apenas... SENTIMENTO.
Cada uma com sua máscara
- De onde você vem com essa roupa ridícula?
- Como assim de onde eu venho? Helloooooo... Hoje é quarta-feira de cinzas. Estava curtindo os últimos minutos de carnaval, como qualquer pessoa normal.
- Pessoa normal não senhora. Pessoas normais não ficam pulando feito macacos, pintadas feito palhaços, rindo feito tolos, enquanto acontece tanta desgraça nesse mundo.
- Eu havia esquecido. Pessoas normais acordam às 6 da manhã em plena quarta-feira de cinzas, com um humor super apurado, e vão... Pra onde você está indo mesmo?
- Trabalhar.
- Mas hoje é feriado. A empresa está fechada.
- Vou por em dia umas coisas que estão atrasadas.
- Pois é. É justamente isso que fazem pessoas normais.
- O que você está querendo dizer com isso.
- Nada. Não ligue pro que estou dizendo. Afinal, sou só uma idiota que, mesmo sem dinheiro, cheia de contas pra pagar e sabendo de toda miséria que assola esse país, ainda se dá ao luxo de pintar o rosto, rir, brincar.
- É isso. Você brinca de ser feliz por 4 dias mesmo sabendo que vai passar todos os outros dias do ano levando essa mesma vida dura. Quanta alienação.
- E você? Vai deixar pra ser feliz quando? Quando for possível ser feliz o ano todo?
- Talvez.
- E depois a alienada sou eu.
- Não me enche. Vai lavar essa cara. Pare de se esconder atrás dessa pintura ridícula. - E ela disse isso enquanto acabava de se maquear pra esconder os sinais que o tempo e a amargura já tinham deixado em seu rosto. Lançou um último olhar de despreza pra amiga, que ainda sorria, colocou os enormes óculos escuros que lhe cobriam quase todo o rosto, abriu a porta e saiu.
P.S.: Post nascido de uma das muitas viagens que a andarilha, generosamente, me deixou acompanhar. Obrigada, Paula.
Ser e não ser devorada
Pois bem, acho mesmo que nós vivemos sendo devorados por... nós mesmos !!! Confesso que, em muitas situações, é uma sensação bem incômoda, tipo "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Mas o grande lance disso é que, sem conseguir decifrar a nós mesmos, somos devorados, digeridos e renascemos da merda... ops, das cinzas... rs... rs...
É isso, acho mesmo que somos a reinvenção de nós mesmos. Passamos uma parte de nosso tempo pensando em quem, na verdade, somos. Perguntamos, nos questionamos. Às vezes a resposta vem e ficamos satisfeitos (por enquanto), às vezes vem e não nos satisfaz, muitas vezes ela (a resposta) simplesmente nos larga feito bobos esperando no ponto do ônibus. Dá vontade de gritar: "Pára que eu quero subir !!!"
Mas nunca temos certeza de nossas certezas e ficamos assim perdidos entre o que nós achamos que somos, o que os outros acham que somos, e nossas dúvidas de identidade. Angustiante? Claro que não. Produtivo, instigante, vital.
Como conheço minha forte propensão para filosofia barata, viagens a Terra do Nunca e afins, apesar de achar essas reflexões muito proveitosas, tenho ficado cada vez mais atenta pra não esquecer de que há um mundo dentro de mim, mas há diversos mundos do lado de fora. Mundos em que tudo que eu guardo só "existe" se for o conteúdo de atos, mundos que devo e quero explorar. Portanto, ser é ótimo, mas é preciso fazer, agir... VIVER.
P.S.: Segundo post seguido sobre questões existenciais. Prometo que acaba aqui a série "Ser ou não ser? Eis a questão"... rs... Mas, dessa vez, a culpa é toda da Candy que me fez viajar nos escritos dela. É isso, um comentário que virou post. Sorte a minha que tenho amigos tão inspirados... rs.
Flor, sem vergonha
que te mostre
o meu interior,
o meu verde,
o meu lado cristalino,
que te abrace,
que te beije
a boca e explore
o teu corpo
neste amor
sem vergonha...
(tossan)
P.S.: Fotografar é eternizar o efêmero. Fotografar é deixar o imutável livre pra mudar sem perder o que um dia achou ser seu destino final. O fotógrafo é um mago, sua magia é o olhar.
A foto e o poema foram presentes de Tossan (http://www.klictossan.blogspot.com/), fotógrafo, poeta e o tipo de pessoa cuja sensibilidade, de tão aflorada, chega a encantar os olhos e os corações daqueles que o rodeiam.
Que vida haverá depois que o ponteiro mudar de posição?
A promoção, somada ao casamento que se aproximava, era motivo suficiente para uma grande comemoração. Pessoas foram ligando pra pessoas e, de repente, o happy hour da sexta havia se transformado numa grande festa, acabava de ganhar uma despedida de solteira.
- Alô.
- Querido, estou ligando pra desmarcar nosso jantar. Fui promovida. Depois te conto os detalhes. O pessoal aqui do escritório vai aproveitar a deixa e fazer uma despedida de solteira.
- E eu não vou ser convidado pra comemorar sua promoção?
- Você é o noivo. Não pode ir a minha despedida de solteira.
- Que bobagem, querida. Coisa mais provinciana.
- Comemoramos minha promoção de outra forma, só nós dois, ok?
- Hummm, agora sim, o argumento foi convincente o bastante. Amanhã?
- Amanhã.
- Espera um pouco. Casamos na semana que vem, você vai até ter uma despedida de solteira. Mas você não disse sim.
- Como assim?
- Eu te pedi em casamento, você pediu um tempo e semanas depois falou que aceitava minha proposta. Nunca disse "Sim, eu caso."
- E depois eu que sou provinciana... rs.
- Eu sou um homem romântico, é isso.
- Façamos o seguinte, amanhã você faz denovo o pedido e eu respondo como manda o figurino, está certo?
- Combinado.
- Preciso ir. Até amanhã, querido.
- Amo você.
- Eu também.
O lugar escolhido foi uma boate próxima a sua casa. Ótima escolha, assim deu tempo de passar em casa, tomar um banho e deixar o carro. Seria mesmo mais prudente ir de táxi.
Chegou no lugar combinado, já tinha ido lá algumas vezes. No primeiro piso havia um bar onde o pessoal dos escritórios próximos ia pro happy hour. Estava lotado, muitas pessoas conhecidas. Como haviam avisado tanta gente tão rápido? Não importa. Estavam todos ali, ela estava ali, por um único motivo: comemorar.
Algumas horas e muitas margueritas depois, ela começou a se sentir tonta, sufocada. À essa altura, as vozes já estavam muito altas, a pouca luz a fazia sentir ainda mais desorientada, o ouvido "zumbia", a cabeça girava. Precisava sair dali. Precisava respirar.
O ar frio do início da madrugada foi como um abraço aberto que vai se distanciando, te fazendo caminhar em busca de um pouco de alento. Quando se deu conta, já estava há uns quinhentos metros da boate. Era perigoso andar sozinha a uma hora daquelas. O mais certo era voltar. Continuou caminhando. De repente, uma sensação de liberdade a invadiu. Ela se sentia estranhamente feliz. Sorriu. A primeira lágrima rolou enquanto seus lábios ainda estavam abertos. Sentiu o gosto da lágrima.
Por um segundo, teve um lampejo de lucidez. Aquela lucidez brutal, implacável, reveladora. Uma lucidez que só os loucos, as crianças e os bêbados podem alcançar. As lágrimas agora rolavam feito torrente. Ela estava sozinha no meio da rua, era tarde, estar ali era perigoso e solitário. Ainda assim se sentia inteira, em casa, à vontade, como há muito tempo não se sentia. Era duro, cruel até. Mas aquele era mesmo o único lar que conhecera. O incerto, o perigo, a solidão.
A verdade é que aquela coisa toda de preparativos de casamento, escolha de vestido, padrinhos, enfeites, aquilo não tinha nada a ver com ela. Viver tudo aquilo era como sonhar. Pode até ser agradável, quase real, mas, bem no fundo, você sabe que é só fantasia, sabe que uma hora ou outra você vai acordar. Ela havia acabado de acordar. Um som. O despertador? Não, uma buzina.
- Ei, não acha perigoso andar sozinha a essa hora?
- É. Eu poderia de repente dar de cara com um desconhecido com intenções escusas. Espera, eu acabo de dar de cara com um desconhecido com intenções escusas. O que devo fazer, correr?
- Muito engraçada. Mas sua cara não está das melhores. Por que você está chorando?
- Primeiro achei que você podia ser um tarado ou ladrão. Agora já estou desconfiando de que você é da polícia.
- Então pode confiar em mim e me deixar te dar uma carona.
- Muito pelo contrário. Você não lê jornal?
- Nem você pelo visto, senão não estaria aqui sozinha.
- E você? Não tem medo? Eu também poderia ser uma "maníaca sexual". Ou então estar me fingindo de pobre coitada perdida só pra atrair e assaltar candidatos a príncipe encantado.
- Bom, a idéia de você ser uma maníaca sexual não deixa de ser bem interessante. Quanto a me roubar, aposto que o que tenho na carteira não paga nem o lenço que você usa.
- Você é realmente divertido, mas preciso ir.
- Espera. Não vai. Embora você não queira admitir, eu sei que está precisando de ajuda. Entra, a gente conversa e eu te deixo em casa.
Ela desviou o olhar. Pôde ver mais adiante o portão de seu prédio. Agora realmente se sentia diante de duas opções. A escolha não seria entre entrar naquele carro ou buscar o refúgio de casa. Naquele momento, ela precisava decidir entre continuar vivendo à sua maneira ou se enquadrar em todas aquelas regras e limites que teria que aceitar pra compartilhar sua vida com outra pessoa. Enfim, ela teria que responder agora o pedido feito há alguns meses atrás: - Casa comigo?
Literalmente, a hora era decisiva. A hora. Enquanto com a mão direita limpava as marcas deixadas pelas lágrimas em seu rosto, olhou o relógio no pulso esquerdo. 23:44 hs.
P.S.: Esse texto foi escrito a partir de um desafio proposto por Léo Mandoki Jr. (http://leomandoki.blogspot.com/2008/12/quantas-vidas-cabem-antes-do-ponteiro.html).
Teia Alimentar
Hoje, comentando um post escrito por Vivian, repeti essa história da teia e de repente, assim do nada (como acontece com a grande maioria das minhas teorias malucas), percebi que talvez formemos mesmo uma teia, mas não pelo motivo que eu havia pensado antes.
Lembrei de minhas aulas de ciências, quando eu era menina ainda. A "tia" ia explicando o mundo a minha volta e aquilo me soava fascinante. Em uma dessas viagens, o tema do dia era cadeia alimentar. Eu já intuía que os seres vivos (eu inclusive) eram parte de um todo, mas ouvir que os seres se alimentam uns dos outros foi como um abrir de olhos. Enfim, havia mesmo um motivo científico pras minhas percepções infantis.
Nessa mesma aula, descobri que havia várias cadeias alimentares e que o cruzamento de cadeias formava uma teia alimentar. A explicação da professora à época me parece muito boa até hoje (todos os professores deviam manter a linguagem simples e despretenciosa que adotam pra lidar com cianças). Um animal normalmente alimenta-se de mais de um ser vivo e esses seres integram cadeias alimentares distintas, fazendo com que essas cadeias se cruzem.
Pois no exato momento em que comentava no blog da Vivian, pensei nisso. Todos nós fazemos parte de cadeias alimentares virtuais, dependemos uns dos outros pra nos alimentar, pra nos nutrir. E mais, criamos até um cardápio (vide as listas de links de blogs amigos que a maioria de nós tem em seu blog). Pensa que acabou aí? Nãoooo. Além disso, nossas cadeias alimentares cruzam-se, formando teias alimentares. Isso graças a blogueiros que fazem parte de diversas cadeias. Eu mesma já "ganhei" vários contatos herdados de blogs que visito constantemente.
Sabe do que mais? As minhas teorias são só passa-tempos pra essa minha mente doentia. Na verdade, estabelecer papéis não é importante, muito menos saber o que nos mantém aqui, interagindo com os escritos nossos e alheios. O importante mesmo é que, a princípio, não somos mais que seres vivos que precisam comer uns aos outros pra sobreviver. A princípio... Mas, aqui, entre sentimentos, pensamentos e letras, podemos ser qualquer coisa, podemos fazer qualquer coisa, até seguir nosso instinto de sobrevivência e usar outros seres pra continuar sentindo, pensando, blogando, nessa fascinante teia de idéias.
P.S.: Falando em amigos, Usando Verbologia foi extinto e me sinto meu órfã. Está certo, Melia. Pode me chamar de piegas, mas é assim que sinto mesmo.
Um dia de cão... ops... de macaco
No dia em que eu perder a capacidade de rir de mim mesma, por favor, me internem às pressas.
P.S.: Todos os créditos a dois amigos: Bill, que me mandou esse vídeo há algum tempo atrás; e Léo, que me fez lembrar do vídeo assim que li seu último post (É, Léo, é isso que somos, macacos...rs).
Um breve agradecimento
Fico pensando o que têm essas 3 pessoas em comum. E as palavras que me vêm à cabeça são intensidade e liberdade. Vida em tamanha abundância que, em certos momentos, parece que um só corpo não os conterá. Será pouco, bem pouco, pra abrigar tanto sentir e tanto pensar.
Intensidade e liberdade. Fácil antever quais efeitos essa mistura causa em mim. Encanto, interesse e está acionado o botãozinho que desencadeia uma série de pensamentos que levam a outros pensamentos num ciclo que parece interminável.
Uma mulher madura, segura, experiente, encantada, absolutamente encantada por um menino que, com uma doçura absurda, foi fazendo caírem todas as máscaras, foi limpando toda a camada espessa de pó que cobria o rosto da tal mulher. E ela, tão acostumada a cravar com segurança os dois pés no chão firme, fica sem saber o que fazer quando se sente caminhando num chão de nuvens. O garoto aparentemente tão frágil, a mulher firme como rocha. E no fim das contas, não se sabe mais quem corre mais riscos nesse encontro improvável.
Um homem que, mesclando sagacidade, sarcasmo e delicadeza, vai deixando uma série de mensagens subliminares, as quais vão formando uma corrente de elos arredondados. Um caminho de migalhas de pão que vou trilhando com a total certeza de que é preciso atenção, apesar de todas as alegorias que enfeitam a estrada. Um caminhar sem ponto de chegada, apenas o prazer de continuar descobrindo o que se apresentará mais adiante. Quais serão as novas mensagens, quais pensamentos elas desencadearão em mim, quantos sorrisos mais?
Uma mulher muito jovem, uma menina muito velha. Uma pessoa daquelas que nos faz oscilar entre a reflexão mais profunda e a piada mais infame, fazendo com que a reflexão não pareça tão "pesada" e a piada não pareça tão tola. Confidências trocadas. Muita prosa. Poesia, sempre. E a capacidade de ler minhas palavras com uma sensibilidade tamanha que, por muitas vezes, me faz ficar feliz por tê-las escrito.
3 pessoas que, sem nem saberem da existência umas das outras, uniram-se pra me passar uma só mensagem dividida em partes, como num geograu (?) daqueles de escola primária. Cada um, em seu momento e com uma eficiência ímpar, falou a sua parte. E quando foi dita a última palavra do último participante ficou muito claro que, nem sempre, as mensagens vêm inteiras, de uma só vez, nem passadas por uma só pessoa, por uma só situação.
A moral da história é que apre(e)nder não é algo tão fácil quanto pode parecer à primeira vista. Requer atenção, percepção e... boas companhias, é claro... rs.
A merda e o bolo
- É pra ser sincera ou educada?
- Sincera, mas sem xingamentos hein. Lembre-se que essa é uma conversa vespertina.
- Engraçadinho.
- O que foi?
- Nada demais. Se eu conseguisse ser um pouco racional, perceberia que nem vale à pena me preocupar tanto. Pelo menos não agora. Mas quem disse que estou conseguindo usar a razão?
- Na verdade são raros os momentos em que pensamos com razão. Acho que nunca pensamos com razão quando realmente precisamos.
- Isso já é um consolo. Tipo: "Você está fazendo merda, mas sorria, você não é a única."
- Exato! Afinal de contas, é fazendo merda que se aduba a vida.
- Se é assim mesmo, minha vida está devidamente adubada. Mas calma aí. Cadê as flores?
- Aí você está querendo tudo mastigado demais. Por falar em mastigado, procura aí suas flores que eu já venho, antes que meu bolo queime!
...
- Tudo sob controle.
- E você sabe até fazer bolo, é?
- Claro, afinal não é só de merda que vive o homem. Por falar nisso, encontrou as flores?
- Não.
- Vai continuar procurando?
- Sempre.
- Boa menina, merece até um pedaço de bolo.
P.S.: Todos os créditos pra Frank, seus ditos populares e sua mania de, brincando, me fazer pensar.
Post de segunda
- O que você quer?
É, acho que essa foi a frase da semana (passada). Não pensem que não atentei para o fato de que é uma frase interrogativa. A minha frase da semana é uma pergunta, e mais, uma pergunta que não foi feita por mim. Foi feita para mim. Então, minha frase da semana não é minha. Não fui eu que formulei. Ah, pára com isso, não é? Não vamos entrar nessas questões agora.
O assunto em questão é: O que eu quero?
Eu quero tantas coisas:
- Quero que as pessoas criem menos problemas pra si mesmas, pra mim, pro mundo.
- Quero que eu crie menos problemas pra mim mesma, pros outros, pro mundo.
- Quero que o Bush vá ver se o Bin Laden está na esquina.
- Quero parar de tropeçar em fios (é sério... acredita que eu fui entregar um certificado num evento e tropecei, de novo, no fio do data show? é, eu fiz isso, num auditório lotado... rs).
- Quero esquecer umas coisas e, principalmente, lembrar de muitas outras (como, por exemplo, onde deixei os óculos ou o celular... argh...).
- Quero que as pessoas não morram, não quando ainda há tanta vida.
- Quero me sentir menos impotente diante do inevitável.
- Quero ser mais disciplinada, mais organizada, mais responsável.
- Quero que as pessoas sejam menos complicadas, menos obscuras, menos pesadas.
- Aff... Essa lista não tem fim (felizmente).
Eu não quero coisas mais específicas? Não faço planos concretos?
Sim. Sim. Mas o fato é que... Bom, como eu disse, vivo tropeçando em fios. Vamos combinar que olhar pro horizonte é mais atraente que ficar olhando pro chão. Já sei, já sei, pra chegar ao horizonte, há que se caminhar até lá, e ficar tropeçando torna o caminho mais demorado (pra não falar das outras conseqüências).
É, talvez eu devesse mesmo me preocupar mais com cada passo e menos com a viagem (melia, aposto que sacou o duplo sentido...rs). Talvez eu devesse sempre me questionar o que quero a cada segundo. Isso, certamente, resolveria alguns conflitos com os outros, evitaria até alguns conflitos comigo mesma. Mas será que se fosse assim, eu ainda seria eu? Não sei.
Confesso que acho que os nossos "defeitos" nos definem tanto quanto nossas qualidades. O grande lance é perceber até que ponto vale à pena nós nos apegarmos a nós mesmos.
Viajei, não é? O que você esperava de um post de segunda? rs
