Cada um luta com as armas que tem

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- Vovó, minha cabeça está doendo.

- Deixa eu ver, meu filho. Onde dói?

- Aqui.

- Valha meu Deus. Tem um bruta caroço na tua cabeça, menino. Desde quando está doendo?

- Desde semana passada.

- Tudo isso? Vá chamar tua mãe.

(...)

- A senhora mandou me chamar?

- Claro. Já viu o calombo na cabeça do teu filho?

- Vi sim. Ele caiu jogando bola. Coisa de criança.

- Ele disse que já faz uma semana.

- Tenho dado remédio. Passa já.

- Passa já nada. Você sabia que caroço na cabeça pode dar aquela doença?

- Aquela doença tem nome. Câncer. E a senhora está dizendo bobagem. Isso é ignorância.

- Não sei o que é ignorância. Mas sei o que é judiação. É o que você está fazendo com seu filho. Deixando o bichinho sofrer desse jeito e ainda correr o risco de pegar a maldita doença.

- A senhora não sabe o que está falando. Preciso ir. Tenho que trabalhar.

- Espera. Por que você não faz uma promessa pra São Francisco? Eu tenho um santo aqui. A gente pode rezar pra ele, pedir essa graça e prometer que o menino vai andar de marrom durante um ano.

- Eu não tenho fé. Pra mim, esse santo da senhora é só um monte de gesso.

- Desconjuro. Deixa de maledicência, mulher. Deve ser por isso que seu filho está com um caroço do tamanho do mundo na cabeça. Você não quer, não faça. Eu vou rezar pro meu São Francisco e pedir mais essa graça.

- Enquanto a senhora reza, eu vou trabalhar. Preciso comprar mais remédios pra dor de cabeça.

P.S.: O melhor dessa história é o fato de ser verídica (está certo, eu mexi só um pouquinho). A simpática avó é minha cliente e me contou essa passagem sem se dar conta do quanto me encantam essas sutilezas cotidianas.

6 comentários:

Léo Mandoki, Jr. disse...

em 1988 o meu pai teve cancer no pulmão...ouvimos uma história de que na praia de Itaipú em Niteroi havia uma velhinha que preparava um remdio caseiro que curava o cancer. Eu e minha tia fomos pra lá, chegamos de madrugada pq a fila era interminável, e dps de algumas horas acabei conseguindo o tal remedinho milagroso.
Um dia, de madrugada, acordei e fui até a cozinha. Flagrei meu pai jogando o tal remedinho fora e fumando...Pouco tempo depois ele morreu...e eu resolvi que TUDO haveria de mudar. E decidi ir embora do Brasil...hj em dia, na mesinha do meu escritório tenho uma bíblia, por cima da biblia um cricifixo e ao lado da bíblia a imagem de São Judas Tadeu.
TUDO isso pra dizer o que?
eu luto com todas as armas...não dispenso armas. Sabe pq? Pq estou sempre em luta..e em época de guerra não se limpam espingardas...

Um beijo grande pra vc...eu adoro te ler..vc deveria escrever peças de teatro...vc tem um dom pra escrever diálogos...

gosto de vc viu!!!

Carla disse...

uma bela história...por vezes rimo-nos desses saberes que a tradição az chegar até nós, mas há mezinhas e chás que se não fazem bem, mal também não fazem!
E é tão ficarmos a ouvir estas histórias escritas nas rugas das pessoas que admiramos

a má estrela disse...

rs vc sempre tem alguma coisa que me surpreende... não sei como ainda tem a cara de pau de perguntar por quê...rs

Sei que não são os elogios óbvios que te agradam,mas devo dizer que vc e essas suas pequenas pequenas percepções me tocam do jeito que eu mais preciso: me fazendo crer na beleza subliminar do cotidiano que muitas vezes nos passa despercebida e pela qual vale a pena viver.

bjin querida,te adoro,e muito,tá? rs

bjin...

tossan disse...

Veja só, depois destes lindos comentários me deu um bloqueio...
Gosto muito do modo sutil que vc escreve. Beijão

Ana Karenina disse...

talvez a maior graça da história é perceber que o mais importante é lutar, não importa como, onde, com quem ou com o que...
seja lá que resultado dê pelo menos fizemos algo e não ficamos esperando a vida passar como meros expectadores.

abraços saudosos!

Eslley Scatena disse...

Po, calombo na cabeça é curado com faca em cruz, em cima do machucado! Toda vó sabe disso =p

Bjão, saudade docê!