Meu processo criativo
Acontece sempre do mesmo jeito. A vontade aparece sem avisos ou preparativos, muito menos espera o lugar adequado. O quarto, o banheiro, qualquer lugar serve quando ela surge feito onda que se forma no horizonte e vem se aproximando, crescendo e tomando força, arrebatando o que encontrar pela frente, até lamber a brancura da areia.
Chegada a hora, é só relaxar e deixar a natureza agir. Meus dedos, já hábeis depois de tantos anos da mesma brincadeira safada, sabem exatamente como exteriorizar o que meu desejo ordena. No início, cautelosos, eles vão tateando o território, colocando lenha por lenha até transformar fogueria em incêndio. Em alguns minutos, eles (os dedos) antes dolentes, pacientes, já estão num ritmo frenético, intenso, enlouquecido.
Não tenho como negar que curto cada fase dessa dança solitária. Sinto um prazer enorme ao me aventurar em meus próprios domínios. Aliás, a palavra domínio não tem nada a ver com o assunto. Naquele momento, justamente porque é uma relação que não envolve mais de um, cai por terra qualquer vestígio da costumeira necessidade de subjugar, de convencer, de deter em minhas mãos o poder sobre a vontade do outro. Nesse momento, somos só eu, o meu desejo e o meu prazer.
Aliás, apesar de ser essencialmente um processo solitário, são esses momentos de intimidade comigo mesma que me possibilitam lidar melhor com o outro. É me conhecendo, desvendando parte dos meus mistérios, que eu vou tornando mais despudorada a minha relação com as outras pessoas. É isso. Uma coisa não exclui a outra. Estar comigo mesma não diminui a sede que tenho do outro. Muito pelo contrário, cada pequena parte que descubro de mim me faz ter mais vontade de externar tal descoberta, testar esse novo prazer no mundo lá fora.
Tudo isso vai passando veloz pela minha cabeça que, entretanto, permanece estranhamente anestesiada. Esse não é em nada um processo racional. É instinto, é força, é criação. Recriação de meus limites, tabus, sensações. Pela intensidade dos movimentos, todo meu corpo pressente que é chegado o momento do desfecho.
Explosão. Prazer. Intenso, profundo, inexplicável.
Depois, só o silêncio, calmaria. Toma conta de mim um entorpecimento, uma sensação agradável de ar puro oxigenando minhas entranhas. Depois que transborda tudo aquilo que me consumia, o que me resta é conforto, é espaço aberto. Espaço aberto pra um mundo inteiro que há la fora, porta escancarada pra eu me lotar novamente de emoções, fúria, ímpetos. Aquelas palavras que antes eclodiam dentro de mim, agora jazem vitoriosas nas linhas tortas do papel que será guardado naquela primeira gaveta à esquerda de quem chega.
Levanto num pulo, novamente pronta pra viver e conviver, pra absorver e ser absorvida. Vai começar tudo denovo, até que daqui a pouco eu esteja novamente vazando de desejo e deixe que toda essa intensidade ganhe vida, transborde de mim e se transforme em mais um texto que povoará um outro papel, com outras linhas e que será guardado em outra gaveta.
Por inteira
Eu já disse que a proposta desse blog não é virar um diário. Também já repeti algumas vezes que os textos postados aqui são essencialmente ficcionais. Acontece que... vcs sabem como é, né? Eu sou uma pessoa. Pessoas criam laços afetivos. Laços afetivos tornam tudo muito pessoal. Enfim, por motivos óbvios, não há como fugir, pessoas são pessoais. E ponto final... rs.
Por que essa embromação toda? Porque estou de volta. Viva, vibrante e surpreendentemente inteira. É, queridos, naquele hospital me retiraram um rim e parte da costela (pra poderem retirar o rim), mas foi lá também que eu recuperei partes de mim que haviam ficado pelo caminho. Estranho? Nem tanto. A gente não vive ouvindo casos de pessoas que à beira da morte resgataram a vontade de viver? É comum ouvir pessoas que quase morreram dizerem o quanto encararam a vida de forma mais positiva depois dessa experiência. Pois então. Eu tive que colocar minha vida profissional em stand by por um ano e meio pra acompanhar mais de perto a doença da minha mãe e o processo do transplante. Eu deitei numa mesa cirúrgica depois de assinar um termo de responsabilidade, em que estavam descritos os aterrorizantes riscos aos quais eu estaria vulnerável (aliás, essa parte em si merece um post, cômico, é claro). E, de quebra, ainda ganhei a oportunidade de passar por um clássico pós-operatório, com sessões intermináveis de vômito, dores mais teimosas que eu e a total dependência à (boa) vontade de médicos e enfermeiros. E o mais importante, o constante medo da morte, já que só consegui ver minha mãe e ter a certeza de que ela estava fora de risco 3 dias depois da cirurgia. Enfim, eu pude por a vida (aquela com letra maiúscula) em xeque e isso sem precisar ter uma doença grave. Viu? Essa coisa de doador e receptor, herói e vítima, isso tudo é muito relativo. Afinal de contas, quem salvou quem? Não importa...
Saímos, eu e minha mãe, vivas daquele hospital. Provavelmente, mais vivas do que quando entramos. Com certeza, mais felizes. A recuperação até que está sendo bem rápida. Já estou até conseguindo viver grandes emoções. É isso. Quando eu saí do hospital, abriram um laptop pra que eu pudesse ler e-mails de amigos. Como vcs devem imaginar, vim dar uma espiadinha no blog. O que aconteceu? Um rio de lágrima, assim mesmo, bemmmm estilo novela mexicana.
Não estarei exagerando se disser que depois de sair do hospital, 3 coisas me fizeram sentir gente denovo: tomar banho sozinha, escovar os dentes e o sentimento que as mensagens deixadas no blog geraram em mim.
Léo, vc conteve as lágrimas porque afinal de contas é meu super-estivador, com covas no queixo, doçura e tatuagem no peito, um monte de sacanagem na cabeça e asas de corvo escondidas por baixo da camisa. Vc é o meu (anti)herói !!!
Ana, vc disse que a homenagem que me fez em seu blog foi simples e se surpreendeu por ter me tocado tanto. Vc só esqueceu que são justamente as "simplicidades" dessa vida que mais me encantam. Eu amo música, acho que meu coração não bate, canta. Saber que pensar em mim te faz lembrar dessa música é mesmo um afago.
Paula, Tossan, Bill, Rebeca e Martha, queridos amigos, vcs representam pra mim a luz do sol que entra pelas frestas da janela quando amanhece um novo dia. A cada vez que leio vcs, fico feliz por saber que ainda existe tanta sensibilidade nesse mundo tão brutalizado.
Mai e Batom e Poesia, nunca medi sentimento por tempo, acredito que uma ligação forte entre pessoas pode ser sim construída num único segundo, quando duas pessoas de coração aberto compartilham uma situação que vale por uma vida inteira. Vcs duas, através das palavras que escreveram, estiveram presentes (e foram um presente) num momento muito importante da minha vida.
Kaká, Candy, Kari, Branca, Fabricante, Ava, Bárbara e Miguel, por mais complicada que seja a recuperação depois de uma cirurgia, tudo fica mais fácil quando a gente tem motivos pra continuar. As palavras de vcs me fazem acreditar mais na vida e gostar mais das pessoas.
Enfim, ler vcs me fez por alguns momentos esquecer que havia outro órgão no meu corpo além do coração. Obrigada, muito obrigada. Mas eu não estaria sendo justa se não ressaltasse uma coisa. Não é a “grandeza” de um gesto que demonstra a grandeza de sentimentos. Saber doar afeto, ser desprendido de pré-conceitos daqueles que determinam o que é amizade e seus limites territoriais e emocionais, estender a mão a um “desconhecido”. Pra mim, nada disso é menor ou menos digno de aplauso do que doar um órgão pra ajudar alguém que amamos. Afinal, doar o corpo é fácil, o difícil é doar a alma.
P.S.: O transplante foi aqui em Juiz de Fora, Minas Gerais. Os médicos já liberaram minha mãe pra voltar pro Rio, mas ela ainda está sentindo algumas dores e resolvemos ficar mais um pouco. Apesar disso, a recuperação dela tem sido bem rápida. Agora é só uma questão de tempo. A palavra rejeição ainda nos ronda feito uma sombra, mas nessas horas a gente escancara as janelas e deixa a luz entrar.
Gente que gosta de gente
Há pouco mais de um ano eu vejo minha mãe sofrendo as consequências de ter uma parte do corpo que não consegue mais cumprir suas funções. Ela adoeceu e, de certa forma, a família inteira adoeceu também.
Todos os dias milhares de pessoas vivem essa mesma angústia. Acontece que muitas delas não encontram um doador na família e precisam esperar um doador cadáver. A espera pode durar anos. Anos de agonia, incerteza, impotência. Sei que o poder público não está preparado para fazer transplantes num número capaz de reduzir drasticamente a fila, sei que muitos hospitais não estão prontos pra fazer a captação de órgãos, mas sei também que um único doador pode fazer toda a diferença pra algumas pessoas. Muitas vezes há toda uma estrutura, mas ainda sim as pessoas dizem não. É compreensível. A hora da morte é um momento em que estamos focados na nossa própria dor, não é um momento de reflexão, de benevolência. Por isso, só diz sim quem o faz por ter a certeza de que essa seria a vontade daquele que se foi. Portanto, é preciso que a pessoa que deseja ser doador deixe bem clara sua vontade a seus familiares e amigos. É preciso escolher a vida enquanto há vida.
Eu nunca tive dúvidas quanto ao assunto. Sempre achei natural doar meus órgãos. Não por generosidade ou questões morais, mas por lógica mesmo. Acho que cada um de nós faz parte de um todo harmônico. O corpo que eu uso hoje um dia não me servirá pra nada. Nada mais natural do que o devolver pra continuar sendo útil, pra continuar vivo. Até porque a outra alternativa seria virar comida de minhoca e convenhamos que essa ideia não é nada agradável. Enfim, desde que tive idade pra decidir, defini que EU seria doadora ao morrer, mas nunca me preocupei com os outros. Não tenho o costume de levantar bandeiras. Acho que cada um deve tomar suas próprias decisões, usando seus critérios de escolha individuais.
Acontece que agora que o transplante de minha mãe foi marcado, olho pra trás e vejo o quanto foi difícil esperar que todos os exames ficassem prontos, a angústia de ver alguém que você ama esperando pra poder voltar a viver normalmente, a sensação de impotência, daí penso o quanto deve ser torturante ficar numa fila esperando um órgão. Hoje penso que se todo mundo convivesse com alguém que espera por um transplante, não haveria não doadores. Só que a maioria das pessoas, felizmente, não vai ter essa experiência. E eu tive. Portanto, o máximo que posso fazer, é pedir às pessoas que pensem no assunto e deixem clara sua intenção de ser doador, para que no momento de sua morte, seus familiares não tenham dúvidas.
P.S.: No dia 7 de julho vou doar um rim pra minha mãe. Não é um ato de abnegação. Na verdade, só estou devolvendo um pouco do que ela me deu. Vida e amor. Aos amigos, peço que, se puderem, também escrevam sobre o assunto em seus blogs. Talvez esse pequeno gesto possa fazer a diferença na vida de alguém. Dou notícias quando sair do hospital.
P.S.2: Não é à toa que escolhi esse vídeo pra acompanhar o post.
Quimera
Noite sem estrelas. Céu feito de olhos fechados. Ele nunca gostou de se concentrar na escuridão dos seus olhos fechados. Talvez por isso, pouco antes do sono chegar, os pensamentos corressem tão depressa. Correm pra fugir da escuridão dos olhos fechados. Mas hoje é noite sem estrelas e seus pensamentos estão surpreendentemente lentos. Não correm, não fogem. Estão entregues à escuridão do céu sem estrelas. Tudo parece ter entrado num ritmo arrastado. Até os segundos resolveram ter o tamanho de minutos. Ele vaga entre estantes, estados, escudos. Nada parece ser confortável, adequado ao que se passa nessa noite sem estrelas. Por costume, continua buscando, sem saber o que, nem por quê. Lembra da criança que quis saber o que era melancolia. Lembra da sua resistência em explicar. Uma criança não pode entender, pelo menos não deveria. Por questões supostamente morais, se recusou a explicar. Mentira. Sempre foi covarde. Ele até podia assistir a carnificina, mas não seria ele quem daria o primeiro tiro. A criança não gostou. O homem, desde tenra idade, sente atração irresistível pela sua própria perdição. Ele quer saber, mesmo que conhecer seja o início do fim. Os olhos daquela criança pareciam duas estrelas faiscantes. Pra ele, era só o que bastaria nessa noite. Duas estrelas. Mas a criança não está aqui, nem as estrelas. Algo estava irremediavelmente perdido. Pelo menos até o amanhecer. Porque hoje é uma noite sem estrelas, escura como olhos fechados.
