sexta-feira, 27 de março de 2009

Dando sorte pro azar

Como em todas as outras manhãs, abriu os olhos mas ainda não havia acordado. Levantar, ir até o banheiro e depois à cozinha era um trajeto que seu corpo já fazia no piloto automático, não precisava estar consciente. Acordar mesmo só depois de uma xícara grande de café amargo e um cigarro fumado à beira da janela enquanto olhava absorto os prédios cinzentos como o céu característico daquela época do ano. Só que naquele dia uma voz mudou sua rotina:

- Você levantou, nem me chamou. Ficou com pena de me acordar?

- Na verdade, eu esqueci que você estava aqui. Levanto meio distraído.

- Sua sinceridade me encanta.

- Não é isso que toda mulher deseja? Sinceridade.

- Entre outras coisas. Se eu não tivesse que estar no trabalho em meia hora te diria pra puxar a cadeira e tomar nota, mas não vai dar mesmo... rs.

- Se eu não chegar muito cansado do trabalho hoje, te ligo mais tarde.

- Pode deixar que eu ligo.

Ela sorriu e foi embora. O perfume ficou. A presença também, mas isso ele só descobriria mais tarde. Bem tarde.

Acabou de se vestir, pegou as chaves do carro e saiu. Enquanto dirigia pensava no dia infernal que o esperava. De repente, um carro vermelho deu-lhe uma fechada, o que o obrigou a girar com rapidez o volante pra esquerda. Conseguiu desviar a tempo de evitar a colisão. Colocou a cabeça pra fora e em sonoros xingamentos deixou bem claros os sentimentos que nutria por aquele desconhecido que quase lhe estragara o início de dia.

Sentiu um solavanco. Enquanto trocava frases de carinho com o motorista do carro vermelho, não percebeu que invadira a outra pista e que acabara de bater a frente do seu carro num caminhão enorme e fumacento que trafegava apressado. Pronto. A lateral esquerda da frente de seu carro acabava de ganhar uma bela cicatriz cinzenta. O tal monstro fumacento continuou seu caminho tranquilamente enquanto ele agora voltava a xingar o condutor do carro vermelho que, afinal, havia sido o culpado por tudo.

Chegando no trabalho, sua previsão se confirmou. Antes mesmo de colocar a pasta em cima da mesa, ouviu uma voz claramente satisfeita:

- O chefe está querendo falar com você.

Daí a saber que havia sido tranferido de setor porque a nova supervisora não ia muito com sua cara foi questão de exatos nove minutos. Tempo este muito bem aproveitado pelo chefe que fez questão de lhe dar um último conselho antes de transferi-lo:

- Você devia tentar ser mais sociável. A nova supervisora afirmou categoricamente que nunca conheceu sujeito mais mau humorado e egocentrado. Desse jeito, você não vai longe, meu caro. Os tempos são outros. Não basta só fazer seu trabalho, é preciso saber se relacionar.

Saiu da sala bufando de raiva e pensando no azar de cruzar seu caminho logo com uma dessas feministas que acham que todos os homens têm que ser afrescalhados e subservientes.

- Mas, se Deus quiser, e ele vai querer, terei mais sucesso no outro setor. - pensou alto enquanto juntava as coisas que estavam nas gavetas de sua mesa de trabalho.

Pelo menos, o chefe havia lhe dado o dia de folga: - Pra por a cabeça em ordem. - foi o que ele disse com um sorriso sádico no canto dos lábios. Já sabia o que fazer, daria um breve telefonema e terminaria aquele malfadado dia na cama com a bela mulher que conhecera na noite anterior.

- Alô.

- Oi. Você disse que ligaria, mas tirei o dia de folga e resolvi ligar. Você não imagina o dia infernal que estou tendo.

- Posso imaginar.

Percebendo que a voz da mulher não expressava muita animação. Lembrou da conversa que haviam tido naquela manhã e pensou no quão suscetíveis são as mulheres bonitas. Resolveu contar-lhe toda sua odisséia, com riqueza de detalhes, pra ver se a comovia. Ela ouvia em silêncio até que ele disse:

- Mas eu já sei o que fez com que tantas coisas dessem errado.

Pela primeira vez durante aquela conversa ela pareceu interessada:

- Bom que você percebeu. Acho que ainda pode reverter a situação. Pelo menos, fazer as coisas diferentes daqui pra frente.

- Foi tudo minha culpa.

- É verdade, todos os problemas que você me contou foram causados por você mesmo...

- Pois é, eu fui um imbecil. Não lembrei que hoje é sexta-feira 13. Foi mesmo muita distração minha, não devia nem ter levantado da cama.

domingo, 22 de março de 2009

Da merda à luz



Não é novidade pra ninguém que o Impressões não é um diário. Eventualmente, posto comentários sobre coisas que estão acontecendo, mas os meus preferidos (e mais comuns) são mesmo os textos ficcionais. Acontece que, em algumas situações, a vida "real" e minha imaginação fundem-se de tal forma que fico sem saber onde uma acaba e a outra começa. Foi isso que aconteceu ontem.

Um dia estranho no meio de uma fase difícil. Achei que pudesse ser uma boa ideia tentar escrever um pouco. Colocar uma boa música, chamar o teclado pra dançar e ver os riscos que deixamos na tela. Depois de alguns minutos de um bailado meio sem jeito, pus-me a ler o que tinha saído.

O texto falava de alguém que se chocava com formas diretas de suicídio, sem perceber que não viver é o jeito mais lento e doloroso de morrer. Confesso que já escrevi coisas bem piores. Além do mais, não tenho nada contra melancolia e obviedade, mesmo quando me soa cafona. A pieguice, por vezes, muito me agrada. Mas, por um motivo que naquele momento não consegui distinguir, não publiquei o post.

Não publiquei mas também não deletei. Seria muita ironia "matar" um texto meu sobre formas de não viver. Um suicídio literário. Ou será que suicídio literário seria justamente publicar aquele texto de gosto bem duvidoso? Não importa, esse não é mesmo o assunto em questão. O fato é que salvei o post, desliguei o pc e as luzes. Ficamos nós, eu, a música e o escuro do quarto.

Abri a janela, a Lua linda imperava soberana num céu sem estrelas. O sopro da noite e o banho de luar invadiram o claustro do quarto sem a menor cerimônia, assim como invadiu minha cabeça um pensamento reconfortante. Na falta de luz humana, ainda haverá lua.

De repente, pela janela aberta, entrou um vagalume. Enquanto eu acompanhava rodopios de luz esverdeada na imensidão do quarto escuro, meus pensamentos também rodopiavam na escuridão que havia se instalado em mim. Pensava em tudo e em nada exatamente. Mas de repente toda minha atenção se fixou numa única coisa. O vagalume.

Lembrei dos tempos de criança, quando eu acreditava que vagalumes eram pedacinhos de Lua. Na época me parecia uma conclusão óbvia, os vagalumes vinham dos céus e eram feitos de luz, o que mais poderiam ser? Lembrei de outras conclusões simples e singelas da época de infância. Aliás, sempre me encanta a poesia genuína que há nos pensamentos de uma criança.

De repente pensei no quão metafórica era aquela situação. Num quarto escuro, eu abro a janela pra ver a Lua e surge um vagalume, com sua bunda brilhante. A bunda. Num sentido figurado, essa parte do corpo tem muito a ver com situações de crise. A bunda amortece as quedas, e ela que é chutada quando não te querem mais, além de que é a bunda que assenta o corpo cansado numa cadeira enquanto o mundo continua a girar. E por fim (e não menos importante), é da bunda que sai um monte de bosta.

Só que o vagalume estava ali, invadindo a minha escuridão com sua bunda reluzente, me fazendo lembrar de quão versáteis são as coisas, da infinidade de opções que nos são apresentadas a cada segundo, da diversidade de posturas que podemos adotar em cada situação.

Foi o vagalume que me lembrou que de merda à luz, a gente pode encontrar tudo, basta abrir a janela.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sempre meu



O sempre não é trono em que se senta
usufruindo da vitória conquistada
Sempre é caminho
é caminhada

O sempre não é um destino em que se chega
um descanso, uma segura parada
Sempre é viagem
é estrada

É flor delicada, luz perene
Há que vencer as intempéries
Sempre há que ser renovada

É conjunto de ciclos finitos
promessa a ser merecida
Sempre dádiva a ser alcançada

segunda-feira, 9 de março de 2009

Inimiga íntima

O dia internacional da mulher, assim como todas as datas significativas, acabou sendo transformado em um momento muito mais comercial do que de reflexão ou de ação. A mídia nos bombardeia com informações, muitos aproveitam a data festiva pra comemorar (mesmo sem saber exatamente o que) e as vendas de flores, chocolates e outros mimos são alavancadas.

Assim como nos outros anos, algumas pessoas gentis correram pra me desejar o seu "Feliz Dia da Mulher!!!" e eu, com cara de caneca, ia respondendo um "Obrigada." aqui, um "Pra você também." ali, mas uma história não me saía da cabeça.

Uma menina de 9 anos foi estuprada pelo padrasto dentro de casa. Até aí nenhuma novidade. Isso acontece aos montes por esse país afora. Acontece que desse estupro surgiu uma gravidez, o que também não é algo inédito. Só que o cenário não está completo. A menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, engravidou de gêmeos, e como seu corpo ainda não estava preparado para tal gestação, a criança corria sério risco de morrer. A solução óbvia é tomada, interromper a gravidez.

Tais fatos, por si só, já serviriam de pano de fundo pra uma longa reflexão acerca da situação atual da mulher. O agressor morava na mesma casa da menina. O agressor tinha um relacionamento amoroso com a mãe de sua vítima. Que tipo de marido era esse homem? Será que a mãe ficou cega por vulnerablidade econômica ou psicológica? Quantas vítimas há nessa história?

Muitos questionamentos, uma única certeza. Este é mais um caso em que o inimigo mora ao lado, mais exatamente no quarto ao lado. Mas ele (o agressor) não é o único inimigo íntimo dessa história que, aliás, ainda não chegou ao fim.

A Igreja Católica, através do arcebispo de Recife e Olinda, excomungou a mãe da menina e toda a equipe médica que realizou o aborto. Justificando sua atitude, o arcebispo alegou que a situação estava prevista nas normas da Igreja como motivadora de excomunhão e, se não o fizesse, estaria pecando por omissão.

Obviamente, diversos setores da sociedade saíram em defesa da decisão de salvar a vida da menina. E o arcebispo, alegando estar tentando conscientizar a população, passou a dar diversas declarações, uma mais estapafúrdia que a outra, até que acabou por dizer que o "crime" cometido pelos médicos foi mais grave que o crime cometido pelo padrasto. É isso, o padrasto que violentou a enteada de 9 anos pecou menos que os médicos que salvaram a vida da menina.

Li e ouvi a notícia várias vezes, em diversos meios de comunicação. E muito me surpreendeu o fato de que em nenhuma delas alguém ligasse o triste acontecimento ao dia internacional da mulher. Talvez fazer essa ligação seja decorrência de um hábito patológico de alguém que não sabe apenas curtir as "vitórias" femininas e ficar feliz pelos agrados recebidos. Pode ser mesmo. Mas, na minha cabeça, a ligação foi automática.

Pra mim, está muito claro que essa história traz em si diversas questões bem pertinentes nesse momento. Aspectos religiosos, sociológicos, culturais, políticos, poderiam ser levantados. Poderíamos discutir as relações de poder que vêm sendo escondidas embaixo de pesadas batinas. Mas, vou me ater a um aspecto mais "emocional" da questão.

Obviamente, a mulher atual já conseguiu se libertar de muitos dos grilhões que lhe prendiam as pernas. Entretanto, a batalha mais dura é para desamarrar os delicados e sutis laços que ataram nas nossas cabeças.

Brigar contra as imposições dos outros, contra um adversário concreto, feio e com um bafo quente que nos causa náusea é quase instintivo. Mas o dia internacional da mulher será mesmo só um momento de comemoração quando vencermos os fantasmas, os espectros, aquilo que por vezes nem conseguimos ver. É realmente muito difícil lutar contra algo que nos convenceram de que fomos nós que escolhemos. O inimigo é mais íntimo do que se pode supor.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Flagrante cumplicidade



- E aí, doutora? Como está a minha situação?

- Você conhece o procedimento quase tão bem quanto eu. Quantas vezes já foi preso nas mesmas condições?

- Essa é a sétima vez.

- Pois então. Já sabe tudo o que vai acontecer, não?

- A senhora acha que demora muito a me soltar dessa vez?

- Eu vou primeiro conversar com o delegado, depois começo a fazer previsões.

- As coisas estão feias pro meu lado, né? Pode falar, doutora. A senhora sabe que sou macaco velho.

- Justamente por isso que não entendo você. Tantos anos nessa vida e ainda dá um mole desses?

- Doutora, a senhora pode ser advogada só escrevendo petições? Consegue ficar na segurança de seu escritório, entre seus livros? Não tem que dar a cara a bater nas audiências? Se expor?

- E daí?

- E daí que cada profissão tem seus riscos. O risco da minha é a prisão. Faz parte.

- Desde quando estelionato é profissão?

- É a única coisa que sei fazer. É o que eu faço melhor do que os outros. Onde me sinto o melhor. E é o que paga meus desejos, meus vícios, meu sustento.

- Aptidão e satisfação.

- O que foi?

- Nada, só estava pensando alto. Continue.

- Pois é isso, doutora. A senhora usa seu talento e seu esforço pra conseguir sobreviver, eu faço o mesmo.

- Você só esqueceu de um detalhe. Todas as profissões têm uma função social. Elas servem de alguma forma pra contribuir com as outras pessoas, cada um se especializa em alguma coisa e oferece aos outros. Como se fosse um escambo de aptidões.

- Um o quê?

- Escambo, troca.

- Ah sim. Ouvi dizer que antigamente as pessoas trocavam o que plantavam com as outras. Um plantava milho, outro feijão, daí eles trocavam.

- Pois então. Hoje em dia, trocamos aptidões. Um sabe tratar de doentes, outro sabe construir casas, e cada um "vende" o que sabe fazer pra que todos vivam melhor.

- Entendi o raciocínio. Estelionatário não torna a vida de ninguém melhor.

- O que você faz é justamente prejudicar a vida em sociedade, à medida que você engana alguém pra ficar com o que é dele, além de causar um dano àquela pessoa, você gera uma sensação de insegurança e desconfiança nos outros, que começam a sentir que precisam se defender a qualquer custo porque podem ser as próximas vítimas. Isso cria toda uma desordem social, entende?

- A senhora tem razão. Eu não contribuo mesmo pra esse "meio social". Sabe por que, doutora? Porque ele também não me deu nada. Pra mim não existe mundo social, existe mundo cão, onde é cada um por si. Olha, doutora, não sou um cara ruim, sei reconhecer quando alguém me faz um favor. Mas eu não faço parte desse meio social, ele nunca fez nada por mim. E nem eu me sinto na obrigação de fazer alguma coisa por ele.

- Talvez seja principalmente por isso que anos de cadeia não conseguiram te ressocializar. Você nunca foi nem socializado. Mas eu ainda não entendo uma coisa. Como você se deixou pegar denovo?

- Doutora, o destino do estelionatário é a cana. Eu nunca quis juntar dinheiro. A senhora estuda, lê, fica cada vez mais instruída porque é essa a sua maneira de conquistar o seu lugar, de se fazer aceitar e respeitar pelos outros. Eu roubo pra comprar essas mesmas coisas.

- O seu discurso é muito bonito, mas há diversas formas menos prejudiciais a você mesmo e aos outros de conseguir o que quer.

- A sua, por exemplo?

- A minha, por exemplo.

- A senhora põe gente como eu na rua.

- Eu não senhor. Eu ofereço a pessoas como você o direito de ter uma defesa competente. Há o Ministério Público pra tentar provar que você é culpado se assim entender. E no fim das contas, quem decide é o juiz.

- O seu discurso é muito bonito, mas...

- rs... Você é muito bom na argumentação... Imagino que seja assim que você consegue enganar suas vítimas.

- Não somos tão diferentes quanto pode parecer à primeira vista, não é mesmo doutora?

P.S.: A cada dia mais me convenço de que cada post publicado aqui é em parte meu e em parte das pessoas que não só me visitam como deixam um pouco delas por aqui. Um comentário, uma sugestão, uma provocação. Uma única palavra deixada pode fazer surgir em mim uma torrente de pensamentos, emoções e mais palavras. Obrigada, Cris.