Voltando à tona

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Hoje é dia 31 de dezembro de 2009. Faz exatamente 10 dias que ele resolveu dar fim a sua vida. Fez isso antes que simplesmente deixasse de existir, se desintegrasse, implodisse, fosse esmagado por seus próprios sentimentos (ou pela falta deles). Morreu mas não partiu. Nem pra cima, nem pra baixo. O chão não se abriu, uma luz não brilhou no céu. Nenhum sinal, nenhuma trombeta tocando. Ele foi ficando, sempre esperando, mas nada aconteceu. Só que hoje é dia 31 de dezembro e, se resolveu se matar justamente por não querer se transformar em um vivo morto, muito menos vai entrar o ano de 2010 na condição de morto vivo.

Pra frente é que se anda, já dizia o ditado. Já que nem o céu nem as profundezas pareciam muito dispostos a recebê-lo, o jeito era caminhar pra frente. Tentou o primeiro passo. Nada. Sentia como se seus pés (de vento) pesassem 200 kg, simplesmente não conseguia movê-los. Não entendeu. Era um fantasma, devia plainar no ar, com a leveza dos espectros. Mais uma tentativa. Nem sinal de qualquer movimento. Exausto, olhou em volta à procura de abrigo. Não havia cadeiras, não havia encostos. Talvez o castigo divino por uma vida inteira de ócio e sacanagem fosse passar toda a eternidade em pé, sem conseguir dar ao menos um passo (ou vôo) à frente. Mas cadê o Todo Poderoso que nem se dignou a se levantar de seu trono sagrado e dar "pessoalmente" a sentença?

Não podia ser. Devia haver uma saída. Lembrou que morto não sentia dor. (Doce ilusão. Mas disso ele não sabia ainda.) Juntou toda a força que lhe restava e se jogou de costas ao chão que, na verdade, não conseguia enxergar. Não caiu, mas deu alguns passos atrás, o que o fez descobrir que, se pra frente não conseguia andar, o caminho de volta estava aberto, esperando por ele. Por total falta de opção, voltou a mergulhar na escuridão de uma noite sem estrela, sem luar.

...

Abriu os olhos. Não estava mais caindo, estava plainando. Seus braços e pernas, num movimento ritmado. O homem, como não sabe voar, nada. Aquela noite em que ele se lançou num mergulho cego a princípio lhe parecia um mar revolto, agora era rio tranquilo. Se antes o repelia, empurrava cada vez mais em direção ao chão, agora o acolhia, o embalava, tal qual mãe saudosa envolvendo seu filho num abraço afetuoso. Chegou a sentir as mãos que o seguravam, os laços invisíveis que o puxavam de volta.

De repente, foi tomado por um surto de lucidez e tudo ficou muito claro, como se uma lua cheia resolvesse dar o ar da graça pra fazer da noite dia, da perturbação consciência. Era o amor. O amor que ela sentia por ele. O amor que ele sentia por ela. Era ela que não lhe deixava partir de vez, a amante que se joga de joelhos, tranca as portas, rasga a carne e o peito. A amante que não deixa o ser amado prosseguir. Não ainda. Não até que o fogo se apague, não até serem totalmente consumidos, sorverem até a última gota. Ela que o trouxe de volta. E naquele instante ele soube que seria ela que diria a última palavra. Decidiria como seria o fim dessa história. A ele só restara a condição de refém. E não é isso, de uma forma ou de outra, que acontece com todos aqueles que ousam amá-la irrestrita e despudoradamente? Ela. Sempre ela. A vida.

P.S.: O final não é tão feliz como pode aparentar à primeira vista. Mesmo uma casa de paredes rosadas, com placa escrita "Lar, doce lar", será uma prisão angustiante se portas e janelas forem todas trancadas. A vida, geralmente, é amante muito mais "possessiva" que a morte.

Brincadeirinha... o final é feliz sim, afinal, continuo sendo uma eterna otimista... rs.

16 comentários:

Mário Liz disse...

O Cara que vê o Tempo...




(Mário Liz)




O cara que faz poesia é um cara legal. Ele é meio esquisito, barba por fazer, mas é um cara legal. Tem vezes que ele ri demais. Parece anormal. Anormático. O cara sai dos trilhos, vive sem normas. Vive como se deve viver, sem querer se valer do que não é do coração. E é razoável que ele viva assim, sem medo de se perder. Aquele olhar... acho que sempre foi meio perdido. Pendurado num tempo que só ele vê. Um tempo que ele vê diferente. Sei lá como ele vê o tempo... mas ele o vê. Eu não. Já tentei ver o tempo e fiquei com os olhos cheios de areia. Isso de querer ver o tempo me faz chorar. Só mesmo o cara esquisito que faz poesia vê o tempo e não chora. Acho que a hora passa por dentro dele e se perde naquele coração, que é tão grande. E tudo que está no coração é fácil de se ver. Eu mesmo, que não sou lá dos mais sensíveis, com um pouco de vinho e outro pouco de emoção, logo vejo em cara e encaro o meu coração. E trafego no silêncio do peito, que me diz tantas coisas. E eu me descubro quando fuço ali. Do mesmo jeito que o cara que faz poesia se descobre quando vê o tempo dentro de si. Eu fico aqui a me dizer com meus botões de madeira e penso que deve ser um tanto dolorido ter o tempo no peito. O tempo todo. Essa coisa infinita e onipresente. Eu bem que tento imaginar, mas é muito pra mim. Quando eu for poeta de verdade, não irei buscar o tempo. Ver o tempo deve ser quase como ver a morte. E eu não vejo a morte, apenas a espio. Afinal de contas, quando a gente dorme, a gente sempre morre um pouquinho...

paula barros disse...

Amar a vida é mais difícil, do que desistir dela.


beijo

tossan disse...

Morreu mas não partiu...Refém do fim de ano. Belo texto! Estou sem computador reformando a casa. Beijo

Kari disse...

E quantos não são assim?
Amam a vida, mas não sabem o que fazer com ela...

Saudade de vir aqui!
Beijão

Mai disse...

Voltar à tona - morrer e renascer nos ritos de passagem. Você escreve os dramas existenciais sob a ótica de um cotidiano possível e plausível. A VIDA é o que resta, vivê-la é exercício - amar é busca, é luta, é guerra.
Há pessoas que só passam a existir 'tatuados na pele' ou quando morrem. Estranho, né?
Beijos, querida.
Um texto diferente. Gosto disto.

O Santo Forte disse...

Muito intenso e ao mesmo tempo triste, convido você a fazer comigo um conto a 4 mãos topas???

Daniel Hiver disse...

Gostei do teu blog. Parabéns. Visual bonito. Belo conteúdo. Coisas bem escritas. Agradeço a sua visita em meu blog e o comentário.

FatoSempalavras. disse...

A vida para alguns pode ser um planeta deserto, basta não saber ver o caminho de perto, basta não saber aonde está o seu teto.



Fiquei bastante lisonjeado com tais palavras escritas por ti no fatoSempalavras para mim. Muito Obg,sim?

Se puder entre em nossa comunidade, pf. – Sim, esta também pertence à ti já que escreves.

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=96229629

carlo.lagos@hotmail.com

Incontáveis abraços.

Eslley Scatena disse...

(...) coisa otimista hehehe. Fico contente em saber que ainda há quem preze pelo final feliz. Consegue transformar o meu mau-humor disfarçado em sarcasmo em uma esperança daquelas de pacote de figurinhas.

Gosto do seu estilo, de quem diz o que sente e conta uma piadinha logo pra disfarçar =)

Bjks!!!

Ju Fuzetto disse...

Flor!!!

Adorei seu estilo de escrever...

Parabéns pelo blog lindo, lindo, lindo!!!


Beijão

Fábio disse...

Esá muito legal, mas gostei muito mais da primeira parte, acho até que nem precisava de continuação. Podia ter acabado com o cara caindo da janela e pronto.

As duas partes juntas deixou o contou meio contraditório, mas nem por isso ruim.

Abraços

Simples Assim... disse...

Fábio, bem pertinente sua observação, mas, na verdade, não é um único conto. Pode perceber que há dois títulos. É continuação porque os dois textos fizeram parte de um mesmo contexto, de um mesmo momento. Como explicar? Os dois foram fruto da mesma explosão de coisas que estavam passando pela minha cabeça. Enfim, escrever o primeiro conto não "deu conta" de tudo... rs. Não sei se fez algum sentido. Aliás, muito raro eu tentar explicar esse tipo de coisa, mas dessa vez sua sensibilidade e, principalmente, sua sinceridade ao comentar me animaram.

Mari Arruda disse...

Só posso dizer que não esperava por esse final...o suicídio parecia finalizar a história, mas ela ainda tinha muito mais a contar-nos! A vida, que mesmo amada, não é vivida por alguns; e a morte que permanece sendo "a angústia de quem vive".

Seus textos têm um quê de Clarice Lispector! Gostei muito, realmente!

Obrigada pela passagem pelo meu blog e pelo comentário que gerou reflexões ótimas para postagens posteriores!

Beijos, Mariana

O Santo Forte disse...

Ficou bonito o novo estilo do seu blog...

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Acabei de chegar e nada mais gostoso que ler todo o carinho deixado. Foram dias mágicos, onde a natureza mostrou sua força dentro de nós. Cada um de vocês fazem a diferença, acreditem! Essa energia porreta é boa demais de sentir, minha gente. Sei que o recado é coletivo, mas a admiração por cada um é individual. Assim que organizar tudo, deixar tudo no ponto, retorno com mais calma no blog de cada um de vocês, viu? A correria impossibilita muita coisa, mas não tira de nós o querer bem que sentimos por todos.

Beijo bem grandão!

Rebeca

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P.s.: Você é linda, Dani...

Késia Maximiano disse...

Concordo em numero, geneero e grau com o ocmentario da paula! sem tirar nem pÔr!