Palavras, brincadeiras e tesouras

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Eu tenho uma relação muito estreita com as palavras. Um longo e rico relacionamento cujos efeitos e prolongamentos se confundem com minha própria história

Na infância, sempre foi muito nítida a minha pouca aptidão pra brincar de casinha. Não é nem que eu achasse chata aquela coisa de ficar ali horas trocando roupas de bonecas e arrumando a disposição dos móveis. Era uma questão mesmo de incompetência, minhas "filhas" não eram nunca as mais arrumadinhas e minha casa nem de longe agradava as outras meninas. Eu simplesmente ficava perdida ali entre roupinhas e "comidinhas" sem saber onde pôr as mãos e, principalmente, onde não pôr as mãos (já que eu sempre acabava derrubando alguma coisa).

Uma hora (na verdade, em minutos) eu acabava cansando de tudo aquilo e elas, as palavras, estavam sempre ali, à minha espera, prontas pra me usarem e se deixarem usar, sem qualquer pudor, sem qualquer cobrança. Daí, eu falava, falava, falava, e, por sorte minha, sempre havia alguém interessado em ouvir porque daquele jogo eu conhecia as ferramentas, sentia-me segura, adequada e era só relaxar e esperar o outro rebater pra continuar a brincadeira.

Aos poucos, fui aprendendo a lidar com a escrita. De repente, um papel em branco deixou de ser um desafio pra se tornar uma promessa. Antes, eu olhava toda aquele espaço vazio e sabia que tinha que fazer um desenho e sabia também que ninguém encontraria qualquer sentido e forma naquele amontoado de rabiscos estranhos. Mas, de repente, ensinaram-me a cobrir o nada com aquelas minhas queridas companheiras tão próximas, tão familiares. Desde então, nunca mais tive um papel (ainda que guardanapos amassados) nas mãos que, em minutos, não estivesse povoado pelos mais diversos pensamentos, sentimentos, devaneios... palavras.

Os anos foram passando e o interesse e afinidades só foram crescendo. Quis saber mais, conhecer melhor suas ferramentas, motivos e origens. A relação foi ficando menos ingênua, menos pueril, afinal tive que sair da redoma e "ganhar a vida" e elas, solidárias e fiéis, encararam a aventura sem qualquer exigência, sem nem reclamar a mudança de ares.

Bom, ainda hoje, estamos nós naquela brincadeira iniciada na infância, eu me utilizo delas com os mais variados objetivos e elas usam e abusam de tudo que sou, de tudo que estou, de tudo que eu nem supunha habitar dentro de mim. Não sei quem é carta, quem é jogador, não importa, aceito qualquer papel nessa brincadeira, de importante só o próximo lance.

P. S.: Já sei o que vc está pensando. Tem razão. Às vezes, muitas vezes, faltam-me as palavras. Na verdade, não são elas que se ausentam, sou eu que, como já disse, acho que quando é preciso escolher muito as palavras, melhor é não dizer nada. Nem sempre o "sentir" cabe em palavras, não sem ser reduzido, adaptado, cortado em pedaços. E eu, como vc pode supor, não tenho muita habilidade com tesouras.

6 comentários:

a má estrela disse...

rapidim querida,só pra te deixar um abraço! desculpa não comentar o texto,dever chama... hehe

bjin

a má estrela disse...

mas... faltam-lhe as palavras? Sinto que tbm é nelas que vc se descobre...rs

Conhece o sentimento de não saber o final de um texto que vc mesma escreve?

Zunnnn disse...

Porque nao disse da sua relação com as tesouras? seria inteterrante.mas me diz...
se nao tem uma relaçao boa com elas, como se refere no texto, pq entao usar?
fale fale fale..
Acho que o problema estar em justificar. entao fale de justificativas.

a má estrela disse...

voltei! aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

(agora com mais tempo... rs)

Já sentia falta de deixar-te meus comentarios,que por vezes me fazem tanta falta,e que ultimamente tem feito uma falta diferente,que começa a me incomodar por não saber explica-la bem com palavras... (é querida,o mesmo sentimento do seu texto... rs)
Bem,mas não é esse o tema deste comentario,alias,tenho me perguntado bem qual deveria ser o tema dos comentarios a serem feitos...Bem,devo reconhecer que me vejo desde o sabado num estado mental de anestesia quase absoluta,o que tem me restringido bastante nas coisas e o convivio com as pessoas... Sinto-me mudo,gesticulando com as palavras e falando com os gestos,mas aqui estou,ainda que por vezes tbm me sinta perdendo tanta coisa,numa metafora que vcs irão adorar me sinto mesmo "chupando uma bala sem tirar a embalagem" rs

Claro que tenho plena convicção do fato disso ser algo temporario,mas ainda assim me vejo frustrado por não poder sentir como "antes"... A paz,querida,aquela... é sentir-se assim anestesiado? se for,realmente acredito que estar anestesiado(no sentido literal) ou em paz consigo mesmo tem prós e contras muito mais parecidos do que imaginava nossa vã filosofia... rs

(vários minutos de reflexão...)
Decidi-me por resumir aqui esse comentario querida... por vezes sim,as palavras faltam,por vezes falta a melhor forma de junta-las pra abranger certas sensações... rs
Ainda assim,não me preocupo: eu sei que a sua relação com as tesouras se limita,no maximo,às coisas que não são capazes de retribuir sua sinceridde.

desculpa mais uma vez o comentario um pouco extendido..hehe
bjin amore,até logo.

La Critique disse...

Helena, também nunca tive afinidade com os carrinhos (embora tivesse uma enorrme coleção de invejar) e com os bonequinhos (nao tinha uma coleção.

Sempre me recorri a um pedaço de papel também... Sempre escrevendo, por mais que fosse coisas inúteis.

Me refugiei no teatro. Decorando pluft aos 12 anos, me veio uma paixão por tal. Me senti capaz, me senti um ser altamente potente e superior aos outros da minha idade (e ainda hj o acho), apesar de saber que na verdade não passe de mais um... Escrevia tudo, tudo que vinha a minha cabeça. E lia, lia muuuito.

E ainda leio. Amo as palavras. Elas transmitem as unicas coisas que temos de verdadeiro dentro da gente.

>> Eu li O Diabo Veste PRada em uma semna. é otimooo. Adoro Miranda. hehe


bjs