A rendição e a redenção

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Era o final de uma tarde daquelas. Trabalho, correria, calor, trânsito infernal. Sinal fechado. Avalanche de pedidos, ofertas, lamentos. Esmola, antena de tv, cegueira.

O motorista praguejou. Ela ouviu apenas recortes. Culpa... governo... trabalho... desgraça. O botão "não preciso ouvir isso pra completar um dia infeliz" estava acionado. Não ouviria o discurso inteiro. Ela já o conhecia de cor. Além do mais, não faltariam oportunidades de ouvir e falar sobre o assunto. Era só esperar o amanhã chegar e torcer pra que ele não fosse tão ruim a ponto de fazer com que ela se recusasse a ouvir de novo.

De repente, algo furou a barreira acústica. Gritos. Muitos gritos. Vozes finas, estridentes. Pivetes, certamente. Teriam roubado alguém? Seria a euforia do álcool, das drogas? Quis que tudo aquilo acabasse logo. O dia, o calor, o barulho. Ela só queria chegar em casa. Era pedir demais?

O homem tinha parado de discursar. Teria percebido que ela não estava disposta a servir de platéia? Provavelmente não. Ela duvidava até mesmo de que ele realmente estivesse falando com ela. O fato é que os gritos não pararam. Eles insistiam em fazê-la lembrar que não havia como ignorar um mundo inteiro. Tudo bem. Rendição. Ela se voltou para a direção dos gritos.

Não viu pivetes correndo com uma bolsa na mão. Não viu pequenos seres devastados pelo vício. Ela viu meninos. Eles eram crianças ainda. Como ela sabia? O sorriso. Eles ainda sorriam com a alma. Ela podia ver isso até de dentro de um carro, do outro lado da rua.

Pronto. Ela não podia mais ignorar. A vida estava ali, gritando através das bocas miúdas daqueles meninos. Eles berravam e olhavam pro céu. Ela olhou também. Viu várias pipas coloridas que dançavam ao sabor do vento. As linhas. Havia uma linha presa a cada pipa. Na outra extermidade, mãos pequenas faziam movimentos seguros. Ela percebeu naquele momento o motivo dos gritos, dos sorrisos abertos. As pipas voavam. Os meninos voavam.

Ela quis voar também. Quis correr e gritar com aqueles meninos. Ela não se moveu. Também não emitiu qualquer som. Mas alguma coisa havia mudado.

Ela não tinha uma linha na mão. Não se sentia capaz de abrir a porta daquele carro e correr junto com as crianças. Estava cansada demais. Mas ela ainda podia perceber o quão azul estava aquele céu de pipas dançantes, ainda era capaz de mudar de idéia e ver a beleza daquele dia. Um dia que ela chamara de infeliz há uns segundos atrás.

Tudo bem. Ela não podia voar, mas ainda podia sorrir. Sorrir com a alma. Ela ainda era criança. Um sinal. O sinal. Abriu. O carro prosseguiu e ela sorrindo, despediu-se dos seus pequenos e barulhentos redentores.

2 comentários:

Zunnnn disse...

o sorriso que tinha nas antigas fotos?

talvez a explicação

abraço

Ana Karenina disse...

"Estava cansada demais. Mas ela ainda podia perceber o quão azul estava aquele céu de pipas dançantes, ainda era capaz de mudar de idéia e ver a beleza daquele dia. Um dia que ela chamara de infeliz há uns segundos atrás."

o que pode ser bom sempre é saber que as coisas podem mudar sempre dentro de nós,mudamos mas nunca perdemos nossa capacidade de mudar.

Alguma coisa sempre muda de contexto, de foco, de intensidade e vamos vivendo... ora tistes, ora alegres, ora cômicos, ora sérios...

ora pensando por vezes que certas coisas negativas e incomodas podem durar mais tempo do que deviam e ora ver nestas mesmas coisas algo útil, singelo e alegre, algo que se possa aproveitar de algum modo.

Este post me faz lembrar estas coisas e fico sempre tentando ver nas coisas não tão boas, algo de bom que eu possa aproveitar e aprender com aquilo tudo. são vivências e aprendizados que a própria vida nos ensina. :)