A roupa do meu bem

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Eu nunca aprendi a costurar. Mas vendo suas vestes rasgadas, curtas, rotas, tive vontade de vesti-lo de mim. Peguei agulha e linha e comecei o trabalho.

Confesso que no início fui bem devagar. A agulha. Eu sabia que podia me ferir. Aos poucos fui esquecendo de lembrar. A linha foi tomando toda a minha atenção. Finita sim, mas longa o suficiente pra transfomar o meu desejo em abrigo.

Pronta. Levantei-a à altura dos olhos e sorri. Torta, disforme, cheia de remendos. Maravilhosamente imperfeita. Ri de mim. Ri pra ela. A roupa do meu bem.

Acomodei-a nos braços como quem acalanta uma ave ferida. Com passos vagorosos e decididos, levei-a para cumprir seu destino. Chegamos. Entreguei-lhe a oferenda. Ele sorriu de lado. Jogou ao chão os trapos que o vestiam e experimentou o singelo presente.

Surpresa. A roupa não serviu. Era ampla demais, exagerada. Teimava em não se ajustar às formas daquele que lhe serviu de modelo.

Eu quase não acreditei no que meus olhos teimavam em me fazer aceitar. A pouca habilidade, o receio, o capricho. Sabe-se lá qual o motivo. O fato é que a roupa havia demorado demais a ficar pronta. Ele havia definhado. Era o que gritavam os espaços vazios entre suas carnes e as paredes finas de pano.

Ele não rasgou as vestes insurgentes. Ele não me lançou um olhar de reprovação. Ele simplesmente não reagiu. Resignado, até tentou sorrir. Mas ele não precisava dizer nada. Levei as mãos aos ouvidos, mas os fatos, esses sim gritaram até eu admitir a realidade.

Ele até podia aceitar vestir-se de cadáver. Mas isso não amenizaria a pungência dos fatos. A roupa nasceu morta. E eu morri em vida, sem ter tido tempo de aprender a costurar.

11 comentários:

Zunnnn disse...

vc nao aprendeu a costurar?
nao se mate..
costura..costura..costura..

ninguem de uma vez só constrói o mundo...

isso serve?

espero que nao fique uma roupa como a sua...

abraço

Zunnnn disse...

desculpa.. sabe que eu quase nunca consigo me largar desse humor ironico, humor negro, humor ácido, humor simples e irritante...

beijos

Bill Falcão disse...

O título, o desenvolvimento e o final me lembraram muito uma música muito bonita da Dolores Duran. Acertei na influência?

Dani, depois que voltei das férias, muita coisa mudou por aqui. Deixei de trabalhar na editora e agora sou "prestador de serviços". Até gostei, a grana é quase a mesma, mas, pra variar, querem "tudo pra ontem". Ou seja, não preciso sair de casa, mas o PC ficou dividido, com mais tempo pro trabalho do que pras minhas "atividades lúdicas" hahaha!!!
Mas, logo volto a te mandar material pra diversão, beleza?
E um bjooooooooooo!!!!!!!!!!!

filósofo de araque disse...

Preciso ser sincero, gosto muito mais dos seus textos quando deixa falar esse seu lado meio insano, sem tanta preocupação com a adequação e com a coerência. É isso mesmo, você fica mais coerente na incoerência.
É isso, gostei muito desse post. Como sempre. Mas vou me dar o direito de discordar da garota do texto. Morta em vida não está ela. A relação (ops, roupa) que ela criou é ampla, exagerada, larga, é viva. Morto está esse homem que definha e resignado deixa ela seguir sozinha.
Eu tenho uma sugestão pra um final melhor pra essa estória, ela percebe que sabe costurar sim, enterra o homem resignado com sua mortalha e abre vaga pra um novo modelo.

Ana Karenina disse...

"Ele até podia aceitar vestir-se de cadáver. Mas isso não amenizaria a pungência dos fatos. A roupa nasceu morta. E eu morri em vida, sem ter tido tempo de aprender a costurar."

E como diz o clichê adaptado:

"a vida é uma sucessão de sucessos e insucessos que se sucedem sucessivamente"

sucessão de tentativas que dão em erros e acertos, as vezes dá tempo de aprender a costurar, treinar, as vezes ainda se tem pano e linha sobrando pra fazer uma nova roupa.

Porém certos erros são inconsertaveis, porque a vida não é rascunho e nem sempre nos dá tempo pra refazer o que foi feito errado. Mas já que lamentar e sofrer não adianta, por hora aceita-se as "derrotas" e busca-se evitar cometer novos erros.

Mesmo assim há quem queira viver sem se preocupar em evitar novos erros porque acha que aprende melhor cometendo eles ou deixando que a vida siga seu curso normal.

Quem sabe o caminho melhor pra si é a pessoa que caminha, então faça as escolhas que achar que deve, que traga paz de espirito, distração, dispersao, amadurecimento? são escolhas, escolha o seu ingrediente mais saboroso pra consumir mas não desista de experimentar novos caminhos e novos ingredientes.

quem sabe eles te acrescentem?

:)

bjs!

Tatá disse...

Li um comentário seu...teia de blog...e assim fiz também...o bom disso é as coisas que vamos descobrindo, as pessoas que tem o dom de traduzir nossos sentimentos em palavras sem que ao menos tenhamos algum tipo de contato.
Amei o que li aqui.

Beijos

Candy disse...

Ele não aceitou se vestir desse jeito e vc quis vesti-lo msm assim, né?

Respondendo o que vc comentou, ahco que solidão sempre deve ter existido. Hoje ou há 6 séculos.
Só acho que a forma de ve-lo é que pode ter mudado. Mas a forma de sentir...
essa provavelmente não muda.
*tvz a forma de preencher o vzio tb tenha mudado. Estamos diante de tantas 'inverdades', ilusões, estímulos, que nos deixamos levar por todo esse mundo.

beijão!
e otima semana!
;*

ღ mey ♥¨`*•.¸¸.•*´¨♥ღ disse...

hauahuahau se eu kisesse, de fato, aprenderia... e vc tbm!

a má estrela disse...
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a má estrela disse...

Há sintonia.Aquela,que outro dia me faltou,e talvez a ela tbm,e que agora só me faz ter vontade de perguntar,como quem duvida até onde essa menina conhece a si mesma,se hj,dois dias depois,ela escreveria o mesmo texto novamente....rs

bjin querida

a má estrela disse...

o que eu não faço pra te ver sorrindo hein? rsrsrs

se ficar mimada,não tenho medo,pq eu vou te dar tudo de qqr forma...rs

bjin