A quase morte do quase homem

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Fazia frio. Frio de queimar a pele. Frio de gelar a alma. A chuva caía fina e renitente, como o velho cansado que promete despencar a qualquer momento, mas continua caminhando por pura teimosia.

Ele pôs o primeiro pé na calçada úmida e pensou que deveria ter cuidado. Um passo em falso e se desmancharia inteiro bem ali, feito pão dormido afundado em leite quente. Pensou que se caísse naquele momento, um transeunte desavisado bem poderia lhe confundir com um monumento de mau gosto, uma escultura estranha, um punhado de lixo. Lixo orgânico.

A passos lentos, foi caminhando de cabeça baixa. Analisava seus sapatos gastos, a calça surrada, o casaco que fedia a bebida, mofo e solidão. Não fazia muito tempo que havia comprado aquelas roupas, mas elas estavam irremediavelmente sujas. Uma sujeira que não poderia ser limpa com água e sabão. E não eram só as roupas. Assim que se sentia por dentro também. Desgastado, usado, um homem de segunda mão.

Continuava caminhando. Mantinha-se concentrado em apenas uma coisa. Precisava permanecer em movimento. Não podia parar de andar, não podia parar de pensar. Naquelas circunstâncias, a perda de qualquer uma dessas duas coisas significaria deixar de existir. Não havia plantado árvores, rabiscara apenas alguns pensamentos desencontrados em papéis que depois usou pra limpar o nariz, e filhos, talvez os tivesse por aí, perdidos, mas que diferença fazia? Eles não sabiam de sua existência. Ninguém mais sabia. A não ser o velho surdo que vinha cobrar o aluguel uma vez por mês.

Virou uma esquina e de repente uma luz intensa lhe cobriu o corpo. Havia chegado sua hora. - pensou resignado - Então era verdade. Depois de uma vida de trevas, veio a claridade. Isso não parecia muito justo, mas Ele devia saber o que faz. Talvez alguém tivesse intercedido a seu favor. O advogado do diabo? Não importava o motivo. O fato era que, contra todas as previsões, ele enfim havia alcançado a luz.

- Sai do meio da rua, louco !!!!!! Quer morrer? Devia se enforcar com o cadarço do sapato ou se afogar na banheira. Assim pelo menos não dava problema pra ninguém.

Deu um pulo em direção à calçada. Ofuscado pela claridade, nem percebera que tinha caminhado pro meio da rua. Também não havia percebido que sua "luz divina" não passava do farol do caminhão de lixo. O caminhão de lixo. Lixo orgânico.

- Ao invés de me mandarem o barqueiro, me mandaram o lixeiro. Essa vida é mesmo uma piada de mau gosto. - Falou sozinho, enquanto voltava a caminhar lentamente.

15 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

...bob dylan é bom né?!
essa sua historia me fez lembrar um filme antigo com robin williams e jeff bridges (não me lembro do nome do filme)...
o conteudo do seu texto tem mto a ver com o que eu penso da vida: uma normalidade ordinária. Tolo e aquele que pensa que o seu fim será, de alguma forma, digno ou consonante com a vida que levou. A morte é a morte, e ponto!
beijos (vc passa demasiado tempo pensando hein!)

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Danielle,

Será que esse velho teria uma moeda para o submundo? Afinal, o barqueiro quer o dele... Cruz credo!...rs. Não sei se você quis se referir ao mundo de Hades[Jota Cê aqui falando sobre o Barqueiro...ahahah]
Admiro sua escrita, a forma que você expressa suas emoções através de textos cheios de verdades.
Jota Cê e eu vivemos o amor, sentimos o amor, nos alimentamos dele. Muitas vezes somos descarados, outras vezes somos sutis... e todas as vezes somos apaixonados.

Adoro sua presença!

Rebeca

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Kari disse...

Há dias em que a gente realmente se sente assim, né?

Muito bom...

Beijos

Bill Falcão disse...

E gente assim caminha aos montes pelas ruas do mundo, Dani!
Muito triste. Lixo orgânico!
Bjooooooo!!!!!!!!!

Fabricante de Sonhos disse...

Olá!

Estava passeando pelos blogs da vida, achei o seu e me encantei!

Linda a sua prosa...
Fica aqui o desejo de que escreva mais! cada vez mais!

Parabéns pelo blog, viu?

Beijo meu...

Fabricante...

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

O Néctar da Flor mais uma vez homenageia os amigos queridos com mais um selo, onde a magia acontece, seja ela qual for.
Não existem regras, apenas repasse com carinho para aqueles que fazem a mágica da escrita criar vida.



Beijos jogados no ar, sempre!

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paula barros disse...

Oi, menina linda

Fiquei a pensar quantas vezes nos sentimentos lixo, cacos de gente, ou com a sensação de já termos sidos atropelados por um caminhão...mas o bom do lixo orgânico é que ele pode virar adubo e fazer crescer um novo ser...

Os seus textos sempre bem escritos e fortes.

abraços, abraços....

Carla disse...

a vida às vezes tem dessas estranhas ironias...o que vale é que muitas vezes é possível inverte-se essa realidade
beijos

Polly disse...

hj estou cheia dos choques bloguisticos...
to ouvindo o bob o dia todo e resolvi vir aqui fazer visita.UIA! O bob é foda! E ele ri enquanto canta...
Todos os dias eu vejo um amontoado de lixo refletindo nos vidros do metrô. eu tô no meio dele.

Avassaladora disse...

"Assim que se sentia por dentro também. Desgastado, usado, um homem de segunda mão."
Moça, um texto impactante!
Há tanta melancolia em suas palavras...
Um texto que nos remete ao somos...pó!
Ou "lixo orgânico"...


Beijos e carinhos!

Candy disse...

Sabe a primeira coisa que pensei?
"qual o cheiro da solidao?"
Qual é?

:**

LUiA disse...

Estive ausente durante um tempinho deste lugar que tanto gosto. Hoje estou de volta e com mais tempo para visitar, ver e ler tudo de lindo que sempre encontro por aqui!
Aos pouquinhos, vou voltando ao ritmo normal...


Não sou velha, mas sinto-me muito cansada nos últimos dias, quase despencando a qualquer momento. Minhas roupas também andam impregnadas.
"Precisava permanecer em movimento. Não podia parar de andar, não podia parar de pensar. Naquelas circunstâncias, a perda de qualquer uma dessas duas coisas significaria deixar de existir."

Minha sorte é que sinto que dentro de mim existe uma represa. Na verdade uma energia que está represada.

Não não! Não espero por lixeiros! Espero por remos...

Com muita emoção que este texto me trouxe, um grande carinho da LUiA

O Sibarita disse...

Oi moça! kkkk Bela paródia do quotidiano, qualquer semelhança, é mera coincidência!

Eita menina retada meu Deus!

Como escreve bem, heim? Também, a cabeça que você tem, olhe ai o Chico, o Bob Dylon para confirmar isso!

Beleza pura!

bjs
O Sibarita

C. disse...

Por vezes vc me tira as palavras, nao sei nem por onde começar a comentar, só fico a apreciar!