Mais uma vez

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Ela abriu a porta e o pó invadiu suas narinas causando uma forte ardência. Era a velha alergia à estagnação que lhe roubava ar e paciência. Prendeu a respiração e entrou. Foi logo abrindo as janelas, tomando aquele espaço que considerava seu. Ao menos, temporariamente.

Depois de claro todo o ambiente, encostou num canto e começou a planejar: Como ocuparia aquele grande espaço vazio? Ligou a velha vitrola, deixando que seu som atemporal pairasse no ar. Qualquer um que passasse por perto, de padre a vadio, saberia que ali era um lugar sem tempo determinado, uma ponte, um elo perdido.

Ela, cujo habitat sempre fora negro com pequenos adereços brilhantes, decorado por um grande enfeite prateado de forma variante. Ela, sempre tão criatura, resolveu brincar de criador, sentou no chão, remexeu a terra e plantou uma roseira, com uma estranha sensação que bem poderia chamar amor. Plantou a roseira pensando que faria todo sentido criar raízes naquele jardim que facilmente poderia ter saído de uma das telas que um certo pintor melancólico e frustrado vendia naquela praça de anos atrás, um ano que não se recorda agora, de quem ninguém se lembra mais.

Por dias, trabalhou incansavelmente. Quando chegavam as noites, ela dormia sono profundo, cansada de dias inteiros de labuta, na lida. Limpou, perfumou, ocupou. Ocupou-se daquele lugar, daquele momento, daquela vida. Até que num momento qualquer, que hoje não consegue determinar quando, surpreendeu-se com uma constatação a atordoada mulher. As paredes estavam todas ocupadas, estava pronta a acomodação. Seu cheiro estava em cada canto, sua música ecoava senhora da situação. A semente havia germinado, em pouco tempo a roseira começaria a brotar. Mas aquele cheiro não era mais o seu, tampouco era seu aquele lugar. Não reconhecia aqueles rostos nas fotografias, muito menos a face que via retratada em cada espelho. Voltou a perambular nas noites, a não ver mais passarem os dias. E a alergia ao pó que somente ela via tornou insuportável a respiração naquele ambiente de rotina, estagnação.

E quando, enfim, fechou a porta, antes de partir novamente, olhou o botão de rosa que não veria ser deflorado e riu de sua própria tolice ao imaginar em outro momento que um dia poderia não ser mais angústia, frustração, tormento, plantar seu destino em terra fresca e firme, colher o que fora plantado, deixar de arrumar malas, preparando-se pra partir. Descansar de olhos fechados, sem a brutal sensação de que nunca mais os poderia abrir.


P.S.: Depois de dias de gripe, mudança e adaptação, estou de volta (isso soou meio trágico). Ao abrir o blog e ler algumas mensagens deixadas, percebi o quanto senti falta desse meu reino de palavras, ideias e (cada vez) mais sentimentos.
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18 comentários:

Mai disse...

Ah! VIVA! Retorno com texto que fala de lugares que mais uma vez se ocupa.
Lugares e deslugares e os vazios.
Ausência e Presença
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Em tempos de H1 N1 - 'Influenza A' e da MÁ INFUENA de suínos que arretando o Brasil, nos preocupamos. Então digo-te que hoje eu comemorarei e bebemorarei teu retorno.
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É chato esse troço da virtualidade porque quando há um hiato no tempo, nós não sabemos onde procurar alguém que torna-se importante.
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Deixo-te um abraço e um sopro de prana e muita saúde.

Leo Mandoki, Jr. disse...

foi mesmo trágico...ou vc está deprimida ou está em vias de se apaixonar....ou talvez seja do rim. A sua escrita tem pco de melodrama. E eu tenho saudade sua.

tossan® disse...

Menina como é bom te ler. Gosto e sinto! Você faz falta porque é especial! Beijo

Mai disse...

Dani,

porque eu estou tendo problemas com minha comunicação e não consigo ser clara, erros de entendimento estão ocorrendo. A falha é minha e não de entendimento dos outros. Então deixa esclarecer que estou dando viva, ao teu retorno e viva por ler teu texto e ocupares um lugar que estava vazio por tua presença e importância.
H1N1 é o vírus que causa a influenza A (gripe suína) e, estavas gripada, preocupando todos ao teu redor.De volta às notícias nos deparamos com a 'má influenza' do senado.
Não estou brincando, estou falando claramente que me preocupei contigo que estou feliz e que comemoro e brindo tua presença.
É isto.
Desculpa se pareceu q eu estivesse brincando.

beijos, Dani
Você faz falta.

Kari disse...

Despedidas sempre doem.
Mudanças, nem sempre são fáceis.
Mas poder aprender com tudo isso é fundamental.

E ei... Sentimos falta também.
Beijãooo

paula barros disse...

Quantas e quantas vezes a mesmice nos incomoda, nos inquieta, e partimos em busca do diferente.

Mas a inquietação continua em nós, vai conosco aos lugares, e a alma continua espirrando em busca de ar livre.

Gosto desses textos, que além de bem escritos, o conteúdo me deixa viajar por pensamentos.

abraços, com carinho.

Ana Karenina disse...

cadê você menina sumida? não pude ligar, mas que bom que você retornou. pensei que tinha se cansado desse mundinho virtual e das criaturinhas virtuais que te seguem, felizmente que ainda não... rs

vocês me abandonam, só me resta então ver novela, oh céus, oh vida!

"onde é que estão as lamparinas do seu juizo?"
"não fique parada que nem uma coluna do templo!"

não nos abandone!!

risos!!!

bjs até a próxima!

Mai disse...

Dani,

parece que nos reencontramos. Quero dizer que o tanto que consegues falar ao meu coração é mais do que o comum é algum algo de um reencontro de quem se conhece há anos ou vidas...
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Eu já havia dito que lia teu blog desde uma homenagem do Tossan mas que foi o Leo que me falou do transplante e voltei outras vezes.
E depois me preocupei com o tempo sem notícias, sem sinais.
Bem tudo isto é para te dizer que eu, realmente gosto de ti, sinto verdade e, de verdade você é uma doadora de vida, não apenas a sua mãe mas acredito que esta seja uma habilidade, uma sina, um dom.
És doadora de vida.
Direi que fazes isto, simples assim. Nas palavras, nos gestos, no ato.
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Então,"mais uma vez" ser "simples assim" é ter, nas "impressões digitais" algo de amor doador, algo que doa vida.
Beijos, querida,
Obrigada.

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Danielle, mais que linda...

Olha, toda vez que leio algo seu, sinto o texto criando asas pra alçar aquele voo. É como se escutasse uma música e sentisse vontade de sair rodopiando. Você sabe batizar o seu momento de uma forma benta, menina linda. E entendi o que quis dizer, porque tudo o que sai de ti é da mesma forma. O que transcende nas nossas palavras é a magia que o querer bem proporciona.

E você é uma linda que adoro!

Noite de luz, menina linda e querida.

Rebeca

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Valdemir Reis disse...

Olá amiga.
Aproveito e venho matar a saudade fazendo uma visita. Valeu chegar até aqui! Confesso que gostaria de voltar com mais freqüência, porém o “MBA” continua firme e o tempo ficou muito dividido, entretanto organizei momentos para visitar os preciosos amigos(as). Na oportunidade quero compartilhar de Machado de Assis o poema: “BONS AMIGOS. Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende. Amigo a gente sente! Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar. Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende. Amigo a gente entende! Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar. Porque amigo sofre e chora. Amigo não tem hora pra consolar! Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade. Porque amigo é a direção. Amigo é a base quando falta o chão! Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros. Porque amigos são herdeiros da real sagacidade. Ter amigos é a melhor cumplicidade! Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho, há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!” Desejo um ótimo fim de semana. Muito sucesso, muita paz e luz. Brilhe sempre! Fique com Deus. Felicidades.
Valdemir Reis

Kari disse...

É. Também acho aquela propagando super impactante. Se tu não conseguiu copiar, coloca no google "doação de órgão, imip" que aparece.
Que bom que tu gostou do que escrevi.

Beijos

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

A vida!
Vir aqui já é uma delícia, principalmente no final da tarde quando bate aquele "tristeza".Como eu falei; É a vida!
É bom vir por aqui.
beijosssssssssssss

Ilaine disse...

Que lindo blog!
Que fina escrita.
Adorei!

Um carinho

Kaká Bullon disse...

texto lindo!
...sinto isso muitas vezes... e maquino aqui sozinha toda a situação de sentir a alma pedindo a mudança, de completar o cenário até se encaixar exatamente com a imagem que eu anseava.. Aí sinto de antemão o vazio de alcançar e ver que o tempo da mudança não é mais aquele.. ficou pra trás, era só um justo momento e talvez não volte nunca...

desstência? "minha virtude/defeito é o desinteresse e a distração."

também não se pode dizer que me é de todo um momento perdido e de desolação... me inspira retratos! desenhos... pinturas... Cada um disfarça frustração como pode... amelie joga pedras pra "aliviar" o desassossego... eu imito arte.

Vir aqui já é como sentar ao sol pra ele secar os cabelos... um prazer leve e irresistível.. palavrinhas de ouro. Bjins

滿天星花語 disse...
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Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Candy disse...

E vc tb fez falta, acredite!

Conta pra ela que as coisas podem mudar e a vida de angústia pode ficar com mais cor...

:***