Sentimental X Factual

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Outro dia eu estava lendo uma crítica à situação política do país, uma entre as milhões que transitam pela net. Mas essa, em especial, tocava numa questão na qual eu ainda não havia pensado. O autor do texto, ao proclamar a tão falada passividade do povo brasileiro diante dos absurdos recorrentes na politicagem nacional, mencionou a omissão de nossos artistas. Ele destacou o silêncio de pessoas como Chico Buarque, antes exilado por sua arte “subversiva”, por continuar se expressando ainda que em códigos, apesar da (brutal) repressão a tudo o que fosse de encontro às ideias ditatoriais da época. Eu li esse texto há dias, mas esse comentário em especial não me saiu da cabeça.

O autor criticou a omissão dos artistas. Já eu prefiro evitar julgamentos de valor. Não me sinto no direito de condenar alguém por não representar os anseios ou a indignação de todo um país, mesmo que esse alguém seja famoso e tenha um certo poder de mobilização. Mas costumo pensar nos motivos que levaram as pessoas a fazer ou deixar de fazer determinadas coisas, isso me ajuda a entender meus próprios motivos. Então, depois que li o mencionado texto, uma pergunta ficou: O que calou o Chico?

Como é de costume, em um momento em que eu nem estava pensando nesse assunto, ocorreu-me uma possibilidade.

A arte é uma expressão genuína de sentimentos. O artista pode se expressar sobre qualquer coisa, relações afetivas, fatos cotidianos, política, mas é preciso que o assunto mexa com suas emoções, toque em sua alma, caso contrário, não será arte, será uma outra forma de comunicação. Portanto, mobilizar as pessoas, chamar a sua atenção pra algum fato relevante pode ser um efeito da arte, não sua causa.

Enfim, de repente me veio à cabeça que, na época da ditadura, os artistas queriam utilizar sua arte com liberdade, apenas queriam expressar as suas emoções sem limites. Como eram impedidos, a própria censura acabava gerando outras emoções, mais fortes, mais inflamadas, porque nada machuca mais um homem do que ver tolhida sua liberdade de sentir e de expressar seu sentimento. Assim, não a ditadura, mas as sensações dos artistas diante de tudo que lhe tomaram acabaram sendo a temática principal daquela época.

É isso. Eu me perguntei o que (ou quem) calou os artistas e a resposta que encontrei foi a negação da premissa da qual parti quando formulei o questionamento. Ninguém calou Chico, na verdade, eles fizeram exatamente o contrário. Quando se deixou de censurar a expressão de sentimentos, os artistas obtiveram o que almejavam, deixaram em segundo plano os fatos e focaram no que lhes é mais precioso.

Quanto aos fatos, inclusive o retorno de uma certa censura, eles continuam tão absurdos e relevantes como antes e devem ser proclamados, inclusive através da arte. Mas sinceramente acredito que não se pode cobrar que alguém desempenhe um papel o qual ele nunca se comprometeu a desempenhar.

14 comentários:

Ana Karenina disse...

Que nada, suma, mas volte!! rs

estava comentando com amélia hoje sobre uma frase que gosto muito e que sempre me lembro nessas fases loucas que vivemos meio distantes:

"deixo as pessoas livres, se voltarem é porque as concquistei, se não voltarem é porque nunca as tive"

você vai, mas sempre volta... logo conquistei você? vou acreditar que sim. rs

Ainda não me voltou aquela inspiração karenina de antigamente de analisar o post e comentá-lo, acho que tenho ficado mais Ana, menos complexa, menos sem tempo, mais simples, talvez eu conquiste a outra metade de mim né? mais inspiradora, mais paciente, vamos aguardar as próximas cenas... rs

bjs

Leo Mandoki, Jr. disse...

uma excelente análise, talvez mto próxima da verdade.
Mas eu ainda me lembro que dps de 1985, mesmo dps do Sarney, na apeca do Collor, os artistas classicos brasileiros falavam, se insurgiam, eram ouvidos e formavam opiniões. E nessa época já não havia censura.
Entao afinal o q os calou?
Sabe...todos eles vendem menos (Chico, Caetano, Gil, Milton etc..) do q qq grupo de musica axé, pagode, sertaneja e outras coisas do genero...acho que no fundo eles estão muito descrentes dos valores culturais a que o Brasil resolveu adotar. No fundo acho que é uma questão de reconhecimento atual.
beijocas
(gosto da forma como vc pensa)

paula barros disse...

Querida, está bem?

Penso que algo que reprime a liberdade, tende a abrir alguma forma de expressão, e assim feito diz no texto ouve toda aquela criatividade e explosão de belos artista.

Quanto ao calar, tb já refleti sobre isso a partir de mim, e vejo hoje uma apatia, pelo não acreditar que se possa mudar o que se instalou no país. E pior, vejo que muitos estão se tornando iguais no que os políticos tem de ruim, estão repetindo isso nos diversos segmentos da sociedade.

E os que ainda não se corromperam, está ficando doentes, e verdadeiramente apáticos.

O seu comentário como sempre é divino, vc ler, reflete, acrescenta, interage, é maravilhoso ler você me lendo.

Fico aqui imaginando que deve ser ótimo conversar pessoalmente.

beijos, tudo de bom.

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

O que calou o Chico, calou o resto do povo... e é difícil saber o que exatamente nos impede de colocar tudo a baixo. Um povo morto, é assim que me sinto diante da situação hoje em dia. É muito barulho por nada... será?

até mais.

Jota Cê

Barbara disse...

Chico calou o Chico.
Direito ao silêncio, aparente silêncio de gênio.
Leia os livros dele.
Chico Buarque é um dos melhores amantes dos brasileiros, do Brasil, de uma forma tal, que mesmo calado, se pensa nele...
O que diria Chico, não é assim?
Ele cala diante de todos e se alimenta de todas as riquezas com que nos prestigiou e através delas vai nos amando em letras, agora não tão melodiosas mas ainda verdadeiramente valorosas.

tossan® disse...

Agora só nas vitrines...
Quando os acústicos se calam,
varrem o pó e a sujeira dos quintais...Caras de susto!
Estão com jeito de tolos ricos, fizeram propaganda enganosa sem querer da barba, agora nem por dictério eles farão.
Gosto do teu texto! BeijÃo moça

Mai disse...

As verdades de cada um...Valores, crítica e Julgamento de valor.
A quem julgar, a mim ou ao outro? Atenta aos meus valores, estou fazendo a minha parte?
Somos diferentes - Únicos, se fizermos a nossa parte, podemos ser UNOS e UNOS, podemos nos reconhecer como iguais nas diferenças.
Basta que cada um faça a sua parte.
Aqui, lá ou em qualquer lugar, quando te leio, eu Sempre saio mais rica.

Beijos e obrigada, querida.

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Eslley Scatena disse...

Acho que se calaram porque ninguém mais presta atenção. As pessoas simplesmente preferem ouvir um mantra de adestramento "joga a mão pra lá, tira o pé do chão, balança a bunda...". É mais fácil seguir ordens do que ler as entrelinhas. É uma pena.

Ah, pode publicar os microcontos sim, doses homeopáticas e indolores de divagações hehehe.

Bjks, até mais!

Kari disse...

É como diz aquela frase tão conhecida, "o que é proibido é mais gostoso".
Se há a liberdade de expressão, porque se expressar? Não há mais motivos para lutar... E questionar? Pra que eles fariam se agora qualquer um pode fazer?

Uma ótima reflexão.

Beijos

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Késia Maximiano disse...

Oi meu bem!
Vim pedir desculaps por não ter respondido antes o teu recado.. realmente estive meio ausente por um tempo, ams agora estou de volta..
e como sempre, tudo tão bom por aqui..
beijo grande!

Bill Falcão disse...

Esse negócio de querer o artista engajado em tudo é mais velho que a arca de Noé, Dani!
No tempo da ditadura política, o Chico era famoso por suas entrelinhas e tudo o mais. Era claro, até pros milicos de plantão, que ele era "do contra".
Hoje, me parece que ele, apesar de continuar brilhante como artista, "é a favor".
Bimples assim!
Bjoooooooo!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

As pessoas mudam, assim seus valores também mudam, suas necessidades mudam e principalmente suas motivações. Tudo tem um começo, meio e fim.