Viagem de volta

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A morte chegou numa noite de lua minguante,
Suas mãos eram quentes, seu olhar insinuante.
Chegada a hora de começar a minha jornada
Não voamos, era abaixo a caminhada.
Já imaginava que os céus não se abririam pra me receber,
Há na morte uma justiça absoluta e irrestrita
Que a vida jamais será capaz de conceber.

Descíamos escadas e mais escadas,
Já iniciando minha penitência.
O corpo, em torpor pelas drogas,
Arrastava-se com extrema lentidão.
A alma, anestesiada pela resignação,
Entregara-se sem qualquer resistência.

Ao chegar às profundezas do meu inferno particular,
Não mergulhei num poço fétido e incandescente.
Os degraus desembocaram num corredor de gelo
Terrivelmente iluminado por luzes fluorescentes.
O enxofre não pairava no ar,
Não ouvia gritos de dor lancinante.
Só havia uma ausência de perfume, de tudo
E sussurros abafados de uma desesperança angustiante.

Quis procurar alento nas mãos quentes da morte,
Ela já não estava mais ao meu lado.
Dando por fim sua breve visita,
Largou-me à própria sorte.
Por costume, persistência ou uma espécie de fé
Continuei percorrendo aquela geleira deserta
Margeada por gemidos de dor e portas entre-abertas.

Ao erguer os olhos, avistei-a mais adiante.
Estava à minha espera, ao fim da linha,
Com um risinho irônico e braços estendidos,
Lá estava ela, a Vida que um dia fora minha.

P.S.: Viagem de volta é um dos poemas escritos no hospital durante a minha recuperação do transplante. Ele foi escrito no dia 9 de julho deste ano, 2 dias depois da cirurgia. Por que estou postando justamente agora? Porque chegou a hora. Simples assim.

15 comentários:

Zunnnn disse...

'Com um risinho irônico e braços estendidos,
Lá estava ela, a Vida que um dia fora minha.'


"Você não quer abrir pra mim a porta do seu mundo de gelo?"

Muitas vezes a vida nos alerta com um sorriso escoregado na ponta dos lábios, inclinado, nem sempre tão iluminado. Mas quando e se nos dermos conta, lá talvez tenha um silêncio aterrorizante. Onde você vai ser obrigada a se encontrar sem mascaras, sem companhia e sem volta. Um silêncio de que revele tudo sem dizer nada. Uma lembrança de uma vida inteira.

Quanto a parte da musica que coloquei...

Muitas vezes portas não se abrem por livre e espontaneo capricho. Medo.. Duvidas.. enquanto que o que queremos, exatamente o que queremos esta às mãos..
entrar no mundo de gelo de alguém, não é fácil, mas é uma escolha que deve pensar se vale a pena.

Quanto aos pinguins...
Quanto deles mais precisamos ter?

Bjs...

Ana Clara Otoni disse...

Descrições assim são tão particulares que ao se tornarem públicas causam imenso desconforto aos leitores. Desconforto por não viver a experiência narrada ou simplesmente por ter se sensibilizado com a experiência do outro e a partir daí ter pensado mais na própria vida.

tossan® disse...

Você tem a força e a coragem. A sabedoria e a dignidade. A capacidade de compartilhar a vida. Fazer sofisticada poesia ao derrotar a morte. Como é bom gostar de você menina, me enche de orgulho ao dizer o seu nome, mas só vou bradar e brindar DANI! Beijo

Andre Martin disse...

"Há na morte uma justiça absoluta e irrestrita, que a vida jamais será capaz de conceber"
Isto é profundo e soa universal!

A descrição da viagem é bem feita, e nem parece poesia, apesar frases rimadas. Muito bom!

Transplantes assustam e tranquilizam. Qualquer idéia de cirurgia me apavora. Por outro lado, elas acontecem porque se quer consertar algo, a gente. E isto é esperança!

Muito bem, continue simples assim. ;-)

Stéphanie Lopes disse...

Nossa mt profundooo
eu adoreii msmmooo
vc é mt forte née .. continue assiim ... coragem não pode nunca faltar

Bjs

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Acabei de chegar de viagem e Jota Cê ainda está voando, chega só à noite. Estou com tanta saudade de vocês, acreditam? Esse carinho pelas palavras faz uma falta, mas sei que vocês sabem que essa ausência foi por uma boa causa. Amanhã é nossa blogagem coletiva e vou esclarecer o método para alguns que não entenderam:

1- Todos os participantes vão ter que postar o seu conto/texto no seu blog com o selo da postagem.
2- Só vai participar do sorteio do orkut e das bíblias quem participou da blogagem
3- O sorteio do orkut vai ser pelo randon e vou dar um jeito pra ser filmado no dia 25/11
4- A votação da blogagem começa no dia 25/11 e todos os participantes irão concorrer.

Agora vou ver se durmo um pouco... tô numa saudade que nem sei... a distância maltrata, mas o amor acarinha com aquele dengo danado de bom.

Beijos jogados no ar, sempre!

Rebeca


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~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Dani,

Você sempre me emociona... incrível!

Essa menina? É linda demais...

Beijo imenso.

Rebeca

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Barbara disse...

Intensamente bela!

Dora disse...

Oi! Uma descrição livre de sentimentalismos desnecessários, o que, a meu ver, só é possível quando a experiência foi profunda e transformadora. Vida e morte sempre têm uma transição. São felizes aqueles que conseguem perceber isso de forma corajosa. Acho que enxergam a vida de maneira mais intensa.
Bom, obrigada pela visita, tá?! Adorei teu cantinho.
CHeiro grande e bom dia!

Mai disse...

Você deixou uma 'impressão digital' neste seu 'viagem de volta'.
A trilha sonora, as imagens dos pinguins, o mundo de gelo e a partida solitária foi um complemento fraturante. Somos sós mas não estaremos quando buscarmos. Aforismos perfeitos acerca da justa medida daquilo que morre ao que fica ou renasce.

Não há ausência de dor, Dani mas há formas diferentes de encarar estes momentos e você sabe bem como fazê-lo com coragem e honradez.

Postar agora e, 'simples assim' perceber que é por vezes um contexto - o inverno, a morte, a transformação e a partida. INVERNOS, GELO, VIAGENS SOLITÀRIAS ou não, é vida que segue, amiga.
Valor, verdade, força e delicadeza.
Você articulou tudo neste texto bem composto e editado na hora precisa.

Um carinho imenso e um abraço.
Muita admiração.

Sueli
Mai

ஜ♥_Karolina_♥ஜ disse...

Olá,
estou visitanndo os blogs que participaram da blogagem coletiva.
Deixo meu abraço e parabéns pela criatividade de cada palavra.
bjus

Mário Liz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mário Liz disse...

há temas que, quando empíricos (e foi o seu caso), tornam-se quase impossíveis de se comentar, pois por mais que o façamos, nada há de comparar-se à sua experiência.

eu posso dizer-me feliz por sua vitória, ainda que eu não a conheça pessoalmente: a morte perdeu uma poetisa e nós, seus leitores, fomos presenteados com suas letras de um tom "amargo-dece" formidável.

eu penso que nossas edificações são desfeitas quando algo assim nos acontece ... mas o passo seguinte vitorioso (quando ele ocorre) e por sorte ocorreu com você, reedifica o que fora quebrado e a nova moradia se faz ...

bendito o cheiro de vida nova, de casa nova, de amores novos ...

você (que eu ainda não sei o nome ...rs) teve o privilégio de renascer.

então pense: você terá um nova infância, uma nova juventude e uma nova vida adulta, sem perder tudo o que foi vivido em sua vida anterior.

obrigado por escrever este poema.

bjus.

Joana MartinS disse...

ameiiii...
poemaaa lindissimo...
amei!
amei!
amei!

:)

bjO*

Joana MartinS disse...

a tua escrita é resplandescentemente incinuante... brincas com a virtude de cada palavra sentida e cada significado seu...e lá me vejo eu mais uma vez, perdida na tua junção de versos enquanto se eleva a quietude no meu ser...