Na extrema medida

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Inevitável que, hora ou outra, as pessoas se vejam diante de si mesmas. Indefesas, tal bicho acuado, em frente a um espelho infinito. As paredes, os muros, os olhos dos outros, os seus próprios. Nesse momento, não há mais fugas, saídas de emergência, pela tangente. Tangência, intersecção. Duas linhas que, outrora paralelas, resolvem se encontrar. Aqui, justamente aqui, exatamente agora. E é hora da verdade. Ver e admitir o que precisa ser reconhecido. Conhecido. Sou uma fraude, uma farsa, um engano!!! Mas também não é caso de desengano. A verdade nem sempre é uma cusparada na cara, pode ser afago, solução. A cura. A partir de hoje, tudo, absolutamente tudo que eu disser, escrever, fizer, sentir. Tudo será escoltado por aspas. Portanto, assim que eu chegar, observe que elas me antecederam e quando eu partir serão elas que encostarão a porta. Por que medida tão extrema? Pergunta a cautela. Por quê? Eu contarei. Abra aspas, por favor. Eu sou a soma de cada palavra, cada sentimento, cada lágrima que vi rolar em faces que não são a minha. Tudo que digo já ouvi antes. Tudo que faço é reagir ao que veio de fora. Até o que sinto é uma cópia mal ajambrada do que testemunhei. Quando ando, imito o vento. Quando amo, imito o mar. Quando sonho, imito o Martinho. Sabe aquele? O pescador. Ele tem asas, voa, mas ele mergulha. Às vezes, por nada. Noutras, encontra o peixe. Engole. Absorve. Eu absorvo a vida, o mundo inteiro, o outro. É dele que me nutro, é o sangue que me corre nas veias, a lágrima que rola no meu rosto. Rosto que também é uma reprodução. Nariz de um, focinho de outro. O meu jeito de sorrir é como o dele. A forma que mexo no cabelo é igual a dela. Até o meu olhar. Tão aparentemente meu. Até ele não é tão próprio assim. É ordinário, comum. Comum acordo de circunstâncias que, muitas vezes, eu desconheço. Só sei que sou eu, apesar de não saber quem sou eu. Não exatamente. Não completamente. Mas, neste momento, estou aqui, de frente pro espelho, ele falou comigo e eu ouvi. Por isso, meu caro, não leve a mal o desabafo e, por favor, feche as aspas depois que eu sair.

11 comentários:

Mai disse...

Sem meias medidas se vai ao extremo na hora em que a garganta não segura mais a palavra e, das mãos, as letras escorrem. E escorreu. E veio com sangue ainda vivo. "Integridade"
Um desabafo. Elegante, mas no palanque desse mundo nético.Beijos, Dani.

b disse...

Por aqui estou entendendo que não te alimentas dos outros .
É como se você fosse o bolo (com recheio, substância) e os outros, o glacê.
Envolvida mas não possuída.

Fábio disse...

"Não fomos feitos de outra substancia, que não dos outros"

Leo Mandoki, Jr. disse...

As estrelas são contracções de matéria que criam, no seu centro, grandes pressões que dão origem a reacções nucleares. Esssas reacções convertem hidrogenio em hélio. Depois explodem. O hélio se transforma em carbono, azoto, oxigenio, silicio, fosforo e outros elementos. Esses elementos, apos a explosão, chegam aos planetas e aos povos. Ou seja, somos todos nós e tudo o resto feito de substancias estrelares. Somos estrelas. Eu, vc e a sua escova de dentes.

Unseen Rajasthan disse...

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~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Dani,

Influenciar o leitor com essa sua sede de profundidade é a sua marca. Como brota sentimento em cada medida extrema sonhada. Lindo, menina linda do meu coração.

Você é encantada...

Beijo bem grandão e cheio de admiração.

Rebeca


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Sandra Timm™ disse...

Oi, Dani!

Segui o conselho lá na postagem da Luna e vim visitar. Gostei do que vi e pretendo voltar mais vezes.

Parabéns.

Beijo

Bill Falcão disse...

Tá certa, todos temos direito a um desabafo de vez em quando sim. Ainda mais com essa profundidade.

Dani, texto seu já tá rolando lá na redação, beleza? Depois passa lá pra ver.
E um bjoooooo!!!!

tossan disse...

Toda cidade vai cantar
E finalmente vai voltar
O tempo da paz os tempos atrás
O tempo da consideração
Quando era menos ambição
E o coração valia muito mais
Toda a cidade vai cantar
O cancioneiro popular de tempos atrás
Que já não se faz
E chega a me dar uma emoção
De contemplar a multidão
Cantando pelas ruas principais
Joga todo mal pra fora
Abre o peito e chora em paz
Que é bonito demais
Toda cidade cantando
Como nos antigos carnavais

Paulo Cesar Pinheiro

O teu texto mais uma vez como tantas, é precioso. Gostei das modificações, principalmente do perfil. Beijo

Eslley Scatena disse...

Os amigos são extensões de nossa personalidade, independentemente do que achamos disso hehehe =)
Bjão!

paula barros disse...

Fantástico, principalmente ler os dois últimos post de uma vez.

Narrador e aspas. Penso na vontade de falar sem ser identificado, na vontade de ser, apenas ser, sem ser interpretado. De dá vozes as nossas muitas vozes, aos nossos personagens de nós mesmos.

beijo