E agora José?

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13 de abril, 01:23 h. Estou em casa, em Icaraí, Niterói. Há uma semana, bem perto daqui, um homem morreu soterrado em seu próprio carro enquanto trafegava em uma área nobre da cidade. Junto com ele estavam esposa e filha. Ambas foram salvas por um conhecido atleta brasileiro. Mas não faz sentido identificá-lo. Na história que estou contando, heróis são anônimos. Eles usam apenas uma alcunha, um nome de guerra. Solidariedade.

A madrugada agora está silenciosa. Não chove, não venta forte. Há apenas um frio que percorre a espinha, como pra me lembrar que neste exato momento, não muito longe daqui, uma tragédia continua se desenrolando. Fico me perguntando como pode estar tudo tão aparentemente normal. Como as pessoas podem continuar indo ao cinema, levando o cachorro pra passear, comprando roupas enquanto há dezenas de pessoas perdidas num mundo de lixo e lama?

Neste instante, enquanto escrevo, mães, irmãos, filhos, amigos esperam ansiosos uma notícia. Só que eles sabem que a notícia não será confortante, muito menos feliz. No máximo, um alívio. O alívio de enterrar os corpos dos seus entes queridos longe de onde estiveram "enterrados" enquanto vivos. No lixo, na lama, no esquecimento. É por isso que eles esperam, de olhos vidrados, as buscas que bombeiros e voluntários fazem no meio dos escombros. Querem que a morte ao menos seja a redenção, que ela liberte seus afetos da "cova" em que estiveram presos por toda a vida. E também é por isso que tantas pessoas, a apenas alguns quilômetros do lugar da tragédia, continuam suas vidas normalmente. Pra elas, aquelas pessoas já estavam enterradas no lixo e na lama muito antes do morro desabar.

Há quem diga que é isso mesmo. Os viúvos que chorem seus mortos e deixem que o resto do mundo continue a girar. Mas há quem pense diferente, especialmente há quem sinta diferente. Pessoas que, ao ver seres humanos vivendo e morrendo numa montanha de lixo, sentem-se meio órfãs também. Pessoas que não podem passar impunemente por uma tragédia dessas acontecida bem diante dos seus olhos. Pessoas que choram a dor do outro porque, de alguma forma, também é sua aquela dor. Pessoas que saem de suas casas debaixo de chuva para ir a um abrigo cheio de desconhecidos oferecer comida, roupa, solidariedade.

Todos sabem que houve, mais uma vez, omissão do governo. Todos sabem que a tragédia podia ter sido evitada. Milhões de discursos são reproduzidos, críticas formuladas. O poder público merece cada uma delas e é através da nossa cobrança que novas tragédias serão evitadas. Mas, enquanto observo da minha janela a apatia de tantos de nós, penso que a omissão não é um mal que ataca só o governo. Nós também nos omitimos, também jogamos um pouco de lixo sobre aquelas pessoas e agora também podíamos estar fazendo um pouco mais por elas.

P.S.: Vocês não têm ideia de como está a situação em várias áreas aqui de Niterói. Parece um cenário de guerra. Qualquer descrição que possa ser feita será incompleta, rasa. Centenas de pessoas perderam tudo que tinham, inclusive a esperança. Tudo é extremamente importante pra essas mulheres, homens, crianças, idosos, mesmo as coisas mais simples como pasta de dente, água mineral, papel higiênico. Se alguém se interessar em ajudar, com qualquer coisa, entre em contato através do e-mail daspe3@hotmail.com.

22 comentários:

Mai disse...

"E agora José?...Para onde?..."
R E C O M E Ç A R...
R E C O N S T R U I R...
Tudo o que está escrito e descrito aqui é de um realismo notável.
Talvez seja preciso muito tempo ainda, para que as pessoas atingidas consigam, novamente, se sentirem vivas.
Aqui foram montadas centrais de arrecadação e as doações obtidas estão seguindo.
Há horas em que não há muito o que dizer porque a demanda é por AÇÂO.
.
Nos falaremos a seguir.
Um forte abraço

Marcelo Mayer disse...

calma! calma! o governo do estado tá fazendo sua parte. eles estão remarcando os jogos no maracanã com muito esmero. não se preocupe.

bando de babacas

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

É de uma tristeza imensa esse cenário. Esse tipo de tragédia nos mostra que não somos nada diante da fúria do planeta.

O desenvolvimento pra poucos sempre à frente da segurança dos que mais precisam.

É muita dor.

Jota Cê

paula barros disse...

Oi, Dani, estás morando em Niterói?

Ontem conversava com um amiga sobre essa apatia que toma contos de muitos, de mim.

Quando muito ao ler o jornal, ou ver, e nos emocionamos e logo continuamos a nossa vidinha, e muitas vezes valorizando bobagens, sofrendo por besteiras.

Posso encaminhar o texto para pessoas amigas?

abraço

C@urosa disse...

Olá minha querida e sensível amiga Dani Pedroza, toda vez que eu me lembro dessa catástrofe, eu fico indignado com as autoridades desse país, irresponsáveis ao extremo.E agora José? que vai pagar por mais esse crime contra a população pobre, e quem vai pagar a conta? Infelizmente, só nos resta rezar pelas almas dos que se foram.

Paz e harmonia em seus dias,

forte abraço

C@urosa

C@urosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leo Mandoki, Jr. disse...

é a terra onde eu nasci...a rua onde eu morei na noronha torrezão...qnd eu era bem pequeno o meu pai tinha uma oficina no viçoso jardim, ao lado da garagem do 45 (e do 34)..e ainda me lembro do tempo em que a lixeira ainda era lixeira...e os nossos lixos iam para lá.
Me pergunto: qual é o responsável político minimamente preparado para governar um município que permite construção por cima de aterro sanitário?
.....
Lembra qnd falei com vc do Lula chorando? Era disso que eu falava! Hipocrisia pura! O Brasil tem muitas outras prioridades para além de Copa e Olimpíadas. Mas enfim...é o brasilzinho que existe!...que tbm é chamado de BRIC...basta olhar pra russia, índia e china...e vemos logo o que o brasil tem em comum....
....como eu gosto de ver o Lulalá chorando....como eu gosto de viver cda vez mais longe de niterói, do rio e do brasil!
beijocas

Bill Falcão disse...

Enquanto isso, milhares de candidatos surgem a cada minuto, Brasil afora, pregando que este país terá um futuro maravilhoso, caso eles sejam eleitos.
Já ouvi isso antes, diversas vezes. Quanto ao momento presente, eles dizem que é culpa de algum candidato do passado.
Bjooo!!

tossan disse...

Deixar o povo morar em cima do antigo lixão e sabemdo disso. Envie a conta e faça pagar o dolo...Sem mais comentários viu? Adorei o video. Não gosto do Eric Clapton, eu gosto muito! Beijo

*Carol Carolina* disse...

eu tive uma "noção" do que a chuva pode causar. tive meu carro levado, durante um temporal, enquanto eu estava no trabalho...

nem posso imaginar como seria, se fosse minha casa, meu lar, meus amigos e mto menos meus familiares, e menos ainda, se fosse eu.

Não consegui ainda tomar um lado nessa linha tenue, entre culpa do estado, e fenomeno da natureza.

só sei ter Fé.
só sei rezar.

Bjo!

J. disse...

Tudo muito triste mesmo. É triste perceber a dor alheia e notar como a gente se importa com coisas tão pequenas. No fim, só o que importa são as pessoas - e a gente briga, destrata, se ofende. Sem razão. Abutres de brinquedos são os nossos problemas perto de tragédias como essa...

Melia Azedarach L. disse...

Fico pensando nisso, vejo os programas, o sensacionalismo barato e me enfurece.
Lembro da "obrinha de reubarnização feita a cuspe" e o resultado de uma politica de lixo.
Eu detesto perceber que o desespero deles agora é pela época eleitoral e justamente por isso vão tentar resolver tudo nas coxas, mas eu quero ver depois.
Resumindo eu fico indignada!
Infelizmente não creio que o Brasil vá melhorar tão cedo (nunca), não nesse quesito.
Enquanto isso chovem os programas sensacionalistas e uma dose de drama na TV aberta e o povo precisando de ajuda de verdade.

Bah, revoltinha a minha!
Mas saudade de você, gostei do comentário e da proposta e sim agora coloquei sensor (rsrsrs).
Beijos querida!

Késia Maximiano disse...

Eu fico sem saber o q dizer diante disso tudo!
Sério!

Beijos...
Dias melhores para todos nós!
E sempre!

Le Vautour disse...

Putz... dizer o quê? Talvez que Descartes, no Discurso do Método, recomenda que recomecemos pela iconoclastia construtiva. É a destruição do que há, com o conhecimento já mais amadurecido, para reconstrução com base em mais conhecimento, em mais maturidade, em mais sabedoria...
Quem sabe não dá pra ser assim?
A forma como você escreve é maravilhosa, mesmo em se tratando de tema tão grave.
Abração de duas asas!

Kaká Bullon disse...

Quando vi tudo aquilo, pela tv aqui de casa, a kilômetros de distância essa pergunta traduziria bem as únicas palavras que eu tinha: E agora José? E agora?

Agora eu continuo me perguntando e um monte de gente também continua... enquanto outros criticam e procuram culpados, e outros choram perdas, e outros ainda nem pensam nada...

Li muita coisa sobre essa trajédia, muitas revoltadas, apontando culpados, demonstrando descaso, demonstrando cansaço... mas em meio a todas as palavras lidas, sua sensibilidade devolve fé. Porque prova que ainda tem gente, e há de ter muitas outras por aí, que se ocupam dos seres humanos, que os vêem com olhos humanos. E aí que a gente lembra porque sente tanto a mesma dor. Porque são pessoas de verdade, cujo motivo não interessa de imediato, mas estão precisando de outras pessoas!

Mário Liz disse...

e às vezes me bate esse credo no "apocalipse" . mas há muito lapso e pouca elipse concreta dentro desta minha frouxa informação. O Fim somos nós, assim como somos o começo.

Unseen Rajasthan disse...

Beautiful and lovely post !! I really enjoyed this post !Thanks for sharing.

O Santo Forte disse...

Alo terra? como anda as coisas ai, espero que tudo bem

Kari disse...

Antes de tudo, me desculpa a ausência, as coisas andam tão confusas e complicadas que não tem nenhum cabeça... Olha, o meu blog está privado por uns tempos e queroa continuar te tendo como leitura. Me manda o teu e-mail para kari-mendonca@hotmail.com para que eu possa te convidar, ok?

Beijos

Bill Falcão disse...

Passei por aqui e deixo um bjoo!!

Mai disse...

E por falar em saudade, onde anda você?

beijos