Uma saída

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19:45 hs e eles já estavam bem perto do aeroporto. Enquanto Henrique dirigia, semblante tranquilo, sereno, ela pensava. Era estranho como tudo dava certo quando você decidia fazer a escolha mais sensata. Não que ela achasse sensato fingir que estava namorando só pra agradar a mãe. Decididamente não achava. Mas era nítido que Henrique encaixava-se perfeitamente no tipo "a escolha certa".

Ele havia chegado dez minutos antes do horário marcado pra buscá-la. Ela, por uma dessas coisas inexplicáveis, já estava pronta. Não pegaram engarrafamento. E contra todas as previsões, quando a mãe desembarcasse, eles já estariam no aeroporto. Estacionaram o carro numa vaga ótima. Aquilo já estava ficando estranho. Ela começou a ter uma sensação esquisita de que estava tudo bom demais pra ser verdade. Ei, não era mesmo verdade. Era um teatro. Um espetáculo pra apenas uma espectadora. A mãe. Ainda não entendia por que estava fazendo aquilo com sua própria mãe, com um amigo tão querido, consigo mesma. O fato é que nunca tinha deixado a mãe interferir nas suas escolhas. O que havia mudado? Não havia mais tempo pra resposta. Início do espetáculo.

- Querida !!!

- Mamãe, que saudade !!!

- É um imenso prazer conhecê-lo. Sou Lourdes, a sua sogra.

- Mamãe !!!

- E eu sou Henrique, o candidato a seu genro.

- Acho que vamos nos entender muito bem, Henrique.

(...)

Foi só entrar no carro e a pergunta voltou, só que agora ecoava com uma urgência avassaladora. O que havia mudado? Por que ela, que sempre agira de acordo com o que achava certo, estava permitindo que todos vivessem aquela situação ridícula? É bem verdade que tanto a mãe, quanto Henrique pareceram muito à vontade em seus papéis. Talvez porque ambos se encaixassem muito bem nas personagens que representavam. Sua mãe havia nascido pra representar o papel de uma perfeita matriarca, o que incluía ser uma sogra invasiva e efusiva. Quanto a Henrique, ele estava nitidamente curtindo a noite, isso estava estampado em seu semblante enquanto ele dirigia em direção à casa dela depois de deixarem Lourdes no aeroporto. Aliás, ele tinha mesmo todos os motivos pra estar satisfeito consigo mesmo.

A "sogra" ficara totalmente encantada por ele, o jantar fora digno mesmo de uma peça teatral, com destaque para o momento em que Henrique narrou o suposto primeiro beijo do casal, terminando sua estória com um beijo daqueles, tudo sob o olhar de aprovação da mãe, que aplaudia discretamente a cena. Aplausos. Fim do espetáculo? Claro que não. Depois do beijo inesperado, a noite prosseguiu, com direito a galanteios elegantes de Henrique, olhares satisfeitos da mãe e a insistente sensação que ela tinha de que estava tudo perfeitinho demais pra ser verdade.

A verdade é que aquela noite havia sido uma grande farsa. E enquanto ele estacionava o carro, uma súbita certeza tomou conta dela e a fez estremecer: O espetáculo ainda não havia terminado !!!

- Você esteve tão calada por toda a noite. Parecia muito incomodada.

- Digamos que confortável não é a palavra mais adequada pra descrever a minha situação naquele jantar.

- Mentir pra uma senhora tão adorável quanto sua mãe não foi mesmo a atitude mais louvável da minha vida. Mas tivemos um bom motivo.

- É justamente isso que está me incomodando. Não sei se foi mesmo por minha mãe que fiz parte desse teatrinho ridículo.

- Não? E por quem seria?

- Por mim mesma. Talvez eu tenha tido vontade de viver esse momento "perfeitinho". Um homem normal, um programa tranquilo, uma mãe satisfeita com minhas escolhas.

- Um homem normal? Isso foi um elogio?

- Pode ter certeza de que foi. Nos últimos anos tenho me envolvido com homens nada convencionais e, consequentemente, tenho tido relacionamentos surpreendentes. E como você sabe, supresas podem ser boas ou ruins.

- Sabe o que acho? Você precisa de um homem que te ofereça estabilidade emocional, um homem que saiba exatamente o que quer e, principalmente, quem quer ao seu lado. Pode ser emocionante relacionar-se com gênios incompreendidos, mas também deve ser bem cansativo.

- Talvez.

- Eu quero ficar com você. Soube disso desde a primeira vez em que você sorriu pra mim. Dá uma chance pra mim, pra nós, pra você mesma.

Henrique a beijou. De repente, aquela sensação de que estava tudo certinho demais tornou-se sufocante. Ela não entendia por que se sentia assim, afinal a mãe já estava devidamente acomodada em um avião, indo ao encontro de seu irmão. Tudo dera certo. A farsa já havia acabado. Será mesmo? Será que ela ainda estava mentindo? Será que não mentia pra si própria? As perguntas brotavam aos turbilhões, ela não tinha respostas. Não sabia o que dizer pra si mesma. Não sabia o que dizer pra Henrique, que a olhava, enquanto acariciava seu rosto.

- Eu preciso ir.

- Atrasada de novo?

- Muito... rs.

- Posso te ligar amanhã?

- Ah sim, claro. Afinal, se você não me ligar no dia seguinte vou me sentir rejeitada... rs.

- Você é a mulher mais confusa e mais encantadora que eu conheço.

Agora foi ela que o beijou. Sorriu e saiu do carro. Estava atrasada. Muito atrasada. Havia muitas perguntas a serem respondidas. Mas antes precisava encontrar uma pessoa. Ela mesma. Entrou em casa, pegou a chave do carro e saiu.

Próximo capítulo: E tudo acaba onde começou.

11 comentários:

filósofo de araque disse...

O nome do cara perfeito é Henrique? Foi isso mesmo que eu li? Ironia cruel. Só não me diz que o nome do bêbado é Carlos. Já disse que não gosto dessas estorinhas, e vc sabe bem por que, é o seu refúgio quando fica com medo do que pode sair caso deixe suas emoções dominarem a caneta, nesse caso o teclado. O que você não se dá conta é que uma hora ou outra essa intensidade que há em você acaba se revelando por mais que você evite e é nessas horas que você escreve melhor. Ler seus contos é só aperitivo, só me faz esperar com mais ansiedade o que você tarda mas acaba revelando.

Léo Mandoki, Jr. disse...

esse henrique é meio sem sal né?? usa cabelinho cortadiinho por trás da orelha, faz a barba tdo os dias e tem sorrisinho colgate??
é isso??
hun hun
continuo achando que o carinha ideal pra vc é mandoki
mas vc insiste em recusar isso

tossan disse...

Eu sabia que vc ia amolecer um pouco. Não vá pela onda de Mandoki... Vá pelas suas emoções, só. A tua narração é ótima (prende o leitor) Bj

Ana Karenina disse...

agora fiquei curiosa, de quem são os textos? vc que escreveu ou pegou de algum lugar? abraços saudosos!

a má estrela disse...

Acabei de dizer-te que vc não vive através dos personagens... e não mesmo... eles quem vivem através de vc... não apenas por que vc é quem os descreve,os define... mas sim por emprestar um pouquinho do que vc tem em si a eles... e como são maravilhosos ainda que nas suas incertezas!

Sorte dos que podem ter,como eu e os teus personagens,o sentimento sublime de ter as potencialidades despertadas pelo mundo que vc tem dentro de si...

Não se preocupa,ela só queria não ter que fingir... e cedo ou tarde não vai mais ter que faze-lo,quando alguem a tocar tão fundo que olhar nos olhos dele será encontrar a si própria

bjin querida,te adoro,viu?

Léo Mandoki, Jr. disse...

essa coisa de "quem sabe um dia..."
isso não combina com vc
vc tem que dizer assim:
- Ela vai tentar com Mandoki sim! e pq não?
"quem sabe um dia"... é obra do acaso
Mandoki tá doidinho pra beijar a boca dessa garota viu!! mas tem 2 na fila: padeiro e sorrisinho Tom Cruise

Melia Azedarach L. disse...

Concordo com o Mandoki, a descrição do Henrique é perfeita, a risadinha colgate merece um socão...Estou de TPM hoje (modo malvada on).
Enfim, você sabe como me identifico com tudo que vc escreve, quero que você faça um perfil no recanto, a sua escrita prende querida, só isso, me prende.

Um beijão e ótimo fds!

a má estrela disse...

rsrs engraçado mesmo,inevitavel pra todo mundo pensar que esse henrique é almofadinha até no nome...rs

(desculpem os outros henriques)

filósofo de araque disse...

Você viu o que fez? Até ler que Henrique é nome de almofadinha li aqui. Mas não tem problema enquanto os cães ladram a caravana passa, com direito a encontro com a sogra e beijo na boca.

La Critique disse...

nosssaa

adorando estou... mas concordo com o léo mandoki,jr, o Henrique é meio sem sal, perfeitinho e romantico demais...

Peço pra vc: nao se transforme em Arnaldo Jabor e deixe suas coisas romaticas demais....

(o livro de Arnaldo Jabor Eu sei que vou te amar te mela até a 10ª pág)

to adorando!!!


bjss

(pq comentou lá no transtorna?? ele nem existe mais pra mim)


bjss

Bill Falcão disse...

Hehehe!!! É cada uma!!
Passando rapidinho, Dani, pois a barra continua pesada por aqui haha!!
Ontem, enquanto jantava, vi um especial sobre Cartola na TV, uma beleza, e me lembrei de você na hora!
Preciso arrumar um tempinho pra fazer um post decente sobre o centenário do mestre!
E um bjooooooooo!!!!!!!!!!!!