A verdade dividida

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A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

P.S.: Dessa vez vou me abster de quaisquer comentários. Por quê? Por serem exatamente essas as palavras que andaram povoando minha cabeça de vento por todo o dia, sem acréscimos, sem correções. Simples assim.

4 comentários:

Léo Mandoki, Jr. disse...

o que foi que te ficou povoando a cabeça o dia todo? a VERDADE?
sabe..no domínio da fenomenologia e da teoria do conhecimento, a verdade é um enunciado que não admite um outro mais próximo do objeto. Ou seja, é a maior aproximação possível que o sujeito faz do objeto.
Por exemplo:
Éstá chovendo, e uma pessoa diz a outra:
A: Se sairmos sem guarda-chuva vamos nos molhar. A chuva molha (enunciado)
e B diz:
B: Não. A chuva não molha.

Entre os enunciados de A e B, a verdade provavelmente estará mais próxima de A. É quando o sujeito mais se aproximou do objeto, e conseguiu elaborar um enunciado verdadeiro.
Mas isso é relativamente simples com os fenômenos físicos. O problema que se põe é com os fenômenos não-físicos.
Por exemplo:
A: A morte liberta o espírito.
e B diz:
B: A morte mata o espírito.

Qual dos dois enunciados está mais próximo da verdade? Nem um nem outro, pq não são enunciados sujeitos ao empirismo. Por isso, a verdade acaba se tornando subjetiva. E aqui é que reside o segredo:
Admitindo que a grande parte das nossas inquietudes são de natureza subjetiva, a busca das suas verdades é uma tarefa impossível. Por quê? porque o subjetivismo está em constante mudança, fazendo com que a sua verdade subjacente tbm esteja. Isso acaba nos remetendo para outro domínio. Qual?
apaziguamento. Não devemos estar à procura de verdades. Devemos encontrar é a paz de espírito. Resiliência, estoicismo, tolerância...enfim tudo isso são conceitos que substituem a VERDADE.

Um beijo!!!

Ana Karenina disse...

pois é, cada um acredita na verdade que lhe convêm minha cara, cada um busca a verdade que parece mais bela e confortável para a existência e quando ela não nos agrada estamos sempre a renegá-la ou não admiti-la.

que povoe estes e outros pensamentos em ti, as reflexões internas são as que amadurecem e nos traz mais o poder da consciência.

abraços saudosos!

a má estrela disse...

Verdade?Mentira? É realmente a pauta em questão aqui?

Bem,que seja então.A VERDADE(rs)é que as coisas estão muito alem do nosso jugo.Que ridicula pretensão humana achar que as coisas SÃO boas ou ruins.Elas simplesmente existem,alem do bem e do mal...rs

A maior verdade que posso conceber é a certeza que há dentro de alguem.A mesma certeza pode haver entre mais pessoa em conjunto,mas isso não é mais verdade,mas outra coisa:afinidade.

Meias pessoas não tem certeza,tem a eterna duvida por não se sentirem inteiras...rs

(aff,que papo mais cabeça pra um dia de sol e de preguiça...prefiro deixar pra lembrar que sou cético,e por vezes contraditório mais tarde,antes que alguem cite platão ou direito romano,pode ser? rs)

A VERDADE(hehe) mesmo é que eu queria poder por a rede na varanda,tomar uma vodkinha sem esquentar com PN(ohhhh vidão!) hehe

bjin querida,te adoro

filósofo de araque disse...

Eu estou enganado ou a discussão aqui não é a sua busca pelas SUAS próprias verdades? Mais uma vez vou discordar dos meu antecessores. Os pensamentos que povoaram sua cabeça - que não é de vento - não giraram em torno do que é ou não é verdade pra você, mas sim em torno de quem é afinal o dono da verdade?. Todos querem estar certos e mais querem impor essa sua certeza aos que os rodeiam. Uns aceitam sem discutir, outros nem percebem que estão sendo subjugados. E você, minha cara, como se comporta diante dessa eterna luta por poder? (sim, no final das contas, a discussão aqui é poder, ter a verdade é ter o poder) Você reflete, às vezes fica angustiada, quer, como todo mundo, lutar pelas suas meias verdades, mas quer também respeitar as meias verdades alheias. Querida, você quer tantas coisas, às vezes, coisas inconciliáveis. Quem quer muito fatalmente se decepcionará em algumas situações. Mas a ousadia de querer mais do que móveis combinantes entre si numa sala de estar é o que te define, te faz especial, te faz ser quem você é. Portanto, não se preocupe se sua meia verdade não coincidir com a meia verdade alheia e principalmente não permita que alguém te convença de que é errado ser quem você é. Obs: Hoje eu honrei o apelido que você me deu. Obs2: Acabei de anotar naquele meu manual - Ela gosta de Drummond.