Encontros

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Quando criança, eu fechava os olhos, levantava as mãos em direção ao céu e tinha a nítida sensação de que podia voar. Chegava a pressentir o vento acariciando meu rosto, bagunçando meu cabelo, correndo entre minhas pernas.

Nessas noites de magia, depois de vagar sem rumo entre estrelas brilhantes, eu recostava em montinhos de nuvem e me abandonava por ali, observando a lenta transformação da noite em dia. Esses eram meus jogos preferidos. Os jogos de cores que antecediam o amanhecer.

Quando criança, eu compunha minhas próprias baladas. Adotava dialetos que os outros não podiam decifrar. Mas, eu não estava só. Dividia doces baladas e estranhos dialetos com meu amigo invisível. Alguém que os olhos não viam, mas o coração sim. As mãos não tocavam, mas as palavras sim.

Uma relação que simplesmente existia, sem precisar se concretizar. Um amigo cuja existência todos desconheciam. Revelá-lo representaria reduzi-lo em termos e limites que os outros pudessem compreender. Trazê-lo ao mundo real seria destruir o caminho até o único lugar que eu poderia chamar de casa.

Quando criança, eu não precisava de motivos pro sentir. Entendia que sorrisos e lágrimas não resultavam de processos racionais, lógicos. Eu apenas vivia de olhos bem abertos. Prontos pra chorar e pra sorrir.

Naquela época, eu sorria com os olhos. Eles também podiam falar, gritar, prometer. Olhos, boca, ouvidos, mãos, pernas. Eu desconhecia suas funções previamente estabelecidas. Só o que queria era explorar todas as possibilidades de cada parte de um corpo dentro do qual, muitas vezes, eu sentia não caber.

Quando criança, eu tinha medo de escuro, de barata e trovoada, mas não temia as pessoas, nem a mim mesma. Não tinha medo de amar. Não tinha medo de ser amada.

Por tudo isso e um pouco mais, é que agora eu abro mão de todas as declarações prontas de amor e de qualquer desses clichês românticos, e digo com toda pureza que me restou depois de tantos anos dessa vida errante num mundo que se recusa a parar de girar. Não sei se te amo. Se te amo, não sei até quando. O que sei - e essa é a coisa mais singela e bela que eu poderia sentir por alguém - é que, ao encontrar você, sinto que, depois de tantos anos, reencontrei a mim mesma... Quando criança.

6 comentários:

tossan disse...

Clichês é uma coisa muito desagradável! As vezes sou
obrigado a comentar por educação e por agradecimento blogs incríveis de mocinhas (nem tão mocinhas) ah deixa pra lá.
Vc pode ficar tranqüila que a sua infância foi mais do que normal. Bj

Léo Mandoki, Jr. disse...

que pena não ser eu nesse teu caminho que te conduz diretamente a sua infancia
nem sequer sabia que vc era do RJ
mas só em ter pensado em mim ao passar pelo porto, perto da praça Mauá, já é algo que me toca e me emociona.
Nem sei seu nome! ehehehhehe

Melia Azedarach L. disse...

Não sei por que, mas começei a ler esse seu post ontem, terminei nesse instante, quis dividir a leitura e os pensamentos, quis não pensar em como as coisas andam ultimamente nesse meu "desmundo".
Por que as vezes aqui dentro reina uma fúria que não me deixa gritar e é um silêncio que corta a alma, o silêncio dele e o meu, unidos, complacentes de nossos sentimentos.
Acho que cresci e me perdi de mim.
Saudade não mata, amar não acaba por acabar, é simples é tudo um ciclo, queria aquela realidade infantil de ter a certeza que não se morre de sentimentos que uma hora ou outra irão terminar tão rápido como surgiram.
Quero essa felicidade barata que antes valia dez centavos em qualquer padaria e agora procuro em outro corpo.

É só mais um dia daqueles!
Beijos querida que me faz pensar...e pensar.

Léo Mandoki, Jr. disse...

hummm que nome bonito hein....
e isso é nome para ter como futuro marido um padeiro?? seus pais tiveram tanto cuidado em te escolher esse nome, e vc agora escolhe um padeiro???

Ana Karenina disse...

de repente a magia acaba quando deixamos de ser crianças, deixamos de ser puros, deixamos de dizer as verdades com medo de ferir o outro, aceitamos o que não queremos aceitar.

as crianças pelo menos quando querem você vê a certeza nos olhos delas e elas recusam sem medo o que não gostam e o que não querem e nem adianta forçar.

a vida podia ser um eterno brincar e um eterno não levar a sério nada e aceitar o que agente quiser.

a vida podia ser uma eterna brincadeira e nós eternas crianças!

abraços saudosos!

Léo Mandoki, Jr. disse...

ta vendo só??? tdo esta jogando a meu favor!!
Mandoki tem qq coisa que te cativa, fala igual ao seu pai (a teoria freudiana da psicanalise diz que a mulher procura no homem sempre alguma coisa do pai dela) e ainda por cima é carioca!!!
PUTZ eu sou o genro que qq pai e mãe pediu a Deus!!!
beijossss