Epitáfio

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Ele nasceu em uma manhã ensolarada. Chegou ao mundo forte, sadio, chorando bem alto, como quem avisa a todos a que veio. Foi uma criança cheia de energia. Os joelhos estavam sempre ralados e os pés do moleque tinham a cor escura do doce que lambuzava a boca nas festas juninas.

Na juventude, era tão popular com as garotas quanto com os meninos que o olhavam com admiração e certo despeito. Começou a trabalhar cedo para ajudar nas despesas de casa, mas nem por isso deixou de lado os estudos. Casou com a mulher certa e juntos construíram uma família modelo. Modelo de conduta, postura, viver.

Sempre agia como um homem de verdade deveria agir. Sabia exatamente o que todos esperavam dele e se orgulhava de corresponder a tais expectativas. Tudo ia muito bem até aquele momento.

No consultório, entre 4 paredes insuportavelmente brancas, de repente percebeu-se totalmente isolado do resto do mundo. Uma muralha intransponível. Só o que via diante de si eram os olhos miúdos e plácidos daquele médico que parecia lhe perscrutar a alma enquanto esperava a resposta pra pergunta que acabara de fazer:

- Onde dói ???

Acontece que apartado da opinião e expectativas alheias, ele estava irremediavelmente apartado de si mesmo. Sentia-se perdido, experimentava uma sensação de total solidão, ausência dele próprio. Pela primeira vez, não existia a resposta adequada, aceita, correta. O que, pra ele, significava não haver qualquer resposta.

Mas o médico, pacientemente, aguardava. Os olhos miúdos agora pareciam ainda mais investigativos. Lentamente, as paredes começaram a se movimentar, vinham a seu encontro. Ele tentou se levantar e sair daquela situação surreal. Não conseguiu mover um único músculo. Seu destino já estava selado.

O homem perfeito morreu ali. Espremido entre 4 paredes insuportavelmente brancas que lhe serviram de túmulo. E aquele fim absurdo não foi apenas a sua morte, mas a cabal declaração de que ele nunca havia existido. Como não poderia deixar de ser, seu epitáfio não foi a descrição de sua vida (anulada), mas o instrumento de sua morte. Seu epitáfio foi a simples e fatal pergunta do médico de olhos miúdos e plácidos:

- Onde dói ???

15 comentários:

Barbara disse...

Tenho medo de perguntas e mais ainda de respostas de médicos, digo , da maioria deles.

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Arranham, gritam, enlouquecem e voltam! hahaha

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Viveu certo e morreu mais certo ainda!

até mais.

Jota Cê

[M]. Atahualpa disse...

tens todo o meu apoio em usar o tema amizade homem/mulher, desejos à parte etc como tema.

gostaria de conversar mais ctg, parecer valer a pena... qualquer coisa... marcos.cartagenes@hotmail.com (meu msn)

paz aê

paula barros disse...

A opinião e a expectativa dos outros sempre interferem em nossas vidas. A quem pregue não ligar, não se importar, que faz o que quer...mas no fundo no fundo, vivemos ligados por fios invisíveis, de condutas e comportamentos, para sermos aceitos.

E de repente, nos damos conta, que estamos perdidos de nós mesmos.

Basta ouvir as vozes da nossa consciência, de quem são? quantos estão dentro de nós que não somos nós? Quem nos comanda?

beijos no seu coração.

Kari disse...

E qual será o nosso epitáfio?

Ótimo conto!
Beijos

Stéphanie Lopes disse...

Ooi
td bem ?

Adorei seu blog
mt encantador seu poster *---*

Posso Te seguir ?

Beijos

Stéphanie Lopes disse...

Ooi
td bem ?

Adorei seu blog
mt encantador seu poster *---*

Posso Te seguir ?

Beijos

tossan® disse...

Não deu tempo pra ele a pergunta o matou. Morte rápida não é. Não sei o que seria melhor pra mim. Belo texto!

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Néctar da Flor faz a primeira Blogagem Coletiva onde o tema é: Um conto de amor com cheiro de Néctar da Flor. É com muita felicidade que convidamos todos a conhecer um mundo encantado que há dentro de cada um. Conte um conto, seja personagem da sua história e sinta cada palavra escrita na hora que for contar.


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Mário Liz disse...

DIAgnóstico. O que há de "dia" nas ranhuras dessa palavra ? Há "dia" se for um diagnóstico negativo, no sentido positivo da palavra. É quando o "NÃO" se torna a melhor das drogas e o mais duradouro dos orgasmos.

Sabe, eu posso estar enlouquecendo ... mas, ao ler e reler sua postagem, tive duas impressões:

A primeira, mais clara: de um ente querido, ou amigo, ou personagem subtamente colocado às caras e claras com a morte. Alguém que tanto edificou e mal teve tempo para se despedir.

Minha segunda impressão, foi de uma vida abortada. Alguém que tanto seria, mas não foi.

Em meados do ano 2000, escrevi um poemazinho de 3 versos acerca da maldição de não-ser:

"aqui jaz
o que pelo medo
não se fez "

E mesmo em vida, cometemos inúmeros abortos e morremos, corroídos por temores (na maioria das vezes com razão de ser, mas facilmente quebráveis).

A felicidade bate à nossas portas e um TOC-TOC não basta. A incerteza nos pede que ela a arrombe ou muitas vezes, que destrua até as paredes.

E quanto mais o tempo segue, mais a felicidade se mostra sorrateira.

No princípio, de fato ela estoura paredes.

Depois, arromba portas.

Adiante, espera que você a convide para um chá.

E ao final, entra "semi-invisível" (e pelas frestas!). Deveras: é muito difícil vivê-la quando ela se mostra assim.

É não há imagem melhor a ilustrá-la: sempre as correspodências mais importantes se encolhem em meio às sem valor.

Por isso minha vontade é de me encolher o bastante (para morar em minha caixa de correio).



bjão. lindo texto.

Leo Mandoki, Jr. disse...

meio assustador essa coisa de morrer esprimido entre paredes né??...mas gostei...gosto de cenas surreais
beijocas

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

Dani,

Pode ser texto antigo, sim. Qualquer coisa que vem de ti é com amor, é com zelo, é com carinho... adoro e adoro e adoro você. Fico muito feliz que está perto da gente, compartilhando essa alegria.

Um beijo bem grandão, menina linda do meu coração.

Rebeca


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~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

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Kaká Bullon disse...

E muita gente vive em epitáfio e nem percebe, jaz e continua respirando...

"Melhor morrer do que perder a vida!" rs

Beijos querida

Ana Clara Otoni disse...

Arranjar alguém com defeitos físicos ou visíveis pode ser um pedido fácil para qualquer garçom. Quero ver eles decifrarem até aqueles defeitos ocultos dos mais galãs da boate ou das mais belas dos bares.