Recados

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Sou uma parede sem quadros, um mural de recados. Estou aqui, exposta, aberta, disposta. Receptiva. Ofereço-me nua, num convite explícito. Quero que venha, marque-me com cada uma de suas impressões. Escreva um bilhete, cole em mim antes de partir. Deixe impressa em minha alma a parte de ti que achar conveniente compartilhar. Se quiser, raspe minha superfície lisa, guarde numa caixinha de música e leve contigo. Quando abri-la, dançarei junto com a bailarina, voarei com a melodia. Estarei ao seu lado. Dança, música e presença. E você, junto com todos os outros, estará comigo, colado a mim, através das palavras que deixou gravadas antes de partir.

P.S.: Há algum tempo atrás vi essa foto no blog da Kaká (http://kakabullon.blogspot.com/) e simplesmente fiquei apaixonada. Pedi pra copiar e ela que, além de talentosa (como fotógrafa e blogueira), é generosa, de pronto aceitou. Guardei a foto por muito tempo, esperando que as palavras surgissem pra acompanhá-la. Hoje elas (as palavras) apareceram sem aviso prévio e aqui estão. Palavras e imagem. Espero que vc goste, querida Kaká.

Breve adeus

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Hoje erguerei um brinde à morte,
a tudo o que fomos ontem,
a velhas crenças, a antigos hábitos.
Hoje beberemos a nossos cadáveres decompostos.
O adubo que fertilizará a terra firme de um outro caminho.
Hoje brindaremos às lágrimas de decepção, ódio, frustração.
A água que regará a semente de um novo tempo
e o fará germinar.
Hoje beberemos à dor mais profunda
que fez cair por terra cada verdade absoluta.
A luz que nos fortalecerá as entranhas
e nos trará a clareza de uma bela manhã.
Hoje erguerei um brinde à morte,
luz, água e adubo,
à morte que fará a vida novamente florescer.

Impressões de um Nowhere Man

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* Gritou 'Independência ou Morte', e se jogou na frente do trem. Na estação Ipiranga.

* Era mais uma daquelas verdades, mas de tão absurda que parecia, preferiu mentir.

* Correndo, ainda alcançou o ônibus. Blasfemou quando viu que esquecera a carteira, mas sorriu quando anunciaram o assalto.

* Era o momento mais angustiante da sua vida, nunca sofrera tanto. Noites seguidas de insônia pelo medo de dormir e não conseguir mais sonhar.

* Quem somos? Onde estamos? Para onde vamos? O que fazer em caso de despressurização? O discurso da comissária de vôo parecia muito filosófico.

* Os gemidos de prazer aumentavam, tal qual sua impaciência. Não tanto em relação ao barulho dos vizinhos, mas sim quanto à esposa, dormindo ao lado.

* Viciado em literatura, todo dia retirava um livro novo na biblioteca para satisfazer seu vício. Revendia no sebo, para comprar mais drogas.

* Estava numa situação tão complicada que sua melhor opção era se cagar. E não hesitou.

* Tinha pontos de vista e opiniões bem definidas sobre quase tudo, mas não fazia questão de expô-los a ninguém. Vivia feliz assim, e bastava.

P.S.: Esse post foi retirado de uma série de microcontos escrita pelo Eslley (
http://therubbersoul.blogspot.com/). Não é à toa que pedi autorização pra publicá-los no Impressões. Mesmo antes do Eslley criar seu blog, eu já sabia que iria gostar de algo escrito por ele. A sua visão crítica, seu humor ácido e sua forma aberta e direta de se expressar, não podiam dar em nada menos do que textos que realmente me fazem pensar (e rir, é claro).

Sentimental X Factual

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Outro dia eu estava lendo uma crítica à situação política do país, uma entre as milhões que transitam pela net. Mas essa, em especial, tocava numa questão na qual eu ainda não havia pensado. O autor do texto, ao proclamar a tão falada passividade do povo brasileiro diante dos absurdos recorrentes na politicagem nacional, mencionou a omissão de nossos artistas. Ele destacou o silêncio de pessoas como Chico Buarque, antes exilado por sua arte “subversiva”, por continuar se expressando ainda que em códigos, apesar da (brutal) repressão a tudo o que fosse de encontro às ideias ditatoriais da época. Eu li esse texto há dias, mas esse comentário em especial não me saiu da cabeça.

O autor criticou a omissão dos artistas. Já eu prefiro evitar julgamentos de valor. Não me sinto no direito de condenar alguém por não representar os anseios ou a indignação de todo um país, mesmo que esse alguém seja famoso e tenha um certo poder de mobilização. Mas costumo pensar nos motivos que levaram as pessoas a fazer ou deixar de fazer determinadas coisas, isso me ajuda a entender meus próprios motivos. Então, depois que li o mencionado texto, uma pergunta ficou: O que calou o Chico?

Como é de costume, em um momento em que eu nem estava pensando nesse assunto, ocorreu-me uma possibilidade.

A arte é uma expressão genuína de sentimentos. O artista pode se expressar sobre qualquer coisa, relações afetivas, fatos cotidianos, política, mas é preciso que o assunto mexa com suas emoções, toque em sua alma, caso contrário, não será arte, será uma outra forma de comunicação. Portanto, mobilizar as pessoas, chamar a sua atenção pra algum fato relevante pode ser um efeito da arte, não sua causa.

Enfim, de repente me veio à cabeça que, na época da ditadura, os artistas queriam utilizar sua arte com liberdade, apenas queriam expressar as suas emoções sem limites. Como eram impedidos, a própria censura acabava gerando outras emoções, mais fortes, mais inflamadas, porque nada machuca mais um homem do que ver tolhida sua liberdade de sentir e de expressar seu sentimento. Assim, não a ditadura, mas as sensações dos artistas diante de tudo que lhe tomaram acabaram sendo a temática principal daquela época.

É isso. Eu me perguntei o que (ou quem) calou os artistas e a resposta que encontrei foi a negação da premissa da qual parti quando formulei o questionamento. Ninguém calou Chico, na verdade, eles fizeram exatamente o contrário. Quando se deixou de censurar a expressão de sentimentos, os artistas obtiveram o que almejavam, deixaram em segundo plano os fatos e focaram no que lhes é mais precioso.

Quanto aos fatos, inclusive o retorno de uma certa censura, eles continuam tão absurdos e relevantes como antes e devem ser proclamados, inclusive através da arte. Mas sinceramente acredito que não se pode cobrar que alguém desempenhe um papel o qual ele nunca se comprometeu a desempenhar.