terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Conflito de pessoas

- Eu não entendo você.

- Nem eu.

- Você não me entende?

- Eu não me entendo.

- E isso não te angustia?

- Não tanto quanto a você.

- Não é importante pra você entender a si mesma?

- É importante, não urgente. Já fico satisfeita de entender minhas reações, minhas atitudes. Tentar entender uma pessoa é como interpretar um texto. Ainda que essa pessoa seja você mesma. Você pode até ter a sensação de que captou a mensagem. Mas certeza nunca terá. Pessoas não são equações, não podem ser resolvidas.

- Então suas atitudes você entende?

- Às vezes demoro bastante... rs.

- Você entende por que foi embora, por que me deixou falando sozinho?

- Porque concordo contigo. Você não me entende.

- Mas você também não se entende. Foge de si mesma?

- Se fujo de mim mesma? Algumas vezes.

- E como você faz pra te trazer de volta? Como eu faço pra te trazer de volta?

- Aí é que está. Não tente me fazer voltar, me fazer ir. Não tente entender. Essas coisas acontecem naturalmente. Ou não.

- Eu não vou desistir de você.

- Nem eu.

- Não vai desistir de mim?

- Não vou desistir de mim.

Receita de ano novo



"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond Andrade

P.S.: O que posso desejar pra 2009? Paz no mundo? Felicidade geral da nação? Saúde? Prosperidade? Não... Eu acredito que nossa maior batalha é travada dentro de nós mesmos. Acredito também que nessa batalha não há vencedores e vencidos, apenas efeitos... bons... ruins... Portanto, o que tenho a desejar é que cada um de nós lute, sobreviva e... viva... viva 2009 !!!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Questão de escolha

- Tia, o Papai Noel existe?

- Você acredita?

- Meus amigos da escola dizem que ele não existe.

- E você?

- Não tenho certeza. Sou criança. Por isso estou perguntando pra você, que é adulta.

- Aí é que você se engana. Provavelmente quando tiver a minha idade você terá muito menos certezas do que tem hoje.

- Mas quanto mais a gente cresce, mais aprende coisas.

- Pois eu acho que o aprendizado tem muito mais a ver com a capacidade de duvidar do que com certezas absolutas.

- Tia, você está complicando tudo.

- Está vendo o que falei? Adultos são essencialmente complicados.

- E o Papai Noel, existe?

- Você acredita?

- Eu sinto que ele existe, mas todo mundo diz que não existe.

- Ah, querido, hoje é o Papai Noel, amanhã o amor, depois a eternidade. Durante sua vida, por diversas vezes, as pessoas vão te dizer que coisas que você sente são só ilusão. O grande lance é decidir quem vai determinar em que você acredita.

- Eu vou determinar.

- Então...

- Papai Noel existe. O MEU Papai Noel existe.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A bailarina e o equilibrista



Ela surgiu assim de repente tal qual divindade
Tive vontade de me jogar aos seus pés
Adorá-la como deusa
Oferecer-lhe um manto, meu pranto, um altar
Mas nada disso a apeteceria
Era a feiticeira do movimento
Ela queria bailar

Não me restou outra opção
Levantei-me e segui a aparição
Em seu ritmo frenético, intenso, insano
Ela continuou a dançar
Trazia em uma das mãos a vara de condão
O chão começou a riscar

Meu destino foi selado naquele instante
A linha trêmula nascida do bailar da divina criatura
Seria o único caminho a trilhar dali em diante
Seguindo seus passos, ainda sem jeito
Expurguei toda dor que me ardia no peito
E de vazio, melancólico, malabarista
Tornei-me ébrio, alucinado, equilibrista

P.S.: Essa cena foi uma das melhores coisas que vi na TV nos últimos anos. Ter visto essa metáfora em movimento me proporcionou 3 coisas dignas de nota: primeiro fiquei ali parada sentindo como certas sutilezas tocam profundamente em mim; depois me peguei lembrando o encantamente que senti ao conhecer a obra de Machado de Assis, especialmente as personagens femininas; por fim, pude lembrar que o "equilíbrio" não necessariamente encontra-se num porto-seguro, ele pode estar contido numa linha irregular nascida de uma dança insana, oscilante, livre.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Será mesmo preciso esperar a próxima vida?

A minha próxima vida
Woody Allen

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.

Começar morto para despachar logo esse assunto.

Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades.

Aí viro um bebê inocente até nascer.

Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia, e depois

- Voilà! - desapareço num orgasmo.

P.S.: Ao falar sobre si mesmo Woody Allen costuma repetir: “As pessoas sempre se enganam em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual (porque uso óculos) e que sou um artista (porque meus filmes sempre perdem dinheiro).”

Eu, pessoalmente, adoro essa frase. Por quê? Não tenho cara de intelectual, meus filmes não perdem dinheiro, à medida que eles não existem. Mas, que as aparências enganam, enganam... rs.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Amor maltrapilho



A tarde estava quente. Uma preguiça a consumia. Mas ficar trancada em casa também não estava nos seus planos. Abriu a janela e ficou ali, brincando de descobrir animais, pessoas e coisas nas nuvens brancas que ornavam o céu azul. Encontrou um cachorro com cabeça de papagaio. Abriu um largo sorriso enquanto seus olhos passeavam pela rua em busca de outra ocupação. Encontrou.

Ela o encontrou. Ele vinha caminhando, passos lentos, cabeça baixa, como se analisasse o caminho antes de cada passo. Ela também analisava. Seu objeto de interesse era ele, seus gestos, suas roupas, seu semblante.

De repente, ele levantou o rosto e a encarou. Pêga de surpresa, ela instantaneamente corou, mas não baixou o rosto. Olhou-o bem nos olhos e sorriu. Agora foi ele que se surpreendeu, ensaiou um arremedo de sorriso, o único de que ainda era capaz. Continuou a andar, mas os passos ficaram ainda mais lentos. Os olhos, por um motivo que ele desconhecia, não queriam se despregar daquela janela. Uma janela para a alma.

Os olhos. Ela nunca havia visto um olhar tão cansado. Nos olhos dele ela podia ver o tempo. Nos olhos dele ela podia ver o mundo. Havia muita coisa além dos muros de sua casa, das brincadeiras de criança.

Criança. Ela ainda era uma menina. A pureza que havia naqueles olhos o fizeram perceber que ele nunca havia sido realmente criança. Ele nascera cansado, marcado. Justamente por isso, ele gostava ainda mais dela. Cada detalhe, seu rosto redondo e luminoso feito lua cheia, suas mãos miúdas. Um aceno.

Ele continuava andando, iria embora. Talvez ela nunca mais o visse. Sem disfarçar a frustração que sentia, ela acenou. Ele estava escapando e ela sabia que havia tanto ainda a descobrir. Ela amava descobertas, surpresas. Amava.

Amor. Ele buscou pela última vez aquele olhar antes de virar a esquina. Ela ainda estava lá. O aceno parado no ar. Ele arriscou mais um sorriso meio torto enquanto pensava naquela menina desconhecida. Ela era apenas uma criança, mas o que ela o fez sentir foi o sentimento mais próximo de amor que ele havia conhecido.

Conhecido. Ela não sabia o nome daquele homem de roupas rasgadas e sujas. Não sabia onde era sua casa, desconfiava até de que ele não a possuía. Provavelmente nunca mais o veria. Mas ela o conhecia. Ela não o esqueceria.

Ele não esqueceria. Naquela tarde ensolarada, ela lhe dera mais coisas a lembrar do que o resto do mundo durante toda uma vida. Um olhar, um sorriso, o primeiro amor.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Smile



Já vi esse vídeo uma dezena de vezes. As reações são as mais diversas. Sorrisos, lágrimas, uma certa nostalgia, uma pueril alegria. Tudo depende das minhas constantes oscilações. Mas algo repetiu-se todas as vezes. Os vídeos de Chaplin me fazem sentir uma profunda ternura. As letras de Chaplin me trazem uma sensação de extrema familiaridade.

P.S.: Smile é uma de minhas músicas favoritas. Especialmente na voz de Madeleine Peyroux.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Que vida haverá depois que o ponteiro mudar de posição?

Chega, fim do dia. Já estava trabalhando desde às 11 da manhã, não parara nem pro almoço. Estava exausta. Desligou o computador. Cadê a chave do carro? Alguém bateu na porta. O chefe. Mau sinal. Provavelmente, o dia de trabalho ainda se estenderia por mais algumas horas. Engano. Dessa vez a notícia era ótima. Seria promovida. Decisão por unanimidade entre os sócios do escritório. Ganharia quase o dobro e uma sala com vista pro parque.

A promoção, somada ao casamento que se aproximava, era motivo suficiente para uma grande comemoração. Pessoas foram ligando pra pessoas e, de repente, o happy hour da sexta havia se transformado numa grande festa, acabava de ganhar uma despedida de solteira.

- Alô.

- Querido, estou ligando pra desmarcar nosso jantar. Fui promovida. Depois te conto os detalhes. O pessoal aqui do escritório vai aproveitar a deixa e fazer uma despedida de solteira.

- E eu não vou ser convidado pra comemorar sua promoção?

- Você é o noivo. Não pode ir a minha despedida de solteira.

- Que bobagem, querida. Coisa mais provinciana.

- Comemoramos minha promoção de outra forma, só nós dois, ok?

- Hummm, agora sim, o argumento foi convincente o bastante. Amanhã?

- Amanhã.

- Espera um pouco. Casamos na semana que vem, você vai até ter uma despedida de solteira. Mas você não disse sim.

- Como assim?

- Eu te pedi em casamento, você pediu um tempo e semanas depois falou que aceitava minha proposta. Nunca disse "Sim, eu caso."

- E depois eu que sou provinciana... rs.

- Eu sou um homem romântico, é isso.

- Façamos o seguinte, amanhã você faz denovo o pedido e eu respondo como manda o figurino, está certo?

- Combinado.

- Preciso ir. Até amanhã, querido.

- Amo você.

- Eu também.

O lugar escolhido foi uma boate próxima a sua casa. Ótima escolha, assim deu tempo de passar em casa, tomar um banho e deixar o carro. Seria mesmo mais prudente ir de táxi.

Chegou no lugar combinado, já tinha ido lá algumas vezes. No primeiro piso havia um bar onde o pessoal dos escritórios próximos ia pro happy hour. Estava lotado, muitas pessoas conhecidas. Como haviam avisado tanta gente tão rápido? Não importa. Estavam todos ali, ela estava ali, por um único motivo: comemorar.

Algumas horas e muitas margueritas depois, ela começou a se sentir tonta, sufocada. À essa altura, as vozes já estavam muito altas, a pouca luz a fazia sentir ainda mais desorientada, o ouvido "zumbia", a cabeça girava. Precisava sair dali. Precisava respirar.

O ar frio do início da madrugada foi como um abraço aberto que vai se distanciando, te fazendo caminhar em busca de um pouco de alento. Quando se deu conta, já estava há uns quinhentos metros da boate. Era perigoso andar sozinha a uma hora daquelas. O mais certo era voltar. Continuou caminhando. De repente, uma sensação de liberdade a invadiu. Ela se sentia estranhamente feliz. Sorriu. A primeira lágrima rolou enquanto seus lábios ainda estavam abertos. Sentiu o gosto da lágrima.

Por um segundo, teve um lampejo de lucidez. Aquela lucidez brutal, implacável, reveladora. Uma lucidez que só os loucos, as crianças e os bêbados podem alcançar. As lágrimas agora rolavam feito torrente. Ela estava sozinha no meio da rua, era tarde, estar ali era perigoso e solitário. Ainda assim se sentia inteira, em casa, à vontade, como há muito tempo não se sentia. Era duro, cruel até. Mas aquele era mesmo o único lar que conhecera. O incerto, o perigo, a solidão.

A verdade é que aquela coisa toda de preparativos de casamento, escolha de vestido, padrinhos, enfeites, aquilo não tinha nada a ver com ela. Viver tudo aquilo era como sonhar. Pode até ser agradável, quase real, mas, bem no fundo, você sabe que é só fantasia, sabe que uma hora ou outra você vai acordar. Ela havia acabado de acordar. Um som. O despertador? Não, uma buzina.

- Ei, não acha perigoso andar sozinha a essa hora?

- É. Eu poderia de repente dar de cara com um desconhecido com intenções escusas. Espera, eu acabo de dar de cara com um desconhecido com intenções escusas. O que devo fazer, correr?

- Muito engraçada. Mas sua cara não está das melhores. Por que você está chorando?

- Primeiro achei que você podia ser um tarado ou ladrão. Agora já estou desconfiando de que você é da polícia.

- Então pode confiar em mim e me deixar te dar uma carona.

- Muito pelo contrário. Você não lê jornal?

- Nem você pelo visto, senão não estaria aqui sozinha.

- E você? Não tem medo? Eu também poderia ser uma "maníaca sexual". Ou então estar me fingindo de pobre coitada perdida só pra atrair e assaltar candidatos a príncipe encantado.

- Bom, a idéia de você ser uma maníaca sexual não deixa de ser bem interessante. Quanto a me roubar, aposto que o que tenho na carteira não paga nem o lenço que você usa.

- Você é realmente divertido, mas preciso ir.

- Espera. Não vai. Embora você não queira admitir, eu sei que está precisando de ajuda. Entra, a gente conversa e eu te deixo em casa.

Ela desviou o olhar. Pôde ver mais adiante o portão de seu prédio. Agora realmente se sentia diante de duas opções. A escolha não seria entre entrar naquele carro ou buscar o refúgio de casa. Naquele momento, ela precisava decidir entre continuar vivendo à sua maneira ou se enquadrar em todas aquelas regras e limites que teria que aceitar pra compartilhar sua vida com outra pessoa. Enfim, ela teria que responder agora o pedido feito há alguns meses atrás: - Casa comigo?

Literalmente, a hora era decisiva. A hora. Enquanto com a mão direita limpava as marcas deixadas pelas lágrimas em seu rosto, olhou o relógio no pulso esquerdo. 23:44 hs.

P.S.: Esse texto foi escrito a partir de um desafio proposto por Léo Mandoki Jr. (http://leomandoki.blogspot.com/2008/12/quantas-vidas-cabem-antes-do-ponteiro.html).


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um ano

"Toda estréia é acompanhada por alvoroço e excitação. Pelo menos comigo sempre foi assim. O primeiro dia na escola, na faculdade, no trabalho. O primeiro olhar, a primeira palavra, o primeiro beijo. Com o blog não poderia ser diferente, até porque falar sobre suas impressões não será tarefa fácil para alguém que nunca sentiu muito prazer em falar de si mesma. Mas também, quem disse que gosto mais das tarefas fáceis? Por isso, aqui vão minhas impressões, contraditórias, confusas, obscuras, mas, acima de tudo, puras. Espero que alguém se divirta, mesmo que esse alguém seja eu mesma." (1º de dezembro de 2007 - post de estréia)

"Não uso o blog pra falar de mim mesma, uso cada post pra falar comigo mesma e com as pessoas que passam por aqui." (1º de dezembro de 2008 - conversa com um amigo)

É isso. Um ano passou e ainda estou por aqui, publicando minhas impressões que eram puras e agora são digitais. O layout mudei várias vezes, os temas dos posts variaram da filosofia mais barata até... a filosofia mais barata... rs.

Uma coisa não mudou, talvez nunca mudará.

"Há vida, há sons, há imagens, há até a escuridão. Mas, em primeiro plano, PALAVRAS..." (apresentação do blog)

Palavras... amigas, cúmplices, libertadoras, algozes, senhoras, esmagadoras... COMPANHEIRAS de todas as horas, até as de silêncio, de cansaço, de nada.

Só que agora ganhei outros companheiros, que vêm, que vão, que chegam, que voltam. Comentários que completam os meus textos e que, muitas vezes, vão além deles. Comentários que geram novos posts que, por sua vez, trazem outros comentários, nessa ciranda de mãos entrelaçadas e cabeças que giram.