O fim é o início do amor

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Ela chegou como quem estava de volta à casa. Seus passos seguros, seus gestos tranquilos. Nenhum sinal de receio ou insegurança. Ela decididamente sabia o que estava fazendo. Só havia algum sinal de agitação em seu olhar. Olhar que ardia, que desejava, que exigia. Ela não disse uma palavra sequer. Naquela situação, qualquer palavra seria um fardo a ser carregado por algum dos dois, talvez por ambos. Ambos sabiam o que queriam, era o bastante.

Lançaram-se nos braços um do outro e em um segundo já não se distinguia mais dois corpos. Eles eram um só. Boca, coxas, ventre, sexo. Sexo. Naquele momento, duas pessoas encontraram-se. Não houve limite, não houve restrições, não houve cansaço. Percorreram, exploraram e se apropriaram do corpo um do outro. Ele penetrou fundo naquela mulher que estava ali, entregue, quase submissa. E na hora seguinte viu a presa domesticada virar fera e tomar às unhas o que considerava seu. Gozaram um ao outro, o chão, o ar. Gozaram a vida. Uma, duas, incontáveis vezes. Até que exaustos, permaneceram ainda em silêncio, observando as matizes de cores criadas pelos primeiros raios de sol que entravam pelas frestas da janela. O silêncio permaneceu selando aquele encontro por mais muitos minutos. Até que foi repentinamente quebrado.

- Eu preciso te dizer uma coisa.

- Você tem uma doença incurável, está de mudança pra Europa, vai casar amanhã?

- Eu estou morrendo de sede.

Ele deu uma boa gargalhada, como há muito tempo não fazia. De repente, sentiu uma necessidade incontrolável de afundar seu rosto naqueles cabelos que pintavam de castanho o travesseiro branco. Enquanto escorregava o corpo pra mais perto dela, uma certeza invadiu-lhe a cabeça, o corpo, a alma. Ele ainda queria saber tudo, mas não precisava saber mais nada. Já amava aquela mulher.

Próximo Passo

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(continuação do post anterior)



- Achei que você ligaria ontem.

- Você sempre atende o telefone assim. Não diz alô? Não pergunta quem está falando?

- Eu sei quem está falando. Estou esperando sua ligação desde ontem. Acabou de ler o livro?

- Ainda não.

- Onde ele está agora?

- Quem?

- O livro.

- Nas minhas mãos.

- Você se convenceu de que ele vai continuar aí, a sua disposição?

- No fundo é só uma queda de braço, não? Foi por isso que foi embora daquele jeito?

- Não é uma disputa. Mas não nego que tem a ver com escolha, com a sua escolha. Chega a ser uma metáfora. O livro e a revista. A segurança e o desconhecido.

- E sua saída triunfal foi planejada pra compor esse cenário?

- Não. Fui embora porque me convenci de que não adiantaria forçar a barra. Eu te disse o que eu queria, era só até onde você me deixaria ir naquele momento. O jeito era esperar você dar o próximo passo. Agora me diz você. O que você quer?

- Sexo.

- O quê?

- Sexo. É o que eu quero.

- Agora?

- Agora.

Ele desligou, mas não soltou o telefone. Será que ela estava brincando? Ela viria mesmo? Ela disse que estava a caminho. Agora era ele quem estava lidando com o desconhecido. Havia realmente sido pego de surpresa.

Quando deixou anotados seu nome e telefone, ele sabia que ela ligaria. Por curiosidade, por orgulho. Ele acertou. Ele podia prever como ela reagiria. E pelo tom de desconforto dela, ele estava acertando até aquele momento. Ele conhecia aquele tipo de mulher. Tudo estava sob controle. Até a resposta que mudou tudo. Quando perguntou o que ela queria, mais uma vez antecipou a resposta que ela daria. Dessa vez errou. Ela o havia surpreendido pela primeira vez. E agora ele estava ali, no meio da sala, surpreso, ansioso, excitado, à espera daquela mulher que ele pensara (equivocadamente) ser um livro aberto.

Revista

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- Posso sentar?

- Você já está sentado. Mas não tem problema. Fique à vontade.

- Está gostando do livro?

- Olha só. Podemos dividir a mesa. Mas não é à toa que estou sozinha. Quero mesmo ler.

- Não entendo. Se queria ficar só por que veio ler num café?

- Talvez porque eu além de ler, também goste de café.

- Não é o que acho. Acho que você, mesmo sem saber, esperava alguém ou alguma coisa.

- Entendi. Quanto estou sozinha num café, espero alguém, quando estou roendo as unhas, estou nervosa, quando suspiro, estou apaixonada, quando coço a cabeça, estou indecisa.

- Piolho.

- O quê?

- Cabeça coçando... rs.

- Muito engraçado.

- Responde uma última pergunta? Prometo que te deixo em paz.

- Vá em frente.

- Quando vai ao consultório médico leva um livro?

- rs...

- Seja sincera.

- Não. Não levo livros ao consultório médico.

- Já sabe onde quero chegar, não? Você gosta de obter informações, úteis ou não, enriquecedoras ou não. Uma revista de amenidades e capa colorida, Dostoiévski, Nietzsche, Garcia Marques, bula de remédio. Você pode até gostar mais de um do que de outro, mas todos te atraem. Você não leva o livro pro consultório porque sabe que ele estará sempre na sua mesa de cabeceira à sua espera, já a revista, por mais simplória, pode não voltar as suas mãos.

- E você é a revista de capa colorida do dia?

- Eu preferia uma das outras opções, mas tudo bem... rs.

- Você quer mesmo me convencer de que EU quero conversar com você?

- A liberdade é um bem tão apreciado que o homem quer ser dono até da alheia.

- Agora posso eu te fazer uma pergunta?

- Faça.

- Analisar reais desejos escondidos atrás de comportamentos supostamente banais e parafrasear Montesquieu normalmente dá certo?

- Você acha mesmo que há muita gente por aí que reconhece uma citação de Montesquieu?

- Sinto-me realmente lisonjeada... rs.

O celular. Achá-lo dentro da bolsa era como caçar um desses insetos estranhos que se camuflam no ambiente em que vivem. Sempre que o celular tocava na rua lembrava-se de que não devia usar bolsas tão grandes. Enfiou quase todo o rosto dentro da bolsa pra encontrar o aparelho gritante. Achou. Atendeu o telefone ainda com a cabeça enfiada na bolsa. Era a atendente do consultório médico. A consulta que marcara pro dia seguinte estava confirmada. Desligou o celular rindo da coincidência.

- Você não acredita quem...

Ele não estava mais lá. Havia ido embora.

No dia seguinte, na hora marcada, estava sentada na recepção do consultório médico. Em seu colo, uma revista aberta cheia de fotos coloridas. Absorta, ela olhava. Mas não era pra revista. Olhava pras próprias mãos. Em suas mãos, um guardanapo meio amassado. Nele, havia um nome e um telefone anotados.

ABSURDA MENTE

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ABSURDAMENTE INSANA
ABSURDAMENTE VELOZ
ABSURDAMENTE PROFANA
ABSURDAMENTE VORAZ

ABSOLUTA EM SUA IMPERFEIÇÃO
SURDA A QUALQUER IMPOSIÇÃO
MENTE POR PRAZER, MENTE POR PROFISSÃO

ABSURDA MENTE QUE ORA FESTEJA
ENTRE A LUA E AS ESTRELAS
ABSURDA MENTE QUE ORA RASTEJA
ENTRE A LAMA QUE COBRE A SARJETA

ABSURDAMENTE ATORMENTADA
INSATISFEITA, IMPRESSIONADA
TEM COMO SINA, COMO CILADA
DEIXAR MAIS UMA OBRA INACABADA

P.S.: Há fases em que eu escrevo muito, em outras, por algum motivo qualquer, a vontade de escrever vai embora. Talvez porque viver, em certas situações, seja um processo que exija exclusividade. Talvez porque a vontade seja uma mulher caprichosa e volúvel. Talvez seja só um período de digestão. Bom, não importa muito o motivo. O fato é que na falta de algo novo, há sempre a possibilidade de usar o antigo que ainda faz todo o sentido. Pra mim, é claro... rs. Eu postei esse poema no Impressões no ano passado logo depois de escrevê-lo, mas hoje ele voltou pra me fazer uma visita.