Ciranda girando,
corando a cara da criança.
Melodia pairando no ar
tal qual o ritmo da dança.
Roda de mãos atadas é mundo.
Círculo de elos entrelaçados é tempo.
O compasso pode mudar de direção no próximo segundo.
A roda gira pra um ou outro lado.
Portanto, menino, fique atento !
Cuidado pra não tropeçar na saia da garota.
Ela é faceira e pode lhe enredar.
Não olhe fixo em seus olhos.
São águas profundas e turvas.
Você pode se afogar.
Mas se não tiver medo e ainda houver no seu coração
a vontade de brincar...
Aperte as mãos,
acerte o passo,
arregace o peito.
A vida tem jeito.
Não é jogo, não é armadilha.
É só a menina rimando um convite.
É só a ciranda que continua a rodar.
P.S.: Não é essa a formatação original do poema. Mas, acho que não é mais segredo pra ninguém minha falta de jeito com essas ferramentas tecnológicas. Enfim, travamos uma batalha aqui e, no fim das contas, o editor de texto me ganhou... rs.
P.S.2: Alguns comentários referiram-se a música (sem crase mesmo, sem artigo). Pois é, vocês têm toda razão. Por motivos técnicos (mais alguns... rs), não postei um vídeo. Mas, enquanto escrevia o post, foi a música Falsa Baiana que esteve pairando por aqui.
Blogagem Coletiva
Banho de Chuva
Escutei tua chegada. Fingi que nada havia acontecido. Eu sabia o domínio que exercias sobre mim. Sabia também que não poderia resistir por muito tempo. Mas havia uma chance. Tua natureza passageira poderia te fazer partir logo. Antes que me convencesses a te ouvir, a me ouvir. Isso não aconteceu. Não a tempo.
Tu já estavas próximo o bastante pra me fazer ouvir com clareza o teu convite. Chamava-me pra dançar a tua música, no compasso ritmado, em que, naquele momento, já pulsava meu corpo. Senti teu cheiro e todos os efeitos que ele causava em mim. Ainda tentei controlar, mas era tarde. Eu já sabia o que aconteceria a seguir.
Levantei-me e caminhei em tua direção. A cada passo, despia-me mais um pouco. Percorri a distância que nos separava, deixando pra trás um caminho de vestes jogadas ao chão. Entreguei-me plenamente desnuda.
Nua, pude sentir o prazer de tuas carícias. Deixei que percorresses todo meu corpo. Libertando-me de tudo que eu havia sido. Lavando a pele, renovaste a alma. As pernas afastadas uma da outra faziam com que eu te sentisse entre as coxas. A boca aberta permitia que eu provasse teu gosto de vida. Gosto pela vida. Gozo pela vida.
Aos poucos, senti acalmarem-se teus murmúrios e abrandar-se a força do teu toque. Eu já sabia exatamente o que aconteceria a seguir. Era naturalmente inevitável. As tempestades sempre transformam-se em chuva fina até... secar.
Após sentir que já tinhas ido. Voltei pelo caminho de roupas que eu havia traçado. Vesti-me com o corpo ainda molhado pra manter por mais tempo o frescor que deixaste em mim.
Com um sorriso mudo nos lábios, pensei antes de adormecer. Aquela tempestade se foi, outras virão e eu, apesar do frio e dos riscos, continuarei sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.1: Aproveitei a Blogagem Coletiva promovida pelo Néctar das Flores, dos queridos Rebeca e Jota Cê, para revisitar Banho de Chuva, texto já postado aqui no Impressões há uns meses atrás. É isso. Continuo sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.2: Já ia esquecendo... Dêem uma olhada lá no Néctar das Flores (http://www.nectar-da-flor.blogspot.com/) e votem no seu texto preferido. Sem vontade de votar? Ainda sim vale a visita, nem que seja pra se embriagar com o perfume das flores.
Tu já estavas próximo o bastante pra me fazer ouvir com clareza o teu convite. Chamava-me pra dançar a tua música, no compasso ritmado, em que, naquele momento, já pulsava meu corpo. Senti teu cheiro e todos os efeitos que ele causava em mim. Ainda tentei controlar, mas era tarde. Eu já sabia o que aconteceria a seguir.
Levantei-me e caminhei em tua direção. A cada passo, despia-me mais um pouco. Percorri a distância que nos separava, deixando pra trás um caminho de vestes jogadas ao chão. Entreguei-me plenamente desnuda.
Nua, pude sentir o prazer de tuas carícias. Deixei que percorresses todo meu corpo. Libertando-me de tudo que eu havia sido. Lavando a pele, renovaste a alma. As pernas afastadas uma da outra faziam com que eu te sentisse entre as coxas. A boca aberta permitia que eu provasse teu gosto de vida. Gosto pela vida. Gozo pela vida.
Aos poucos, senti acalmarem-se teus murmúrios e abrandar-se a força do teu toque. Eu já sabia exatamente o que aconteceria a seguir. Era naturalmente inevitável. As tempestades sempre transformam-se em chuva fina até... secar.
Após sentir que já tinhas ido. Voltei pelo caminho de roupas que eu havia traçado. Vesti-me com o corpo ainda molhado pra manter por mais tempo o frescor que deixaste em mim.
Com um sorriso mudo nos lábios, pensei antes de adormecer. Aquela tempestade se foi, outras virão e eu, apesar do frio e dos riscos, continuarei sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.1: Aproveitei a Blogagem Coletiva promovida pelo Néctar das Flores, dos queridos Rebeca e Jota Cê, para revisitar Banho de Chuva, texto já postado aqui no Impressões há uns meses atrás. É isso. Continuo sempre disposta a um bom banho de chuva.
P.S.2: Já ia esquecendo... Dêem uma olhada lá no Néctar das Flores (http://www.nectar-da-flor.blogspot.com/) e votem no seu texto preferido. Sem vontade de votar? Ainda sim vale a visita, nem que seja pra se embriagar com o perfume das flores.
Viagem de volta
A morte chegou numa noite de lua minguante,
Suas mãos eram quentes, seu olhar insinuante.
Chegada a hora de começar a minha jornada
Não voamos, era abaixo a caminhada.
Já imaginava que os céus não se abririam pra me receber,
Há na morte uma justiça absoluta e irrestrita
Que a vida jamais será capaz de conceber.
Descíamos escadas e mais escadas,
Já iniciando minha penitência.
O corpo, em torpor pelas drogas,
Arrastava-se com extrema lentidão.
A alma, anestesiada pela resignação,
Entregara-se sem qualquer resistência.
Ao chegar às profundezas do meu inferno particular,
Não mergulhei num poço fétido e incandescente.
Os degraus desembocaram num corredor de gelo
Terrivelmente iluminado por luzes fluorescentes.
O enxofre não pairava no ar,
Não ouvia gritos de dor lancinante.
Só havia uma ausência de perfume, de tudo
E sussurros abafados de uma desesperança angustiante.
Quis procurar alento nas mãos quentes da morte,
Ela já não estava mais ao meu lado.
Dando por fim sua breve visita,
Largou-me à própria sorte.
Por costume, persistência ou uma espécie de fé
Continuei percorrendo aquela geleira deserta
Margeada por gemidos de dor e portas entre-abertas.
Ao erguer os olhos, avistei-a mais adiante.
Estava à minha espera, ao fim da linha,
Com um risinho irônico e braços estendidos,
Lá estava ela, a Vida que um dia fora minha.
P.S.: Viagem de volta é um dos poemas escritos no hospital durante a minha recuperação do transplante. Ele foi escrito no dia 9 de julho deste ano, 2 dias depois da cirurgia. Por que estou postando justamente agora? Porque chegou a hora. Simples assim.
Mensagem
Comprei Mensagem, do Pessoa, numa viagem no ano retrasado, mas ainda não tinha aberto. Poesia, pra mim, não é algo que se leia no carro, no meio de um dia de trabalho, às pressas. Há que se ter uma certa calma pra perceber e degustar certas coisas. Enfim, desde semana passada, tenho dividido minha cama com essa Pessoa e isso tem me dado um enorme prazer. Alguns poemas do livro ainda postarei aqui, falam com muita propriedade sobre coisas que eu penso, sinto. Mas, devido a minha enorme simpatia pela fuga do óbvio, hoje vou postar Fernando Pessoa "proseando". Achei a epígrafe do livro bem interessante e tem muito a ver com a relação entre as postagens e os comentários (e as postagens seguintes e os comentários seguintes e as postagens... e assim sucessivamente, numa cadeia que nenhum de nós sabe até onde vai).
Nota Preliminar do Livro Mensagem (Fernando Pessoa)
O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada - todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não estiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.
Nota Preliminar do Livro Mensagem (Fernando Pessoa)
O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada - todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não estiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.
Epitáfio
Ele nasceu em uma manhã ensolarada. Chegou ao mundo forte, sadio, chorando bem alto, como quem avisa a todos a que veio. Foi uma criança cheia de energia. Os joelhos estavam sempre ralados e os pés do moleque tinham a cor escura do doce que lambuzava a boca nas festas juninas.
Na juventude, era tão popular com as garotas quanto com os meninos que o olhavam com admiração e certo despeito. Começou a trabalhar cedo para ajudar nas despesas de casa, mas nem por isso deixou de lado os estudos. Casou com a mulher certa e juntos construíram uma família modelo. Modelo de conduta, postura, viver.
Sempre agia como um homem de verdade deveria agir. Sabia exatamente o que todos esperavam dele e se orgulhava de corresponder a tais expectativas. Tudo ia muito bem até aquele momento.
No consultório, entre 4 paredes insuportavelmente brancas, de repente percebeu-se totalmente isolado do resto do mundo. Uma muralha intransponível. Só o que via diante de si eram os olhos miúdos e plácidos daquele médico que parecia lhe perscrutar a alma enquanto esperava a resposta pra pergunta que acabara de fazer:
- Onde dói ???
Acontece que apartado da opinião e expectativas alheias, ele estava irremediavelmente apartado de si mesmo. Sentia-se perdido, experimentava uma sensação de total solidão, ausência dele próprio. Pela primeira vez, não existia a resposta adequada, aceita, correta. O que, pra ele, significava não haver qualquer resposta.
Mas o médico, pacientemente, aguardava. Os olhos miúdos agora pareciam ainda mais investigativos. Lentamente, as paredes começaram a se movimentar, vinham a seu encontro. Ele tentou se levantar e sair daquela situação surreal. Não conseguiu mover um único músculo. Seu destino já estava selado.
O homem perfeito morreu ali. Espremido entre 4 paredes insuportavelmente brancas que lhe serviram de túmulo. E aquele fim absurdo não foi apenas a sua morte, mas a cabal declaração de que ele nunca havia existido. Como não poderia deixar de ser, seu epitáfio não foi a descrição de sua vida (anulada), mas o instrumento de sua morte. Seu epitáfio foi a simples e fatal pergunta do médico de olhos miúdos e plácidos:
- Onde dói ???
Se conselho fosse bom...
Não tente entender o coração de uma mulher. O entendimento é o derradeiro passo rumo à banalização dos mistérios do sentir. Além do mais, essa seria uma tarefa tediosa e com resultados absolutamente inúteis. Entendê-la não te faria gostar mais ou menos dela. Felizmente, o afeto não acompanha a construção e a queda de nossas ilusões de saber ou não saber. Entendê-la, tampouco, tornaria a convivência mais interessante. Se você buscasse a paz suprema de uma vida sem surpresas, compraria um pinguim de geladeira. Mas não, você está diante de uma mulher. Então, pra que ficar se perguntando por que ela é tão imprevisível ou o que se passa com ela? A única pergunta que deve fazer a si mesmo é se, mesmo sem compreendê-la, você a quer por perto.
Se a resposta for não, qualquer tentativa de entendimento é apenas uma busca por um parâmetro a ser utilizado em relações futuras. Acontece que mais adiante, não só a mulher será outra, como você mesmo será diferente. Morremos e renascemos a cada segundo. Tentar criar um padrão, além de inútil, seria bem frustrante.
Se a resposta for sim, aí mesmo que deve deixar de lado essa tolice de entendimento. Puxe-a pra bem perto, não permita que ela se refugie em suas próprias incertezas. Encare-a nos olhos e deixe que agora ela decida se também te quer.
Se ela falar, ouça-a. Não é preciso entender os mecanismos da translação pra se encantar com o nascer do sol.
Se ela se calar, compartilhe do seu silêncio. Silêncios partilhados são como confidências reveladas. Tem o poder de sobrepujar fronteiras de tempo e distância.
Se ela chorar, não tente enxugar suas lágrimas. Não construa represas que não resistirão à força ininterrupta das águas. O estrago pode ser devastador.
Por fim, meu caro, se ela sorrir. Ahhh, se ela sorrir, mergulhe de cabeça no fundo dos seus olhos. Somente lá, encontrará a única resposta da qual você realmente precisa.
Se a resposta for não, qualquer tentativa de entendimento é apenas uma busca por um parâmetro a ser utilizado em relações futuras. Acontece que mais adiante, não só a mulher será outra, como você mesmo será diferente. Morremos e renascemos a cada segundo. Tentar criar um padrão, além de inútil, seria bem frustrante.
Se a resposta for sim, aí mesmo que deve deixar de lado essa tolice de entendimento. Puxe-a pra bem perto, não permita que ela se refugie em suas próprias incertezas. Encare-a nos olhos e deixe que agora ela decida se também te quer.
Se ela falar, ouça-a. Não é preciso entender os mecanismos da translação pra se encantar com o nascer do sol.
Se ela se calar, compartilhe do seu silêncio. Silêncios partilhados são como confidências reveladas. Tem o poder de sobrepujar fronteiras de tempo e distância.
Se ela chorar, não tente enxugar suas lágrimas. Não construa represas que não resistirão à força ininterrupta das águas. O estrago pode ser devastador.
Por fim, meu caro, se ela sorrir. Ahhh, se ela sorrir, mergulhe de cabeça no fundo dos seus olhos. Somente lá, encontrará a única resposta da qual você realmente precisa.
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