domingo, 30 de novembro de 2008

Uma questão de honra

- Doutor, tá indo embora?

- Estou, já falei com meu cliente.

- Tem um homem aí que tá precisando de advogado. Foi preso em flagrante há um tempão e até agora nem foi chamado no fórum. O senhor quer falar com ele?

- Ele pode pagar?

- Não sei. Parece que não tem muita coisa não. A mulher dele vem pras visitas puxando um monte de menino remelento pelo braço. Talvez tenha uma casa que possa vender. Só falando com ele.

- Manda trazer o homem.

(...)

- Doutor, já vou dizendo que não tenho como pagar pelo seu serviço e nem sou homem de explorar o trabalho de ninguém. Dizem que tem um doutor que trabalha pra pobre, mas até agora nada desse homem aparecer. E a mulher fica chorando querendo saber se me demoro aqui, os meninos tão precisados de uma ruma de coisa e lá em casa de homem só eu mesmo. Só preciso que o senhor me responda se fico aqui ainda muito tempo.

- Não sei. Essas coisas nunca dão pra saber com exatidão, mas eu poderia prever mais ou menos se tivesse seu processo em mãos. Bom, me diga o que aconteceu que vou ver o que dá pra fazer.

- Eu furei um amaldiçoado há uns tempos atrás.

- E ele morreu?

- Ah doutor, homem que é homem não tira uma faca do cós só pra fazer medo não. Ele ofendeu minha santa mãe que já foi embora dessa terra de perdição há um bom tempo. Se eu deixasse por nada não andava de cabeça erguida mais nunca nessa vida.

- E além de ofender sua mãe, o que mais ele fez?

- Ele disse que ia matar. Foi legítima defesa, doutor.

- Então ele tinha uma arma também?

- Sei não. O que ele tinha não sei dizer. Sei o que ele não tinha. Juízo. Com licença da má palavra, mas o filho de rapariga não tinha um pingo de juízo, se tivesse, não tinha bulido com a honra de um cabra macho.

- Entendo.

Mas ele não entendia. Nem sabia o sentido dessa palavra. Tal assunto não fazia parte da grade da faculdade que ele cursou. Não há questões de honra na prova da OAB.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Teia Alimentar

Desde que comecei a visitar outros blogs, venho chamando de teia esse compartilhar de sentimentos e pensamentos. Dizia isso por perceber a blogosfera como um verdadeiro emaranhado. Eu lia um post de alguém, depois lia um de outra pessoa e percebia uma clara ligação entre as postagens, embora, algumas vezes, os escritores nem tivessem lido os textos uns dos outros. Coincidência? Sintonia? Eu sentia como se houvesse uma teia imaginária que ligava as pessoas. Uma teia de idéias.

Hoje, comentando um post escrito por Vivian, repeti essa história da teia e de repente, assim do nada (como acontece com a grande maioria das minhas teorias malucas), percebi que talvez formemos mesmo uma teia, mas não pelo motivo que eu havia pensado antes.

Lembrei de minhas aulas de ciências, quando eu era menina ainda. A "tia" ia explicando o mundo a minha volta e aquilo me soava fascinante. Em uma dessas viagens, o tema do dia era cadeia alimentar. Eu já intuía que os seres vivos (eu inclusive) eram parte de um todo, mas ouvir que os seres se alimentam uns dos outros foi como um abrir de olhos. Enfim, havia mesmo um motivo científico pras minhas percepções infantis.

Nessa mesma aula, descobri que havia várias cadeias alimentares e que o cruzamento de cadeias formava uma teia alimentar. A explicação da professora à época me parece muito boa até hoje (todos os professores deviam manter a linguagem simples e despretenciosa que adotam pra lidar com cianças). Um animal normalmente alimenta-se de mais de um ser vivo e esses seres integram cadeias alimentares distintas, fazendo com que essas cadeias se cruzem.

Pois no exato momento em que comentava no blog da Vivian, pensei nisso. Todos nós fazemos parte de cadeias alimentares virtuais, dependemos uns dos outros pra nos alimentar, pra nos nutrir. E mais, criamos até um cardápio (vide as listas de links de blogs amigos que a maioria de nós tem em seu blog). Pensa que acabou aí? Nãoooo. Além disso, nossas cadeias alimentares cruzam-se, formando teias alimentares. Isso graças a blogueiros que fazem parte de diversas cadeias. Eu mesma já "ganhei" vários contatos herdados de blogs que visito constantemente.

Sabe do que mais? As minhas teorias são só passa-tempos pra essa minha mente doentia. Na verdade, estabelecer papéis não é importante, muito menos saber o que nos mantém aqui, interagindo com os escritos nossos e alheios. O importante mesmo é que, a princípio, não somos mais que seres vivos que precisam comer uns aos outros pra sobreviver. A princípio... Mas, aqui, entre sentimentos, pensamentos e letras, podemos ser qualquer coisa, podemos fazer qualquer coisa, até seguir nosso instinto de sobrevivência e usar outros seres pra continuar sentindo, pensando, blogando, nessa fascinante teia de idéias.

P.S.: Falando em amigos, Usando Verbologia foi extinto e me sinto meu órfã. Está certo, Melia. Pode me chamar de piegas, mas é assim que sinto mesmo.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O cárcere da bela vida

Há dias procuro um livro que comprei na última viagem e não sei onde guardei. Acontece que toda vez que começo a mexer nos meus armários, encontro uma outra coisa que acaba me fazendo esquecer o que eu inicialmente estava procurando.

Ontem, numa dessas expedições em busca do livro perdido, encontrei algumas "preciosidades". O Schopenhauer que ganhei de um amigo (que, por sinal já me xingou algumas vezes porque ainda não acabei de ler o livro), bilhetes sem sentido (agora), poemas rabiscados em guardanapos, números de telefone anotados que não sei mais quem me deu, textos passados por colegas que esqueço de levar pro escritório... Graciliano Ramos.

De repente, abri uma gaveta e lá estava ele. Memórias do cárcere. Pronto, acabava de abortar a expedição. Encontrar Pessoa ficaria mesmo pra outro dia. De repente, fui invadida por uma avalanche de pensamentos.

Inicialmente, me veio a lembrança do momento em que li Memórias do Cárcere. Eu acabava de mudar completamente de rotina. Momento conturbado, em que ainda me adaptava às diferenças culturais, climáticas, etc, etc, etc. De certa forma, ler um bom livro me fez lembrar o quão relativas são essas questões de "meu lar", "meu lugar". Lembrar que não é necessariamente (e nem principalmente) no mundo exterior que me encontro, me localizo. Daí em diante me vieram todas as divagações acerca das minhas teorias sobre as relações humanas, das quais pouparei meus queridos visitantes... rs.

Logo depois, me peguei pensando no prazer que foi reencontrar Graciliano depois de Vidas Secas. Memórias do cárcere me tirou aquela impressão aborrecida. Ousadia chamar um clássico de entediante? Ignorância? Mau gosto? Que seja. Decididamente Vidas Secas não está incluído na minha lista de prediletos, nem de mais ou menos, por sinal... rs.

Mas, voltando ao assunto, Memórias do cárcere tocou fundo em mim. O tema. A visão fatalista, a crítica ferina, o sarcasmo contundente de Graciliano. A postura debochada diante de uma situação absurda. Absurdamente verídica. A verdade sem demagogia, sem a velha falácia da total aversão brasileira à violência.

E os pensamentos não pararam por aí, acabei me lembrando do filme "A vida é bela". Aquele mesmo que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro derrotando o enfadonho "Central do Brasil". Benigni e sua forma romanceada de falar do holocausto. Guido e sua visão combativa diante das atrocidades. É isso, à sua maneira, Guido lutou contra o exército alemão, contra a realidade, contra tudo e todos por uma só causa, sua família. A inocência do filho. O resgate da esposa. Suas armas: criatividade e fantasia. Fantasia.

Inevitavelmente, estava criado o paralelo entre as visões de Graciliano e Benigni diante da barbárie. Algumas coisas em comum. A semelhança entre as situações é gritante: ditadura, holocausto. Além disso, nenhum dos dois lutava por um ideal. Graciliano nem sabia ao certo o que era comunismo. Guido não almejava matar Hitler. Ambos estavam "perdidos" numa guerra alheia. Lutavam pela sobrevivência (embora seus conceitos de sobrevivência fossem bem distintos).

Graciliano queria apenas continuar vivendo. Talvez nem fosse um querer assim tão intenso, talvez fosse só um costume, continuar resistindo. Guido não precisava apenas não morrer pra viver. Ele precisava sonhar, imaginar, e ainda fazer sonhar, fazer imaginar. Guido amava uma mulher, protegia seu filho, tal como seu pequeno príncipe. Graciliano convivia com sua mulher, assim como com os móveis de casa, talvez nem lembrasse os nomes dos meninos.

As diferenças entre os dois eram mesmo muitas e mais marcantes que as semelhanças, mas sentada no chão, entre vários pedaços de papel amassado, Memórias no colo, Vida na cabeça, o pensamento mais forte que surgiu (e ficou) foi em relação à saída que eles encontraram pra sobreviver.

Graciliano escrevia. Guido sonhava. E assim eles iam sendo tratados como animais e vivendo como homens. Ambos sobreviveram, cada um à sua maneira, a situações extremas. Imaginar... escrever... sobreviver... Guido, Graciliano, eu... você?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Um dia de cão... ops... de macaco



No dia em que eu perder a capacidade de rir de mim mesma, por favor, me internem às pressas.

P.S.: Todos os créditos a dois amigos: Bill, que me mandou esse vídeo há algum tempo atrás; e Léo, que me fez lembrar do vídeo assim que li seu último post (É, Léo, é isso que somos, macacos...rs).

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Morreu de pensar

Pensaste que eu te amava
Quando, através de meus olhos,
deixei-te vasculhar os recônditos de minh'alma

Pensaste que eu te amava
Quando chorei em teu colo e te ofereci a face
para que secaste rastros úmidos de dor e medo

Pensaste que eu te amava
Quando beijei tua boca e te fartaste em minha saliva
da vida que já havia te escapado por entre os dedos

Pensaste que eu te amava
Quando colei meu corpo ao teu
e sentiste o descompasso de um coração sôfrego por ti

Pensaste que eu te amava
Quando cerrei os olhos e me ofereci inteira
para que tu pudeste brincar de deus

Pensaste que eu te amava
Quando pousei meu rosto cansado em teu peito nu
esquecida de que havia mundo além de nossa alcova

Pensaste que eu te amava
Quando, assombrada pelos meus fantasmas,
tateei no escuro do quarto buscando o refúgio do teu abraço

E de tanto pensar
Tu, corrompido por todas as idéias de amores vãos,
Não pudera compreender o quanto eu realmente gostava de ti.

Conclusão matutina

Hoje acordei antes de abrir os olhos. Permaneci deitada curtindo uma certa paz que só pode existir na semi-consciência.

Aos poucos, cada um dos meus sentidos foi despertando.

Ouvi os sons da cidade que já corria lá fora enquanto eu brincava de estátua.

Senti o contato do lençol macio envolvendo todo meu corpo como num abraço imaginário.

Os perfumes da manhã, também os senti todos. Café, pão fresco, pasta de dente.

Agora sim. Hora de levantar e ganhar o mundo.

Mas faltavam os olhos. Eles permaneciam cerrados. Tentei abri-los uma, duas, cinco vezes, em vão. Exausta de tanto tentar, declarei-me vencida. Adormeci.

Depois de uns minutos, abri os olhos com a certeza de estar atrasada. Saltei da cama antes de estar realmente acordada. Banho, escolha da roupa, café, dentes escovados, tudo feito maquinalmente, sem a menor consciência.

Já a caminho do trabalho, corpo todo em movimento, despertei com uma conclusão inesperada: Abrir os olhos não é tão fácil quanto parece.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Sei lá



Ultimamente, a vida anda correndo demais.

Decididamente, ela não dá o menor sinal de que vai diminuir o passo pra me acompanhar, muito menos de que prosseguirá sem mim. Não agora.

Sempre há a possibilidade dela me arrastar pelos braços. Talvez seja bem cômodo, embora isso possa me render alguns arranhões.

Acho que a opção mais adequada é começar a correr.

É nessas horas que penso que devia dormir mais, comer nas horas "certas", beber menos. Talvez eu tivesse mais fôlego. Não sei.

É a brisa gelada das madrugadas de boemia que me oxigena o corpo, a mente e ....

"Meu coração vagabundo, quer guardar o mundo em mim".

E a vida? Tem sempre razão, oras.

Enquanto isso, Vinícius, fiel companheiro, (en)canta...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cada um luta com as armas que tem

- Vovó, minha cabeça está doendo.

- Deixa eu ver, meu filho. Onde dói?

- Aqui.

- Valha meu Deus. Tem um bruta caroço na tua cabeça, menino. Desde quando está doendo?

- Desde semana passada.

- Tudo isso? Vá chamar tua mãe.

(...)

- A senhora mandou me chamar?

- Claro. Já viu o calombo na cabeça do teu filho?

- Vi sim. Ele caiu jogando bola. Coisa de criança.

- Ele disse que já faz uma semana.

- Tenho dado remédio. Passa já.

- Passa já nada. Você sabia que caroço na cabeça pode dar aquela doença?

- Aquela doença tem nome. Câncer. E a senhora está dizendo bobagem. Isso é ignorância.

- Não sei o que é ignorância. Mas sei o que é judiação. É o que você está fazendo com seu filho. Deixando o bichinho sofrer desse jeito e ainda correr o risco de pegar a maldita doença.

- A senhora não sabe o que está falando. Preciso ir. Tenho que trabalhar.

- Espera. Por que você não faz uma promessa pra São Francisco? Eu tenho um santo aqui. A gente pode rezar pra ele, pedir essa graça e prometer que o menino vai andar de marrom durante um ano.

- Eu não tenho fé. Pra mim, esse santo da senhora é só um monte de gesso.

- Desconjuro. Deixa de maledicência, mulher. Deve ser por isso que seu filho está com um caroço do tamanho do mundo na cabeça. Você não quer, não faça. Eu vou rezar pro meu São Francisco e pedir mais essa graça.

- Enquanto a senhora reza, eu vou trabalhar. Preciso comprar mais remédios pra dor de cabeça.

P.S.: O melhor dessa história é o fato de ser verídica (está certo, eu mexi só um pouquinho). A simpática avó é minha cliente e me contou essa passagem sem se dar conta do quanto me encantam essas sutilezas cotidianas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Simples assim

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Um breve agradecimento

Fragmentos de 3 conversas com 3 pessoas absolutamente diferentes, com as quais eu tenho relações totalmente distintas. Foi o que me veio à cabeça no momento em que me abandonei aqui, à frente deste teclado, que tem sido meu parceiro e algoz, há mais ou menos 1 ano.

Fico pensando o que têm essas 3 pessoas em comum. E as palavras que me vêm à cabeça são intensidade e liberdade. Vida em tamanha abundância que, em certos momentos, parece que um só corpo não os conterá. Será pouco, bem pouco, pra abrigar tanto sentir e tanto pensar.

Intensidade e liberdade. Fácil antever quais efeitos essa mistura causa em mim. Encanto, interesse e está acionado o botãozinho que desencadeia uma série de pensamentos que levam a outros pensamentos num ciclo que parece interminável.

Uma mulher madura, segura, experiente, encantada, absolutamente encantada por um menino que, com uma doçura absurda, foi fazendo caírem todas as máscaras, foi limpando toda a camada espessa de pó que cobria o rosto da tal mulher. E ela, tão acostumada a cravar com segurança os dois pés no chão firme, fica sem saber o que fazer quando se sente caminhando num chão de nuvens. O garoto aparentemente tão frágil, a mulher firme como rocha. E no fim das contas, não se sabe mais quem corre mais riscos nesse encontro improvável.

Um homem que, mesclando sagacidade, sarcasmo e delicadeza, vai deixando uma série de mensagens subliminares, as quais vão formando uma corrente de elos arredondados. Um caminho de migalhas de pão que vou trilhando com a total certeza de que é preciso atenção, apesar de todas as alegorias que enfeitam a estrada. Um caminhar sem ponto de chegada, apenas o prazer de continuar descobrindo o que se apresentará mais adiante. Quais serão as novas mensagens, quais pensamentos elas desencadearão em mim, quantos sorrisos mais?

Uma mulher muito jovem, uma menina muito velha. Uma pessoa daquelas que nos faz oscilar entre a reflexão mais profunda e a piada mais infame, fazendo com que a reflexão não pareça tão "pesada" e a piada não pareça tão tola. Confidências trocadas. Muita prosa. Poesia, sempre. E a capacidade de ler minhas palavras com uma sensibilidade tamanha que, por muitas vezes, me faz ficar feliz por tê-las escrito.

3 pessoas que, sem nem saberem da existência umas das outras, uniram-se pra me passar uma só mensagem dividida em partes, como num geograu (?) daqueles de escola primária. Cada um, em seu momento e com uma eficiência ímpar, falou a sua parte. E quando foi dita a última palavra do último participante ficou muito claro que, nem sempre, as mensagens vêm inteiras, de uma só vez, nem passadas por uma só pessoa, por uma só situação.

A moral da história é que apre(e)nder não é algo tão fácil quanto pode parecer à primeira vista. Requer atenção, percepção e... boas companhias, é claro... rs.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Meu casaco de general

Nesta temporada no Rio tive um interessante companheiro de viagem. Ele preencheu parte do meu tempo ocioso, me fez repensar algumas opiniões, ajudou a fortalecer umas idéias, me lembrou de uma época importante da minha vida. Enfim, foi uma convivência intensa, profunda, mas tranqüila.

"Meu Casaco de General", escrito por Luiz Eduardo Soares, trata de segurança pública, política, violência no Rio de Janeiro, mas principalmente de crenças, a capacidade que as pessoas têm de acreditar e até onde podem chegar para defender seus pontos de vista.

Luiz Eduardo foi sub-secretário de Segurança e depois coordenador de Segurança, Defesa Civil e Justiça do governo Garotinho. Mas não se trata de um integrante das "forças armadas", trata-se, essencialmente, de um pensador, um homem que acreditou ser possível combater a violência no Rio de Janeiro com planejamento, organização e credibilidade.

Como já se poderia antecipar, ele saiu do governo antes do fim da gestão Garotinho por pura e total incompatibilidade de objetivos, embora a versão "oficial" tenha sido seu suposto envolvimento no caso João Moreira Salles/Marcinho VP (caso este que também gira em torno da capacidade humana não só de acreditar, mas também de agir conforme suas crenças).

P.S.: Mais detalhes sobre o envolvimento entre João e Marcinho VP (na época da matéria o "apoio" de Luiz Eduardo ainda não tinha sido usado como cortina de fumaça pra mascarar os reais motivos de sua exoneração):
http://www.zaz.com.br/istoe/1588/brasil/1588guerraparticular.htm

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Encontros

Quando criança, eu fechava os olhos, levantava as mãos em direção ao céu e tinha a nítida sensação de que podia voar. Chegava a pressentir o vento acariciando meu rosto, bagunçando meu cabelo, correndo entre minhas pernas.

Nessas noites de magia, depois de vagar sem rumo entre estrelas brilhantes, eu recostava em montinhos de nuvem e me abandonava por ali, observando a lenta transformação da noite em dia. Esses eram meus jogos preferidos. Os jogos de cores que antecediam o amanhecer.

Quando criança, eu compunha minhas próprias baladas. Adotava dialetos que os outros não podiam decifrar. Mas, eu não estava só. Dividia doces baladas e estranhos dialetos com meu amigo invisível. Alguém que os olhos não viam, mas o coração sim. As mãos não tocavam, mas as palavras sim.

Uma relação que simplesmente existia, sem precisar se concretizar. Um amigo cuja existência todos desconheciam. Revelá-lo representaria reduzi-lo em termos e limites que os outros pudessem compreender. Trazê-lo ao mundo real seria destruir o caminho até o único lugar que eu poderia chamar de casa.

Quando criança, eu não precisava de motivos pro sentir. Entendia que sorrisos e lágrimas não resultavam de processos racionais, lógicos. Eu apenas vivia de olhos bem abertos. Prontos pra chorar e pra sorrir.

Naquela época, eu sorria com os olhos. Eles também podiam falar, gritar, prometer. Olhos, boca, ouvidos, mãos, pernas. Eu desconhecia suas funções previamente estabelecidas. Só o que queria era explorar todas as possibilidades de cada parte de um corpo dentro do qual, muitas vezes, eu sentia não caber.

Quando criança, eu tinha medo de escuro, de barata e trovoada, mas não temia as pessoas, nem a mim mesma. Não tinha medo de amar. Não tinha medo de ser amada.

Por tudo isso e um pouco mais, é que agora eu abro mão de todas as declarações prontas de amor e de qualquer desses clichês românticos, e digo com toda pureza que me restou depois de tantos anos dessa vida errante num mundo que se recusa a parar de girar. Não sei se te amo. Se te amo, não sei até quando. O que sei - e essa é a coisa mais singela e bela que eu poderia sentir por alguém - é que, ao encontrar você, sinto que, depois de tantos anos, reencontrei a mim mesma... Quando criança.

domingo, 2 de novembro de 2008

E tudo acaba onde começou



- Quem é?

- Sou eu. Posso subir?

- Claro.

(...)

- Você tem a coragem de vir dormir comigo depois de um jantar para o qual você se negou a me convidar? Quer dizer que só quer usar meu corpo e nada de me apresentar pra família? Mulher insensível, cortou meu coração. Já imaginou o que isso pode fazer com minha auto-estima?

- Hoje não, por favor. Guarde todo o seu sarcasmo pra amanhã.

Ela nunca havia falado assim. Não eram exatamente as palavras que ela usara. Havia alguma coisa de muito diferente em seu tom de voz. Só não sabia exatamente o que, nem adiantaria perguntar. Ela não responderia, não verbalmente. Mas sabia onde encontrar todas as respostas de que precisava.

Com a mão esquerda em seu queixo, levantou delicadamente seu rosto, obrigando-na a encará-lo. Olhou-a fixamente. Ela não tentou desviar o olhar, não dessa vez. Queria mesmo que ele pudesse descobrir em seus olhos as respostas que ela mesma ainda não encontrara em seu coração.

- Nunca te vi tão perturbada.

- Isso te incomoda?

- Não. Aliás, nunca te achei tão linda.

- Você vai me perguntar o que vim fazer aqui?

- Não preciso. Eu sei o que veio buscar aqui.

- Sabe? E o que acha que vim buscar?

- Abrigo.

- Abrigo? Você acha que estou fugindo?

- Muito pelo contrário. Acho que você decidiu parar de fugir. Só que já está tarde, você está cansada e não vai encontrar nenhuma resposta assim. Agora do que você realmente precisa é de abrigo. Nem vou perguntar como foi a noite.

- Melhor mesmo. Antes de falar sobre o assunto, preciso acabar de digerir esse jantar.

- Onde você estava quando recebeu a ligação da sua mãe?

- Aqui, na sua casa.

-Mais exatamente?

- Na sua cama. Mas que diferença faz?

- Dizem que quando alguém quer encontrar alguma coisa perdida, uma boa estratégia é refazer o caminho percorrido. Se tudo começou na minha cama, é pra lá que vou te levar. Vem, minha exilada preferida, vou te pôr pra dormir.

- Achei que dormir com você, só depois do sexo.

- Hoje não. Acho que, apenas por uma noite, consigo fingir que sou um cara sensível. Está vendo? Se você tivesse confiado em mim, talvez eu até tivesse me comportado bem no tal jantar com sua mãe... rs.

Ele a puxou pela mão. Passou um dos braços sobre os ombros dela e a levou pra sua cama... onde tudo havia começado.