Uma gaveta, um vazio e um consolo

| | 3 comentários »
Enquanto arrumo a mala pra voltar pra casa, penso em como tudo passa...

Sempre tive a sensação de que a vida é um eterno ir e vir de fatos, momentos, sentimentos, pessoas. Mas, em algumas situações específicas, essa sensação ganha peso, forma e se materializa bem diante dos meus olhos, sem aviso prévio.

É fácil lidar com essa inevitável alternância quando vc sente mesmo que chegou o momento de abrir espaço pro novo, pro desconhecido, pro que ainda está por vir. Mas é frustrante quando a "fila anda" e vc só queria mais um minuto, queria fincar os pés ali e não ir pra frente, muito menos pra trás.

Sabe quando vc arruma uma gaveta? Você encontra o que já foi muito importante, mas não tem mais qualquer serventia; encontra o que nunca foi muito útil e se pergunta por que guardou aquilo por tanto tempo; mas encontra também o que nem o tempo, nem a falta de contato direto foram capazes de tornar menos valioso. E no meio de tantas coisas suas, vc, de repente, encontra algo que não é seu, algo cujo lugar não é ali e sabe que tem que deixá-lo ir, tem que permitir que toda sua potencialidade seja explorada, aproveitada, e percebe que vc, ao menos naquele momento, não pode fazê-lo.

Está certo, minhas metáforas, muitas vezes, parecem mais "meta-fora" (essa é ótima, Melia). O fato é que algumas coisas não têm como ser descritas com clareza mesmo. Mas, por cada palavra escrita, compartilhada, tenho certeza de que vc sabe bem do que estou falando.

Mudança !!!

| | 3 comentários »
Como vcs podem ver, mudei o nome do blog. Na verdade, completei.

Desde que batizei o blog, sentia falta de algo no nome. Sabe filho de pai desconhecido? Tem nome, tem sobrenome, mas falta um complemento. Uma lacuna em sua própria identidade. Viagem? Pode ser, mas é assim que me sentia.

Já sei, já sei... Essa especificação também é uma forma de delimitação e isso não é muito coerente com meu apreço pela liberdade, inclusive, a de interpretação. Verdade que gosto, sempre que possível, de incentivar várias interpretações, vários pontos de vista, e quanto menos "definidas" forem, mais abertura terá o outro ao formar a sua idéia diante das minhas idéias.

Mas, não sei exatamente por que, dessa vez quis sim "qualificar" minhas impressões. E hoje, quando esse trocadilho surgiu na minha cabeça como a maçã caída da árvore (pretensiosa...rs), não pude evitar um sorriso de satisfação, embora a mulher ao meu lado deva ter pensado que eu era louca (sábia mulher) ou que tinha tido um espasmo... rs.

Fora que faz tempo que não mudo o layout e essa "pasmaceira" já estava me entediando. Viram? Ainda continuo a mesma...

Apenas mais um ato

| | 5 comentários »
- Lembra daquele meu amigo? Aquele que veio aqui em casa, na festa do meu último aniversário?
- Havia tantos amigos seus aqui em casa naquele dia.
- Você sabe sim. É aquele alto, que vive fazendo piadas.
- Ah, acho que sei. Não é aquele que tinha perdido a mãe há pouco tempo?
- Esse mesmo ! Hummm, agora sei por que ele não estava fazendo tantas piadas.
- Eu não gosto dele. Também não gosto desses seus outros amigos. Eles te incentivam a beber.
- Eles não me incentivam a beber. Você me incentiva a beber. Você e essa sua mania de falar mais palavras por minuto do que minha cabeça consegue processar. Daí preciso de algo que me faça relaxar depois de tanto esforço. Será que é possível alguém sofer de LER por esforço repetitivo do cérebro?
- Muito engraçado. Quer saber? Eu não falo muito, só o suficiente, aliás nem o suficiente, afinal ainda não te convenci.
- Afinal de contas, você quer me convencer a fazer o quê?
- Quero te convencer a mudar.
- Posso saber o que você quer mudar em mim?
- Nada demais. Quero que você pare de beber, comece a se tratar, durma mais cedo, faça as refeições na hora certa e faça exercícios físicos. Isso é pedir muito?
- Não, claro que não. Afinal você nem quer que eu morra e nasça de novo.
- Destesto quando você me responde nesse tom irônico.
- Verdade? Então, esse pode ser mais um item pra sua lista de mudanças. Mas, voltando ao assunto, eu não estou bebendo tanto assim e você está sendo injusta, estou me tratando. Não fui ao médico no mês passado?
- Foi.
- Então? Como você pode dizer que não estou me cuidando? Eu até comprei os remédios que ele prescreveu.
- Ah, é verdade. Você só esqueceu que gavetas não tomam remédios e que o médico não mandou você comprar os medicamentos, mandou você usá-los.
- Eu detesto remédios.
- E é pra mim que você diz isso? Estou cansada de saber que você detesta remédios. E sei exatamente por quê.
- Também, a resposta é fácil. O governo coloca veneno em remédios usados por velhos pra que morramos todos e deixemos de ser um peso pra seguridade social.
- Deixa de bobagem. Você compra seus remédios na farmácia, não pega no posto. Fora isso, o governo tem mais a fazer do que matar velhos, pra que sujar as mãos? A "violência" faz o trabalho sujo. Mas, não adianta tentar me enrolar. Você não toma os remédios porque se tomar não poderá beber.
- Claro que não. Eu já não tomava os remédios quando não bebia.
- Engraçadinho. Qualquer dia você morre e ainda vão dizer que não cuidei bem de você.
- Não vou morrer tão cedo. Tenho que cuidar de você, afinal sou o homem da casa.
- Sei, sei. Também me pergunto o que faria se não tivesse você.
- Agora é você quem está sendo irônica.
- Não estou sendo irônica. Passo metade dos meus dias cuidando de você e a outra metade pensando em como cuidar melhor de você.
- Eu sei, você ainda não desistiu, não é?
- Nunca vou desistir. Você não vive repetindo o quanto sou teimosa.
- Devia falar mais vezes o quanto você é adorável, além de teimosa.
- Isso é uma declaração de amor?
- Prefere que eu diga que te amo?
- Se eu preferisse esse tipo de declaração de amor, não tinha casado com você. Gosto do seu jeito.
- Querida, sabe de uma coisa? Eu não mudaria nada em você.
- Nem eu.
- Ah não? E aquela lista interminável?
- Amor, vamos dormir? Vem cá pertinho, vem. Apaga a luz.
- Está certo, boa noite.

Ontem, hoje... quem sabe amanhã?

| | 4 comentários »
Ontem chorei enquanto você falava. Lamento cansado, expressão de uma dor que já cansou de doer, mas não deixou de existir. Lamento mudo. Lágrimas discretas que correm de mansinho. Sem pressa, nem direção a ensinar. Afinal, ninguém precisa lembrar às aguás do rio o caminho a trilhar.

Hoje acordei. Olhei pro espelho e vi um rosto lavado. Não existia mais aquele rastro seco do rio que havia corrido ali. A água não tinha mais gosto de pesar. A água não tinha gosto.

Acredito até que a dor não deixou de existir. Talvez eu apenas tenha cansado de sentir. Lembro de você, das suas palavras, da sua presença. Essa lembrança é doce, é acolhedora, me faz sorrir .

Ainda acho que há guerras de um homem só. Mas agora entendo o que você quis dizer. Não há mal nenhum em olhar um pouco pra fora. Em algumas situações, é mesmo o melhor a fazer.

Eu podia agradecer pelo apoio. Podia torcer pra você estar aqui quando a tempestade voltar. Não posso, não quero, nem acho que isso faria sentido pra você. Só o que me resta é esperar que tenha percebido. Não é o tempo, nem qualquer outra coisa que se possa contar. A confiança é o bem mais precioso que eu poderia oferecer.

Quebraram minha cabeça

| | 3 comentários »
Quando eu copiei a brincadeirinha de sexta (último post) do blog da Ana, uma das questões era "o que as outras pessoas pensam sobre você". Obviamente, não soube responder. Mas, essa pergunta me remeteu a outra pergunta que vira e mexe passa pela minha cabeça (e, conseqüentemente, já devo ter escrito sobre isso aqui algumas vezes). Somos quem pensamos que somos ou somos quem os outros pensam que somos?

Calma, calma, não vou me aprofundar nessas questões, afinal hoje é segunda-feira, não é um dia muito propício pra minha filosofia de botequim... rs.

Voltando ao assunto, as respostas de vcs me deram uma idéia, fazer uma colagem, um mosaico composto de fragmentos de mim, ou seria melhor dizer fragmentos de vcs? rs...

O fato é que, de repente, percebi que vcs tinham me dado um quebra-cabeça e não me "fiz de rogada" (essa é da lista "expressões da vovó"... rs), aceitei a brincadeira, eis o resultado...


Violeta da colina

Uma mulher
como outra qualquer do planeta
que ri quando deve chorar
que mistura a dor e a alegria
e possui a estranha mania
de ter fé na vida

Começar de novo...

Uma garota
que tem medo do escuro
que tem medo do inseguro
dos fantasma da sua voz

E contar comigo...

Controlando a minha maluquez
misturada com minha lucidez
Sozinha
Não sei se me levo ou se me acompanho
Sozinha
Tudo parece maior

Vai valer à pena ter amanhecido.

Sonho semeando o mundo real
Vem andar e voa
Trazida por um simples torcer do destino

P.S.: Não pensem que esqueci das músicas que falam sobre vcs. Aliás, essa foi a parte mais interessante da brincadeira... rs.

Brincadeira de sexta (ainda bem que hoje não é quinta)

| | 9 comentários »
Do blog da Ana veio essa brincadeirinha, tentar definições usando músicas. Definições e músicas, vou fingir que não percebi o contra-senso, afinal não sou "estraga prazeres" (esse é mais um dos termos da lista da vovó...rs).

Bom, fiz algumas adaptações e aceitei o desafio. As respostas serão encontradas nas letras das músicas cujos nomes e seus respectivos cantores/autores estão em cada questão.

Seja bonzinho e não me deixe brincar sozinha, a última questão é vc quem responde...

1. Descreva-se: Caçador de mim, Milton Nascimento
2. Onde queria estar agora: Dias claros, Wilson Sideral
3. O que você pensa sobre o amor: Falando de amor, Leoni
4. Como está a sua vida: Smile, Chapplin
5. Se tivesse direito a apenas um desejo: Sem mandamentos, Oswaldo Montenegro
6. O que mais gosta de fazer: Encontros e despedidas, Maria Rita
7. Uma mensagem pra si mesma: Paciência, Lenine
8. Uma mensagem para os outros: Eu apenas queria que vc soubesse, Gonzaguinha
9. O que me "bole" por dentro: Blowing in the wind, Bob Dylan
10. O que as pessoas acham de você: ? (agora é sua vez... rs)

P.S.: A questão 10, de acordo com a brincadeira original, era pra eu responder. Mas como vou saber o que os outros pensam? Além do mais, prefiro jogar buraco à paciência (olha o pensamento impuro... rs). Então, como vcs são extremamente pacientes (já que ainda não me abandonaram), respondam a última questão em seus comentários.

Minha querida amiga Am acabou de melhorar a idéia que já foi da Ana, minha e de alguém antes da Ana (rs). Ao colocar no comentário uma música que fale de mim, coloquem também uma música que falem de vcs, assim eu ainda fico sabendo um pouco mais sobre meus queridos leitores. Está certo, sei que estou abusando da boa vontade de vcs, mas não custa pedir, não é? rs

Mais uma listinha

| | 4 comentários »
A maioria de vcs já sabe o quanto coisas simples me encantam. Também já conhecem a minha mania de fazer listas. Então, por que não juntar as duas coisas? Aliás, existe coisa mais simples e encantadora que uma listinha? Está bom, claro que existe, mas não sejam desagradáveis... rs. Chega de enrolação e vamos à lista...

7 coisas simples que me encantam:

1. sorrisos abertos, daqueles sorrisos com boca e olhos, daqueles que não precisam de sons ou exageros;

2. telefonemas, cartas, cartões, sinais de fumaça... rs... um alô inesperado, num dia comum, sem ser aniversário ou Natal ou qualquer outra data "importante", só pra dizer que estava com saudade e todas essas coisinhas doces que só pessoas queridas podem dizer sem parecer falso ou cafona;

3. crianças, dormindo feito anjos, sorrindo, chorando, correndo, pulando, falando aquelas coisas que fazem tanto sentido que vc se pergunta como é que nunca tinha pensado nisso;

4. quebra-cabeças, fragmentos que se unem a fragmentos mais próximos até chegarem a um todo com sentido, construção peça por peça, a exata noção de que, por menor que seja, se um elo se perder, todo o resto perde a razão de existir;

5. aqueles breves momentos logo antes do nascer do sol e logo depois do pôr do sol... a mistura de cores, a meia luz, a tranqüilidade do que já passou, a expectativa do que está por vir;

6. chá, quente e doce, acompahado por uma boa conversa ou por um bom livro;

7. falar pela metade (mania detestável que tenho de falar as coisas pela metade) e perceber que o outro entendeu exatamente a metade omitida.

Como todas as outras, essa é uma lista interminável. Mas agora preciso ir. Estou atrasada, pra variar. Atrasada pra quê? Pra fazer uma outra coisa bem simples que eu adoro, sair pra rever amigos. Conversar, brindar, falar um monte de bobagem e morrer de rir, simples assim...

Nada menos do que tudo

| | 5 comentários »
Hoje eu quero o nada

Quero o silêncio de quarto vazio
Quero a distância de estrela adormecida
Quero o esquecimento de terreno baldio

Quero o entorpecimento do embriagado
Quero o ócio do dia de folga
Quero o abandono do órfão rejeitado

Desleixo, desapego, desemprego
Despretensão, desligamento, demissão

Oh, tola que sou
Não percebi, contudo,
Que o nada intangível, impossível
Não é nada menos do que tudo

Palavras, brincadeiras e tesouras

| | 6 comentários »
Eu tenho uma relação muito estreita com as palavras. Um longo e rico relacionamento cujos efeitos e prolongamentos se confundem com minha própria história

Na infância, sempre foi muito nítida a minha pouca aptidão pra brincar de casinha. Não é nem que eu achasse chata aquela coisa de ficar ali horas trocando roupas de bonecas e arrumando a disposição dos móveis. Era uma questão mesmo de incompetência, minhas "filhas" não eram nunca as mais arrumadinhas e minha casa nem de longe agradava as outras meninas. Eu simplesmente ficava perdida ali entre roupinhas e "comidinhas" sem saber onde pôr as mãos e, principalmente, onde não pôr as mãos (já que eu sempre acabava derrubando alguma coisa).

Uma hora (na verdade, em minutos) eu acabava cansando de tudo aquilo e elas, as palavras, estavam sempre ali, à minha espera, prontas pra me usarem e se deixarem usar, sem qualquer pudor, sem qualquer cobrança. Daí, eu falava, falava, falava, e, por sorte minha, sempre havia alguém interessado em ouvir porque daquele jogo eu conhecia as ferramentas, sentia-me segura, adequada e era só relaxar e esperar o outro rebater pra continuar a brincadeira.

Aos poucos, fui aprendendo a lidar com a escrita. De repente, um papel em branco deixou de ser um desafio pra se tornar uma promessa. Antes, eu olhava toda aquele espaço vazio e sabia que tinha que fazer um desenho e sabia também que ninguém encontraria qualquer sentido e forma naquele amontoado de rabiscos estranhos. Mas, de repente, ensinaram-me a cobrir o nada com aquelas minhas queridas companheiras tão próximas, tão familiares. Desde então, nunca mais tive um papel (ainda que guardanapos amassados) nas mãos que, em minutos, não estivesse povoado pelos mais diversos pensamentos, sentimentos, devaneios... palavras.

Os anos foram passando e o interesse e afinidades só foram crescendo. Quis saber mais, conhecer melhor suas ferramentas, motivos e origens. A relação foi ficando menos ingênua, menos pueril, afinal tive que sair da redoma e "ganhar a vida" e elas, solidárias e fiéis, encararam a aventura sem qualquer exigência, sem nem reclamar a mudança de ares.

Bom, ainda hoje, estamos nós naquela brincadeira iniciada na infância, eu me utilizo delas com os mais variados objetivos e elas usam e abusam de tudo que sou, de tudo que estou, de tudo que eu nem supunha habitar dentro de mim. Não sei quem é carta, quem é jogador, não importa, aceito qualquer papel nessa brincadeira, de importante só o próximo lance.

P. S.: Já sei o que vc está pensando. Tem razão. Às vezes, muitas vezes, faltam-me as palavras. Na verdade, não são elas que se ausentam, sou eu que, como já disse, acho que quando é preciso escolher muito as palavras, melhor é não dizer nada. Nem sempre o "sentir" cabe em palavras, não sem ser reduzido, adaptado, cortado em pedaços. E eu, como vc pode supor, não tenho muita habilidade com tesouras.

Retrato (3x4) de domingo

| | 4 comentários »
Domingo
Almoço em família
Sonolência dos satisfeitos
Adormecer nos braços do afeto
Olhar o céu da minha terra
Pisar na terra do meu céu

P.S.: É, hoje estou de nariz pintado, brincando de ser feliz...

Até a última noite

| | 6 comentários »
Pesadelos sempre me perseguiram, sempre. Talvez sejam a única companhia constante e ininterrupta de minha vida, os únicos que nunca foram embora, por mais que eu tentasse afastá-los, convencê-los a desistir de mim.

Eles surgiram na infância, eram estórias de seres monstruosos, disformes, bruxas que insistiam em não seguir o roteiro original e sempre acabavam vencendo as pobres princesas, que, por sua vez, não entendiam o que estava acontecendo. Cadê o príncipe? Nada de príncipes, nada de cavalos brancos, aliás nem sapos havia, afinal não eram sonhos cor-de-rosa.

O tempo passou, tão inesperadamente rápido, e ninguém lembrou de avisar aos meus invasivos companheiros noturnos que deviam ter ficado lá atrás, adormecidos, junto de minhas outras lembranças pueris.

Não, ninguém avisou, então, eles, os pesadelos, fizeram suas malas a cada vez que eu juntei todos os trapos e parti. É, eles nunca me deixaram partir sozinha, e não havia nada que eu fizesse que os convencesse de que não sou muito adepta a companheiros inseparáveis.

Hoje, continuo sentindo aquela angustiante sensação de ser personagem de uma estória que não posso controlar, fico ali, totalmente consciente, mas sem conseguir voltar ao silêncio tranqüilo de meu quarto escuro. Fico presa naquele mundo paralelo, sentindo um aperto, um desamparo que machuca, que desestrutura. Até que resolvem me expulsar, me mandarem de volta pra viver mais um pouco, ver mais um pouco, capturar mais imagens e pessoas que serão fragmentadas e misturadas para servirem de pano de fundo às cenas dos próximos capítulos.

Já passou o tempo do desepero, não há mais cama da mamãe pra me refugiar, nem adianta gritar, nem chorar, eles não vão deixar de voltar amanhã ou depois. Passado o tempo em que me debati, parei de lutar, deixo-me afundar até os recônditos de mim mesma, as profundezas da minha alma.

Sei que naqueles angustiantes momentos, estou em contato com tudo que a claridade do dia me permite ocultar, os mais íntimos medos, inconfessáveis desvios, vergonhosas fraquezas. Dói, dói profundamente, de um jeito estranho, sem definições e delimitações, mas deve haver o lado bom de poder nadar na minha própria lama. Até porque, por pior que as coisas estejam no meu "inferninho" particular, eu sempre volto à tona, e cada vez com mais vontade de respirar.

Enfim, sou uma sobrevivente do meu próprio caos, um ser que, a cada acordar, nasce do seu próprio ventre, com a certeza de que vai morrer logo adiante, mas com o alento de que cada manhã não é mais do que uma nova oportunidade e será sempre assim, até a última noite.

P.S.: Não pensem que eu detesto as noites, na verdade, muito pelo contrário, mas esse é um outro assunto...

Viagem de volta

| | 6 comentários »
Você já viajou de costas? Não, não estou bêbada, nem louca (eu acho). Falo daqueles ônibus e vans que têm bancos em que vc viaja de costas para o motorista.

Pois é, estava eu, num daqueles ônibus que levam a gente até a pista do aeroporto pra embarcar, de costas, Bob Dylan cantando, sol acabado de "nascer", céu azul, brisa gelada... O ônibus ia em frente, sem pressa, com a calma de quem está na hora certa, no local exato. E eu, ali sentada, sem saber se estava indo na hora certa, pro local exato, mas com pressa de chegar, de ver, de saber.

Fiquei olhando não pra onde estávamos indo, mas olhando de onde vínhamos. O ponto de partida, o espaço percorrido, as marcas deixadas, o que foi. Nós, desde que nascemos, ouvimos que temos sempre que olhar pra frente, viver o agora e enxergar adiante.

Pois eu, naquele momento, senti que a "vida" estava me dando uma oportunidade de olhar pra trás, olhar de onde eu vinha, por onde tinha andado. Na verdade, era eu mesma que estava me dando esse direito, não foi um presente caído no meu colo, foi uma percepção, uma opção.

Então, passei aqueles cinco minutos pensando em milhões de coisas que tinham passado, que tinham ficado. Ao olhar o caminho que os pneus do ônibus tinham acabado de trilhar, eu revivia os caminhos que eu tinha percorrido com meus próprios pés.

Eu sou uma pessoa que ama o fato de estar viva, que não vive em busca da felicidade, mas que encontra partes de felicidade por viver. Não tenho muita paciência pra ficar medindo o passado, fazendo contas, calculando os saldos.

Mas, naquele momento, percebi o quanto o que passou não passou, ficou, estava ali, fazendo parte de mim, indo junto comigo, não só naquele trecho Rio-Salvador, mas por toda a viagem.

Perdida entre roupas, encontro-me com palavras...

| | 2 comentários »
Decididamente arrumar as malas é a pior parte da viagem. Sempre acho que estou esquecendo alguma ou várias coisas. Além da inevitável sensação de que vou precisar de algo que optei por não levar comigo.

Bom, perdida entre roupas, papéis e providências, encontro-me aqui, entre palavras...

É, queridos, pé na estrada de novo. Não vou dizer que o "trânsito" em si seja um problema, realmente não é. Mas, neste ano, estou acumulando mais milhas do que comissária de bordo... rs... Desde o começo do ano, não faço nada além de controlar os efeitos de minha última viagem e minimizar os efeitos da próxima.

Mas, quer saber? Ficar sentada, olhando a vida pela janela não seria mesmo uma opção considerável. Então, só o que me resta é pagar o custo de ser eu mesma. Está bom, eu sei que essa foi meio piegas, mas não é verdade? A gente sempre tem o ônus de ser quem é, ou por ser como é, nada nessa vida traz só "bônus", ou traz?

Então, como pra chegar, é necessário partir, lá vou eu...

Até sexta-feira, queridos.

P.S.: Já ia esquecendo, obrigada pelos comentários ao post anterior. Não pretendo mesmo parar de escrever. Estava me referindo especificamente a ontem. Entendam como uma rápida "crise existencial", está bem?... rs...

| | 5 comentários »
Hoje não tenho nada de inspirado ou espirituoso pra escrever. "Então não deveria escrever." é o que vc deve estar pensando. Mas acabei vindo parar aqui e confesso que não estou com ânimo de pensar nos possíveis motivos. Aliás, só o que queria agora é não pensar, tirar férias de tudo que me faça refletir, tirar folga de mim mesma. "Queria" porque não quero mais? Não. Queria porque não acredito nessa possibilidade.

O que está acontecendo? Nada demais, só cansaço. Às vezes, um momento parece durar mais que uma vida inteira...

Muito do pouco X Pouco do muito

| | 3 comentários »
Estava lendo um post no blog da Dani e me peguei pensando nos espaços que as pessoas ocupam em nossas vidas e nos permitem ocupar nas delas.

Algumas pessoas nos reservam um "lugar" privilegiado em suas vidas, nos dão importância, atenção, tempo e tudo mais de que dispuserem, mas simplesmente não nos marcam. Sabe aqueles filmes "água-com-açúcar" que te divertem, até te fazem chorar, mas ao fim, vc já não lembra direito o nome?

Outras pessoas nos oferecem momentos fugazes, pequenas frestas por onde podemos ver partes mal-iluminadas, por onde podemos tentar entrar meio espremidas. Mas aquele pouco oferecido faz toda a diferença, marca, instiga, transforma.

Normal isso causar certa frustração, se aquele pouco já te parece tão impactante, natural a vontade de ter mais, de ver mais, de ser mais. Além disso, não é nada lisonjeiro perceber que alguém simplesmente não te elegeu o "dono" daquela mesa com a plaquinha de "reservado".

Quando a relação é de amizade, há a doce possibilidade de viver e conviver com tudo, com todos. Ficar à vontade em salas arejadas, iluminadas, embora meio vazias, espremer-se em cubículos meio obscuros, que te causam certa falta de ar e taquicardia com tanta informações, sensações, incertezas.

Entretanto, quando a relação é "amorosa" (na falta de um termo mais adequado), ainda que a pessoa não seja lá muito fã de monogamia, acaba definindo prioridades, elencando preferências e, no caso, preferidos. Eis que surge a questão: Contentar-se com o muito do pouco ou aceitar o pouco do muito?

Não espera que eu responda, não é? Até acho que não há uma resposta determinada pra essa pergunta. Acho que as pessoas vão decidindo caso a caso, e deixando o tempo confirmar se a escolha foi boa ou não. Na verdade, talvez, nem sejamos nós que decidamos essas coisas, mas isso já é assunto pra outro dia...

Roteirista e personagem

| | 6 comentários »

Hoje acordei com uma enorme dor de cabeça... aff... Aliás, por pura amizade, vou te poupar dos detalhes anteriores à dor de cabeça... rs... Imagino em que pensou, mas não... rs... estava me referindo a muitos minutos abraçada ao vaso sanitário fazendo o clássico juramento do bêbado (o que passa mal, é claro). Já sei, já sei, pensou que eu ia dizer que jurei nunca mais beber. Não !!! Jurei que vou escolher (bem) melhor o acompanhamento. Decididamente, comidas cheias de gordura me fazem mal.

É queridos, último fim de semana em casa antes de ir pro Rio pra uma bateria de consultas, exames, etc, etc, etc, portanto, até a ressaca tem uma certa "graça". Afinal, se sentir dor é algo inerente a estar vivo, inevitável e inadiável, antes as "dores de viver" (ressaca, dor de amor, decepção, arependimento) do que as dores de dente.

Fecho o post de domingo repetindo algo que acabei de escrever pro La, eu realmente gosto de escrever, mas viver é ainda melhor. É verdade, entre ser roteirista e personagem, fico com a última opção. Aliás, até parece que nós só podemos exercer um único papel nessa e(hi)stória. Entre as duas opções, fico com as duas e mais algumas, é claro... rs.

Quem sabe eu não toque?

| | 7 comentários »
"Todo Carnaval tem seu fim

Todo dia um ninguém José
Acorda já deitado
Todo dia ainda de pé
O Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer
Raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com fé
De quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa
Porque assim ela é chamada
Toda bossa é nova e você
Não liga se é usada
Todo carnaval tem seu fim
Todo carnaval tem seu fim
E é o fim
É o fim

Deixa eu brincar de ser feliz
Deixa eu pintar o meu nariz
Deixa eu brincar de ser feliz
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol
Quem sabe eu não toco?
Todo o samba tem um refrão
Pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem
Acorda já deitado
Toda folha elege um alguém
Que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz
Deixa eu pintar o meu nariz
Deixa eu brincar de ser feliz
Deixa eu pintar o meu nariz"

P.S.: Não sei de quem é a letra dessa música. Quanto à voz, ainda estou decidindo se gosto mais de Maria Rita ou Los Hermanos.

Sempre gostei dessa música, da letra, da melodia. Mas, hoje especialmente, ela diz muito do que estou sentindo.

Nunca fui do tipo Pollyanna (daquelas que acreditam que o mundo é cor-de-rosa com bolinhas brancas), vejo o que está acontecendo, toda dureza, hipocrisia, injustiça, cinismo. Também me irrito com a corrupção que assola esse país, com a guerra civil não admitida, com essa mania irritante de pôr a culpa no sistema sempre que não sabem resolver um problema, com as operadoras de telemarketing e seu gerundismo, com tantas outras coisas mais...

Mas, optei (nem sei se é uma questão de opção) por não deixar que morra em mim um certo frescor que até eu, muitas vezes, acho despropositado. É isso, eu brinco de ser feliz. Não se engane, essa brincadeira não é de "cobra cega" (se é pra comparar comigo, melhor a cobra do que a cabra...rs), não há vendas, não há olhos fechados. Também não é "pique-esconde", tipo o mundo que se exploda enquanto fico aqui escondidinha.

Na verdade, é só uma questão de olhar, de postura, uma crença de que é possível passar pela lama sem ser "tragada" por ela. Sei que vou sujar os pés, talvez bem mais, mas não vou ficar parada esperando afundar até o último fio de cabelo. Até porque, o dia sempre insiste em nascer, com ou sem mim.

Enfim, se toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toque?

Alegria de "coffee break"

| | 4 comentários »
Sabe um daqueles dias em que parece que vc já acordou correndo? Foi o que aconteceu hoje, milhões de coisas a resolver, ajeitar os efeitos da última viagem, tentar amenizar os efeitos da próxima viagem... aff...

Só que, como ainda insisto em achar que sou "dona do meu tempo", no meio da tarde, parei tudo e me dei ao luxo de 10 minutos de nada. Foi isso mesmo que vc leu, NADA. Porta da sala fechada, xícara de café em punho, celular desligado (já disse que detesto meu celular?), um "não estou pra ninguém" (essa expressão é horrorosa e sem sentido, mas foi exatamente a que eu usei) expresso e indiscutível, silêncio externo e interno também, até a pensar eu estava determinada a me negar por aqueles preciosos 10 minutos.

Olhei pela janela e vi uma cena que me chamou a atenção. Pronto, acabou-se, já estava pensando... rs.

Um avô e um neto. Está certo, não havia como saber que era mesmo essa a relação de parentesco, aliás nem dava pra saber se havia mesmo qualquer ligação consangüínea entre os dois. Mas, na minha cabeça foi essa a relação que criei entre eles e não discuta porque a história deles agora passou a ser a minha estória.

Voltando ao assunto, estavam lá os dois, o garoto, de uns dois anos, vinha no colo do senhor que apontava em todas as direções, mostrando ora um "bichinho" estranho que andava pela calçada, ora um pássaro que voava bem lá no alto. O menino, empolgado, falava e gesticulava para um avô de sorriso largo e ar interessado.

Fiquei ali olhando aquela cena. O homem maduro apresentando o "mundo" àquela criança, que, por sua vez, mostrava ao avô um novo olhar pra coisas tantas vezes já vistas.

Quem será que via com mais clareza o que os rodeava? Quem dos dois realmente enxergava o que a "vida" lhes apresentava? Sinceramente, não sei as respostas. Na verdade, essas são perguntas absolutamente irrelevantes pra mim e aposto que pra eles também.

Naquele momento, entre aquelas duas pessoas, não importava quem "sabia" mais, quem estava ensinando a quem. Não havia posições fixas de professor e aluno. O que havia eram duas pessoas, com suas características individuais, compartilhando um momento de observação, de descoberta, de troca.

Fiquei ali, parada, pensando no quão poética era aquela cena. Lembrei do post da Ana sobre o quanto esperamos situações grandiosas pra fazer com que valha à pena estar vivo. De repente me senti alegre, alegre por ter me dado o direito de olhar pela janela, alegre por ter "conhecido" aqueles dois, alegre, principalmente, por não ter perdido a capacidade de me sentir assim... simplesmente alegre...

Presentes que gostaria de receber...

| | 6 comentários »
Alter leu a listinha de coisas a fazer antes de morrer e pensou em coisas que gostaria que fizessem por ele antes de morrer. Como uma coisa leva a outra, eu pensei em presentes que eu gostaria de receber antes de morrer... Onde vai dar isso hein? rs...

5 presentes que eu gostaria de ganhar:

1. um pacote de jujubas, só as laranjas, minhas preferidas (quem disse que tudo tem que ter lados bom e ruim? rs);

2. um poema (sem rimas, sem métodos, sem limites);

3. um livrinho daqueles "Minutos de Sabedoria" (rs... eu admito a cafonice, mas quando fui comprar um, a vendedora falou com tanta certeza que esse livro não poderia ser comprado pra uso próprio, teria que ser um presente, e me olhou com aquele ar de "coitadinha, nem tem alguém que lhe dê o livro", que fui embora com cara de caneca... rs);

4. uma música (acho que vou comprar uma casa com sacada pra completar a cena... rs);

5. um desenho (a mistura de cores, o nascer de algo a partir de um papel em branco, essas coisas me encantam).

Obs: Eu poderia incluir umas daquelas coisas charmosas (e úteis) que melia tem lá no blog dela, quem sabe com a convivência eu fique menos simplória... rs.

Obs2: Alter, nada de jujubas vermelhas no meu pacote hein... rs.

Conversa de domingo

| | 6 comentários »
Perguntaram ao Dalai Lama: "O que mais te surpreende na Humanidade?"

Ele respondeu:

"Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido."

Não sei se foi a listinha, nem se foi a conversa sempre instigante, nem sempre indolor, ou se foi o domingo (ócio reflexivo), o fato é que me lembrei dessas palavras e as achei mais adequadas pra expressar no que andei pensando hoje do que minha verborragia (como diria melia) usual.

Por que vc só quer tocar o intangível? Por que quer o que não pode ser dado e nem percebe o que foi oferecido só a vc? Por que exige tanto? Por que se defende tanto? Por que reclama tanto? Por que apagou o caminho até aqui? Por que vive como se nunca tivesse vivido? Por quê?

A menina que só vê céu

| | 6 comentários »
A menina que só vê céu
Muda as rimas dos poemas alheios
Por nunca saber como começar

A menina que só vê céu
Constrói castelos de areia
E nem tem onde morar

A menina que só vê céu
Planeja soluções pra guerra do Iraque
Chora as dores de desconhecidos
Mas, à pouca distância, não consegue enxergar

A menina que só vê céu
Viaja na imensidão, caminha entre estrelas
E tropeça aqui na terra
Flutua porque não sabe andar

P.S.: Está vendo só? O passado não é só o que ficou pra trás, tapado, acabado, perdido. O passado também é amigo, paciente, solidário e até generoso. No passado moram meninas que só viam o céu... Pois é, Sr. Passado, já que a maioria dessas imagens foi vc quem criou, esse poderia bem se chamar Soneto do Passado... rs.