19:45 hs e eles já estavam bem perto do aeroporto. Enquanto Henrique dirigia, semblante tranquilo, sereno, ela pensava. Era estranho como tudo dava certo quando você decidia fazer a escolha mais sensata. Não que ela achasse sensato fingir que estava namorando só pra agradar a mãe. Decididamente não achava. Mas era nítido que Henrique encaixava-se perfeitamente no tipo "a escolha certa".
Ele havia chegado dez minutos antes do horário marcado pra buscá-la. Ela, por uma dessas coisas inexplicáveis, já estava pronta. Não pegaram engarrafamento. E contra todas as previsões, quando a mãe desembarcasse, eles já estariam no aeroporto. Estacionaram o carro numa vaga ótima. Aquilo já estava ficando estranho. Ela começou a ter uma sensação esquisita de que estava tudo bom demais pra ser verdade. Ei, não era mesmo verdade. Era um teatro. Um espetáculo pra apenas uma espectadora. A mãe. Ainda não entendia por que estava fazendo aquilo com sua própria mãe, com um amigo tão querido, consigo mesma. O fato é que nunca tinha deixado a mãe interferir nas suas escolhas. O que havia mudado? Não havia mais tempo pra resposta. Início do espetáculo.
- Querida !!!
- Mamãe, que saudade !!!
- É um imenso prazer conhecê-lo. Sou Lourdes, a sua sogra.
- Mamãe !!!
- E eu sou Henrique, o candidato a seu genro.
- Acho que vamos nos entender muito bem, Henrique.
(...)
Foi só entrar no carro e a pergunta voltou, só que agora ecoava com uma urgência avassaladora. O que havia mudado? Por que ela, que sempre agira de acordo com o que achava certo, estava permitindo que todos vivessem aquela situação ridícula? É bem verdade que tanto a mãe, quanto Henrique pareceram muito à vontade em seus papéis. Talvez porque ambos se encaixassem muito bem nas personagens que representavam. Sua mãe havia nascido pra representar o papel de uma perfeita matriarca, o que incluía ser uma sogra invasiva e efusiva. Quanto a Henrique, ele estava nitidamente curtindo a noite, isso estava estampado em seu semblante enquanto ele dirigia em direção à casa dela depois de deixarem Lourdes no aeroporto. Aliás, ele tinha mesmo todos os motivos pra estar satisfeito consigo mesmo.
A "sogra" ficara totalmente encantada por ele, o jantar fora digno mesmo de uma peça teatral, com destaque para o momento em que Henrique narrou o suposto primeiro beijo do casal, terminando sua estória com um beijo daqueles, tudo sob o olhar de aprovação da mãe, que aplaudia discretamente a cena. Aplausos. Fim do espetáculo? Claro que não. Depois do beijo inesperado, a noite prosseguiu, com direito a galanteios elegantes de Henrique, olhares satisfeitos da mãe e a insistente sensação que ela tinha de que estava tudo perfeitinho demais pra ser verdade.
A verdade é que aquela noite havia sido uma grande farsa. E enquanto ele estacionava o carro, uma súbita certeza tomou conta dela e a fez estremecer: O espetáculo ainda não havia terminado !!!
- Você esteve tão calada por toda a noite. Parecia muito incomodada.
- Digamos que confortável não é a palavra mais adequada pra descrever a minha situação naquele jantar.
- Mentir pra uma senhora tão adorável quanto sua mãe não foi mesmo a atitude mais louvável da minha vida. Mas tivemos um bom motivo.
- É justamente isso que está me incomodando. Não sei se foi mesmo por minha mãe que fiz parte desse teatrinho ridículo.
- Não? E por quem seria?
- Por mim mesma. Talvez eu tenha tido vontade de viver esse momento "perfeitinho". Um homem normal, um programa tranquilo, uma mãe satisfeita com minhas escolhas.
- Um homem normal? Isso foi um elogio?
- Pode ter certeza de que foi. Nos últimos anos tenho me envolvido com homens nada convencionais e, consequentemente, tenho tido relacionamentos surpreendentes. E como você sabe, supresas podem ser boas ou ruins.
- Sabe o que acho? Você precisa de um homem que te ofereça estabilidade emocional, um homem que saiba exatamente o que quer e, principalmente, quem quer ao seu lado. Pode ser emocionante relacionar-se com gênios incompreendidos, mas também deve ser bem cansativo.
- Talvez.
- Eu quero ficar com você. Soube disso desde a primeira vez em que você sorriu pra mim. Dá uma chance pra mim, pra nós, pra você mesma.
Henrique a beijou. De repente, aquela sensação de que estava tudo certinho demais tornou-se sufocante. Ela não entendia por que se sentia assim, afinal a mãe já estava devidamente acomodada em um avião, indo ao encontro de seu irmão. Tudo dera certo. A farsa já havia acabado. Será mesmo? Será que ela ainda estava mentindo? Será que não mentia pra si própria? As perguntas brotavam aos turbilhões, ela não tinha respostas. Não sabia o que dizer pra si mesma. Não sabia o que dizer pra Henrique, que a olhava, enquanto acariciava seu rosto.
- Eu preciso ir.
- Atrasada de novo?
- Muito... rs.
- Posso te ligar amanhã?
- Ah sim, claro. Afinal, se você não me ligar no dia seguinte vou me sentir rejeitada... rs.
- Você é a mulher mais confusa e mais encantadora que eu conheço.
Agora foi ela que o beijou. Sorriu e saiu do carro. Estava atrasada. Muito atrasada. Havia muitas perguntas a serem respondidas. Mas antes precisava encontrar uma pessoa. Ela mesma. Entrou em casa, pegou a chave do carro e saiu.
Próximo capítulo: E tudo acaba onde começou.
A escolha "certa"
Ela estava atrasada. Novamente. Teria que trabalhar até (bem) mais tarde pra compensar o atraso. Tudo bem. Não seria mesmo uma boa idéia chegar cedo em casa e ter tempo pra pensar no jantar da noite seguinte.
O encontro seria um verdadeiro desastre. Nem tanto pelo tempo que ficaria ouvindo as reclamações maternas, mas principalmente pela preocupação que veria em seus olhos. Mas não tinha outro jeito. A outra opção possível também não era nada animadora. Enquanto ela estivesse sozinha, a mãe ainda teria esperança de que a filha conhecesse alguém que se encaixasse no perfil candidato a marido. Mas, ao saber que ela tinha alguém que, na sua classificação absurda, enquadrava-se no grupo dos intelectuais bêbados e deprimidos, iriam por terra todas as suas expectativas.
Trancava o carro com uma das mãos enquanto tentava equilibrar a pilha de papéis com a outra, quando ouviu uma voz sussurrando bem próximo de seu ouvido:
- Atrasada de novo?
- Isso não é novidade. Surpreendente é VOCÊ estar atrasado.
- Mas não estou. Acabo de chegar de uma reunião.
- Ah bem. Você sabe que é meu protótipo de homem perfeito, não sabe? Se eu descobrir qualquer defeito em você, nunca mais vou me recuperar da decepção.
- Você sempre debochando de mim.
- Eu não estou debochando, você é realmente o homem dos sonhos de qualquer mulher.
- Só que você não é qualquer mulher.
- Não, não sou, sou do tipo que gosta dos caras errados. Sabe como é?
- Então vamos resolver esse problema. Sai comigo amanhã? Abriu um restaurante especializado na culinária italiana, sei que você gosta. Vamos?
- Não posso, vou jantar com minha mãe.
- Vamos os três, oras.
- Não vai dar. Minha mãe me ligou hoje cedo, um amigo atendeu meu celular e ela cismou que ele é meu namorado. Quer que eu o leve pra jantar com ela.
- E você vai fazer o quê?
- Vou levá-la pra jantar e tentar explicar que não estou condenada à solidão eterna só porque não tenho um candidato a marido.
- Candidato a marido?
- Coisas da minha mãe. Ela não quer que eu tenha um namorado. Ela quer que esteja com alguém que tenha o perfil de futuro bom marido.
- Tipo um cara perfeito? Acho que vi você falando de um desses há pouco tempo.
- Não !!! Nem pense nisso, não vou te pôr numa furada dessas, até eu pediria dispensa desse jantar se pudesse.
- Não acha que já estou bem crescido pra poder tomar minhas próprias decisões?
- Você faria mesmo isso por mim?
- Por você não, por mim. Faz tempo que quero sair com você e não vai ser nada desagradável fingir ser seu candidato a marido. Se rolarem uns beijinhos então, pago até a conta.
- Você pagaria a conta de qualquer jeito. Você é um bom moço, lembra?
- É, pagaria. Mas nós temos que ser bem realistas. Sua mãe não vai acreditar num casal que não se beija.
- Espertinho... rs. Só não estou encontrando um bom motivo pra EU fazer uma coisa dessas. Sou maior de idade, independente, saí de casa há séculos. Por que inventaria um namorado?
- Pra agradar sua amada mãe que você vê tão pouco.
- Mas e depois?
- Depois você diz que descobriu que eu sou um cafajeste, mulherengo. Aposto que ela não vai lamentar o fim do nosso romance.
- Você falando assim parece muito simples.
- A outra resolução é mais simples ainda. Você descobre que sou o homem da sua vida, começamos a namorar de verdade e quem sabe acabamos realizando o sonho de sua mãe. Acho mesmo que anda precisando de um homem que cuide de você. Por falar nisso, me dá aqui essa pilha de papéis, eu levo.
- Minha mãe vai adorar você, sabia?
- A que horas te pego amanhã?
- Às 19:30hs. E por favor, NÃO SE ATRASE.
- Eu nunca me atraso. E você?
- Eu? Vou começar a me vestir às cinco da tarde e vou ficar bem longe do telefone. Dessa vez, não posso atrasar. Por falar nisso...
- Está muito atrasada.
- Muito. Preciso ir.
- Não vai dar um beijo em seu futuro marido?
- Beijinho? Só depois do casamento, querido... Afinal, eu sou ou não sou uma mocinha casadoira? ... rs... Até amanhã.
- Até.
P.S.: Cenas dos próximos capítulos: Uma saída, E tudo acaba onde começou.
O encontro seria um verdadeiro desastre. Nem tanto pelo tempo que ficaria ouvindo as reclamações maternas, mas principalmente pela preocupação que veria em seus olhos. Mas não tinha outro jeito. A outra opção possível também não era nada animadora. Enquanto ela estivesse sozinha, a mãe ainda teria esperança de que a filha conhecesse alguém que se encaixasse no perfil candidato a marido. Mas, ao saber que ela tinha alguém que, na sua classificação absurda, enquadrava-se no grupo dos intelectuais bêbados e deprimidos, iriam por terra todas as suas expectativas.
Trancava o carro com uma das mãos enquanto tentava equilibrar a pilha de papéis com a outra, quando ouviu uma voz sussurrando bem próximo de seu ouvido:
- Atrasada de novo?
- Isso não é novidade. Surpreendente é VOCÊ estar atrasado.
- Mas não estou. Acabo de chegar de uma reunião.
- Ah bem. Você sabe que é meu protótipo de homem perfeito, não sabe? Se eu descobrir qualquer defeito em você, nunca mais vou me recuperar da decepção.
- Você sempre debochando de mim.
- Eu não estou debochando, você é realmente o homem dos sonhos de qualquer mulher.
- Só que você não é qualquer mulher.
- Não, não sou, sou do tipo que gosta dos caras errados. Sabe como é?
- Então vamos resolver esse problema. Sai comigo amanhã? Abriu um restaurante especializado na culinária italiana, sei que você gosta. Vamos?
- Não posso, vou jantar com minha mãe.
- Vamos os três, oras.
- Não vai dar. Minha mãe me ligou hoje cedo, um amigo atendeu meu celular e ela cismou que ele é meu namorado. Quer que eu o leve pra jantar com ela.
- E você vai fazer o quê?
- Vou levá-la pra jantar e tentar explicar que não estou condenada à solidão eterna só porque não tenho um candidato a marido.
- Candidato a marido?
- Coisas da minha mãe. Ela não quer que eu tenha um namorado. Ela quer que esteja com alguém que tenha o perfil de futuro bom marido.
- Tipo um cara perfeito? Acho que vi você falando de um desses há pouco tempo.
- Não !!! Nem pense nisso, não vou te pôr numa furada dessas, até eu pediria dispensa desse jantar se pudesse.
- Não acha que já estou bem crescido pra poder tomar minhas próprias decisões?
- Você faria mesmo isso por mim?
- Por você não, por mim. Faz tempo que quero sair com você e não vai ser nada desagradável fingir ser seu candidato a marido. Se rolarem uns beijinhos então, pago até a conta.
- Você pagaria a conta de qualquer jeito. Você é um bom moço, lembra?
- É, pagaria. Mas nós temos que ser bem realistas. Sua mãe não vai acreditar num casal que não se beija.
- Espertinho... rs. Só não estou encontrando um bom motivo pra EU fazer uma coisa dessas. Sou maior de idade, independente, saí de casa há séculos. Por que inventaria um namorado?
- Pra agradar sua amada mãe que você vê tão pouco.
- Mas e depois?
- Depois você diz que descobriu que eu sou um cafajeste, mulherengo. Aposto que ela não vai lamentar o fim do nosso romance.
- Você falando assim parece muito simples.
- A outra resolução é mais simples ainda. Você descobre que sou o homem da sua vida, começamos a namorar de verdade e quem sabe acabamos realizando o sonho de sua mãe. Acho mesmo que anda precisando de um homem que cuide de você. Por falar nisso, me dá aqui essa pilha de papéis, eu levo.
- Minha mãe vai adorar você, sabia?
- A que horas te pego amanhã?
- Às 19:30hs. E por favor, NÃO SE ATRASE.
- Eu nunca me atraso. E você?
- Eu? Vou começar a me vestir às cinco da tarde e vou ficar bem longe do telefone. Dessa vez, não posso atrasar. Por falar nisso...
- Está muito atrasada.
- Muito. Preciso ir.
- Não vai dar um beijo em seu futuro marido?
- Beijinho? Só depois do casamento, querido... Afinal, eu sou ou não sou uma mocinha casadoira? ... rs... Até amanhã.
- Até.
P.S.: Cenas dos próximos capítulos: Uma saída, E tudo acaba onde começou.
Prólogo de uma farsa
- Acorda, sua mãe no telefone.
Como assim "sua mãe no telefone"? Até onde conseguia se lembrar da noite anterior, ela estava dormindo na casa dele. Como a mãe a encontrara lá? O celular. Ele havia atendido o celular.
- Alô.
- Minha filha, estou tão feliz. Até que enfim está namorando. Por que não me contou? Como ele é? Não é nenhum intelectual bêbado e deprimido, é?
- Mamãe, às vezes tenho a nítida sensação de que a senhora foi inquisidora na última vida.
- Última vida. Deixa de bobagem. A vida é só uma, menina. Você já tem quase 30 anos e fica aí desperdiçando beleza e saúde. Quando despertar, vai estar velha e solitária. Que homem vai querer casar com uma velha solitária?
- Ah, mamãe, adoro essa sua associação: casamento feliz igual à vida feliz.
- Não seja irônica com sua mãe.
- Tudo bem. Posso te ligar mais tarde? Já devo estar atrasada pro trabalho.
- Ainda não disse por que liguei.
- Não ???? Então, diga.
- Estou indo conhecer a namorada do seu irmão, parece que eles vão ficar noivos. Vou fazer uma conexão aí, amanhã à noite. Você me pega no aeroporto, jantamos, nós duas e o namorado que você estava escondendo e depois vocês me deixam no aeroporto de novo.
- Jantamos? Nós duas e meu namorado? Amanhã?
- Você tem um comrpomisso mais importante do que jantar com sua mãe e seu namorado?
- Ele não...
- Estou mesmo muito feliz com a notícia. Já estava ficando preocupada. Estava até com medo de você ser lésbica.
- E se eu fosse lésbica? Qual seria o problema?
- Nenhum, mas você não poderia casar, ter filhos.
- Não, mamãe, decididamente não vou voltar a esse assunto. A que horas a senhora chega amanhã?
- Às 20hs. Não se atrase.
- Não atrasarei.
- Você sempre atrasa.
- Mas dessa vez não estarei falando com a senhora no telefone ao invés de estar me vestindo pra sair.
- Então agora sou culpada por todos os seus atrasos?
- Não, mamãe, todos não, mas o de hoje, a senhora será se não me deixar desligar.
- Diga ao... Como é mesmo o nome dele?
- Até amanhã, mamãe.
Ela desligou o celular e foi até a cozinha. O perfume do café já se espalhara por todo o pequeno apartamento. Mas não era só o cheiro do café que a fizera ir até a cozinha.
- Me dá um bom motivo pra ter atendido meu celular.
- Ele estava tocando.
- Esse é o bom motivo?
- Esse é o único motivo. Na verdade, eu achei que fosse o único motivo quando resolvi atender. Agora sei que houve outro.
- Ah, é? Qual?
- Salvar sua mãe da angústia de achar que sua filha é uma encalhada. Quer dizer que vamos ter jantar em família amanhã?
- Vamos é muita gente, cara pálida. EU vou jantar com minha mãe amanhã.
- E você vai decepcionar sua querida mãe?
- E você não faria o mesmo se eu te levasse ao tal jantar? Olha só, minha mãe não quer que eu tenha alguém. Ela quer que eu arrume um candidato a marido, alguém que vá me dar filhos e envelhecer comigo na varanda de casa. Você tem que admitir que não se enquadra no perfil.
- Nem você.
- Verdade. Mas ela não se dá conta disso. Portanto, levar você pra conhecê-la a decepcionaria tanto quanto não levar.
- Pelo menos, ela ia ter certeza de que você não é lésbica.
Ele sorriu de lado, como sempre fazia quando sabia que a tinha irritado. Pegou-a pela cintura e a puxou pra junto de seu corpo. Ela chegaria atrasada no trabalho. Sua mãe tinha razão, nem sempre era ela a responsável pelos atrasos da filha.
P.S.: Cenas dos próximos capítulos: A escolha "certa", Uma saída, E tudo acaba onde começou.
Como assim "sua mãe no telefone"? Até onde conseguia se lembrar da noite anterior, ela estava dormindo na casa dele. Como a mãe a encontrara lá? O celular. Ele havia atendido o celular.
- Alô.
- Minha filha, estou tão feliz. Até que enfim está namorando. Por que não me contou? Como ele é? Não é nenhum intelectual bêbado e deprimido, é?
- Mamãe, às vezes tenho a nítida sensação de que a senhora foi inquisidora na última vida.
- Última vida. Deixa de bobagem. A vida é só uma, menina. Você já tem quase 30 anos e fica aí desperdiçando beleza e saúde. Quando despertar, vai estar velha e solitária. Que homem vai querer casar com uma velha solitária?
- Ah, mamãe, adoro essa sua associação: casamento feliz igual à vida feliz.
- Não seja irônica com sua mãe.
- Tudo bem. Posso te ligar mais tarde? Já devo estar atrasada pro trabalho.
- Ainda não disse por que liguei.
- Não ???? Então, diga.
- Estou indo conhecer a namorada do seu irmão, parece que eles vão ficar noivos. Vou fazer uma conexão aí, amanhã à noite. Você me pega no aeroporto, jantamos, nós duas e o namorado que você estava escondendo e depois vocês me deixam no aeroporto de novo.
- Jantamos? Nós duas e meu namorado? Amanhã?
- Você tem um comrpomisso mais importante do que jantar com sua mãe e seu namorado?
- Ele não...
- Estou mesmo muito feliz com a notícia. Já estava ficando preocupada. Estava até com medo de você ser lésbica.
- E se eu fosse lésbica? Qual seria o problema?
- Nenhum, mas você não poderia casar, ter filhos.
- Não, mamãe, decididamente não vou voltar a esse assunto. A que horas a senhora chega amanhã?
- Às 20hs. Não se atrase.
- Não atrasarei.
- Você sempre atrasa.
- Mas dessa vez não estarei falando com a senhora no telefone ao invés de estar me vestindo pra sair.
- Então agora sou culpada por todos os seus atrasos?
- Não, mamãe, todos não, mas o de hoje, a senhora será se não me deixar desligar.
- Diga ao... Como é mesmo o nome dele?
- Até amanhã, mamãe.
Ela desligou o celular e foi até a cozinha. O perfume do café já se espalhara por todo o pequeno apartamento. Mas não era só o cheiro do café que a fizera ir até a cozinha.
- Me dá um bom motivo pra ter atendido meu celular.
- Ele estava tocando.
- Esse é o bom motivo?
- Esse é o único motivo. Na verdade, eu achei que fosse o único motivo quando resolvi atender. Agora sei que houve outro.
- Ah, é? Qual?
- Salvar sua mãe da angústia de achar que sua filha é uma encalhada. Quer dizer que vamos ter jantar em família amanhã?
- Vamos é muita gente, cara pálida. EU vou jantar com minha mãe amanhã.
- E você vai decepcionar sua querida mãe?
- E você não faria o mesmo se eu te levasse ao tal jantar? Olha só, minha mãe não quer que eu tenha alguém. Ela quer que eu arrume um candidato a marido, alguém que vá me dar filhos e envelhecer comigo na varanda de casa. Você tem que admitir que não se enquadra no perfil.
- Nem você.
- Verdade. Mas ela não se dá conta disso. Portanto, levar você pra conhecê-la a decepcionaria tanto quanto não levar.
- Pelo menos, ela ia ter certeza de que você não é lésbica.
Ele sorriu de lado, como sempre fazia quando sabia que a tinha irritado. Pegou-a pela cintura e a puxou pra junto de seu corpo. Ela chegaria atrasada no trabalho. Sua mãe tinha razão, nem sempre era ela a responsável pelos atrasos da filha.
P.S.: Cenas dos próximos capítulos: A escolha "certa", Uma saída, E tudo acaba onde começou.
A ressaca e seus desdobramentos existenciais
- Que cara é essa?
- Ressaca.
- Ih, nem me fale. No sábado passado, acordei numa ressaca atroz, olhei pro homem que dormia a meu lado e tive que perguntar: "Quem é você?". Imagine que situação deprimente.
- Deprimente foi a situação que vivi hoje. Acordei numa ressaca atroz, olhei pra mim mesma e tive que perguntar: "Quem é você?".
- Ressaca.
- Ih, nem me fale. No sábado passado, acordei numa ressaca atroz, olhei pro homem que dormia a meu lado e tive que perguntar: "Quem é você?". Imagine que situação deprimente.
- Deprimente foi a situação que vivi hoje. Acordei numa ressaca atroz, olhei pra mim mesma e tive que perguntar: "Quem é você?".
E assim os planos adormeceram
Passei toda a noite arquitetando uns planos que me pareceram muito bons.
Dei forma, consistência e fundamento a cada um deles.
Acalentei-os num abraço maternal. Até os amamentei pra que crescessem sadios e pudessem caminhar com suas próprias pernas.
Falei-lhes ao pé do ouvido palavras de confiança para que eles não se deixassem abater pelas dificuldades que encontrariam ao sair.
Quando os senti prontos pra ganhar o mundo, caminhei até a janela. Escancarei as duas bandas para que eles se sentissem livres pra voar.
Surpresa.
Minha atenção aos meus queridos planos tinha sido tamanha que nem percebera, o dia já havia amanhecido.
A noite partira de fininho, nem se despediu.
Fechei a janela e com toda doçura que encontrei n'alma, expliquei aos planos nascituros:
- É a manhã, o sol já nasceu, hora de dormir.
Dei forma, consistência e fundamento a cada um deles.
Acalentei-os num abraço maternal. Até os amamentei pra que crescessem sadios e pudessem caminhar com suas próprias pernas.
Falei-lhes ao pé do ouvido palavras de confiança para que eles não se deixassem abater pelas dificuldades que encontrariam ao sair.
Quando os senti prontos pra ganhar o mundo, caminhei até a janela. Escancarei as duas bandas para que eles se sentissem livres pra voar.
Surpresa.
Minha atenção aos meus queridos planos tinha sido tamanha que nem percebera, o dia já havia amanhecido.
A noite partira de fininho, nem se despediu.
Fechei a janela e com toda doçura que encontrei n'alma, expliquei aos planos nascituros:
- É a manhã, o sol já nasceu, hora de dormir.
Horários, hábitos e incoerências
- Oi. Está melhor?
- Bem melhor. Acordei de bom humor hoje.
- Conseguiu resolver tudo por aí? Vai adiantar a volta pra casa?
- Que nada. Ainda fico aqui uns dez dias.
- Então já sei. Um de seus "inocentes" clientes pagou o que te devia.
- Sem eu estar lá cobrando? Sem chances.
- Tudo bem, desisto. Tarefa ingrata essa de tentar deduzir os motivos das oscilações de humor de uma mulher. Não é um processo que envolve lógica mesmo.
- Eu entendi a ironia, mas nem vou aceitar a provocação. Como já disse hoje estou quase feliz.
- Quase feliz... rs. Algumas coisas só fazem sentido saindo da sua boca, sabia? Mas, me diga, qual é o motivo da sua quase-felicidade?
- O horário de verão.
- Mas o horário de verão começou há dias e você fica feliz hoje?
- É porque eu estava ocupada no dia em que ele começou, estava ocupada não, estava preocupada.
- Até pra ser quase-feliz você chega atrasada. Esse seu problema com horários ainda te mata. Aliás, não é só com o relógio que você tem problemas, coerência também não é lá seu forte.
- Novidade. Mas do que exatamente você está falando?
- Da mesma coisa que você, oras. Do seu gosto pelo horário.
- Ué, você não acabou de falar da minha FALTA de gosto por horários? Depois a incoerente sou eu... rs.
- Você entendeu muito bem. Falo do seu gosto pelo horário de verão. Incoerente isso. Até onde sei, você não é exatamente uma amante do dia.
- Não, não sou.
- E então?
- Então o quê?
- Por que gosta do horário de verão?
- Agora pronto. Preciso de motivos até pra gostar de alguma coisa. Não sei por quê. Deve ser porque representa uma mudança de rotina.
- Na sua?
- Na de todo mundo.
- Agora entendi, você gosta mesmo é de ver as pessoas sendo arrancadas de seus velhos hábitos.
- É, se eu preciso ter mesmo um motivo, esse poderia ser um bom motivo. Acho muito instrutiva essa coisa de testar o novo, ter que se adaptar, mesmo sabendo que daqui a um tempo tudo muda de novo e você terá que voltar aos hábitos antigos. Acho uma grande sacada a gente se perceber capaz de se reinventar, de se adaptar, de viver em outras situações.
- Pode ser. Mas não há nenhum motivo pessoal que te faça gostar do horário de verão?
- Talvez. Lembro que quando era criança, achava ótimo ter mais tempo de sol pra curtir a piscina, as brincadeiras, o dia.
- E?
- Pode ser que só a lembrança da minha felicidade infantil, me deixe quase-feliz na vida adulta. Pode ser que eu tenha acostumado a gostar do horário de verão e não queira me desfazer dessa lembrança.
- Calma aí. Você gosta do horário de verão pela mudança de hábito ou pela manutenção de hábito?
- Já sei. Vai me chamar de incoerente de novo.
- Incoerente, você? Imagina.
- Está vendo? Era melhor ter ficado com minha primeira resposta. Gosto do horário de verão porque gosto.
- E perder esse show de coerência e racionalidade? Não mesmo... rs.
- Bem melhor. Acordei de bom humor hoje.
- Conseguiu resolver tudo por aí? Vai adiantar a volta pra casa?
- Que nada. Ainda fico aqui uns dez dias.
- Então já sei. Um de seus "inocentes" clientes pagou o que te devia.
- Sem eu estar lá cobrando? Sem chances.
- Tudo bem, desisto. Tarefa ingrata essa de tentar deduzir os motivos das oscilações de humor de uma mulher. Não é um processo que envolve lógica mesmo.
- Eu entendi a ironia, mas nem vou aceitar a provocação. Como já disse hoje estou quase feliz.
- Quase feliz... rs. Algumas coisas só fazem sentido saindo da sua boca, sabia? Mas, me diga, qual é o motivo da sua quase-felicidade?
- O horário de verão.
- Mas o horário de verão começou há dias e você fica feliz hoje?
- É porque eu estava ocupada no dia em que ele começou, estava ocupada não, estava preocupada.
- Até pra ser quase-feliz você chega atrasada. Esse seu problema com horários ainda te mata. Aliás, não é só com o relógio que você tem problemas, coerência também não é lá seu forte.
- Novidade. Mas do que exatamente você está falando?
- Da mesma coisa que você, oras. Do seu gosto pelo horário.
- Ué, você não acabou de falar da minha FALTA de gosto por horários? Depois a incoerente sou eu... rs.
- Você entendeu muito bem. Falo do seu gosto pelo horário de verão. Incoerente isso. Até onde sei, você não é exatamente uma amante do dia.
- Não, não sou.
- E então?
- Então o quê?
- Por que gosta do horário de verão?
- Agora pronto. Preciso de motivos até pra gostar de alguma coisa. Não sei por quê. Deve ser porque representa uma mudança de rotina.
- Na sua?
- Na de todo mundo.
- Agora entendi, você gosta mesmo é de ver as pessoas sendo arrancadas de seus velhos hábitos.
- É, se eu preciso ter mesmo um motivo, esse poderia ser um bom motivo. Acho muito instrutiva essa coisa de testar o novo, ter que se adaptar, mesmo sabendo que daqui a um tempo tudo muda de novo e você terá que voltar aos hábitos antigos. Acho uma grande sacada a gente se perceber capaz de se reinventar, de se adaptar, de viver em outras situações.
- Pode ser. Mas não há nenhum motivo pessoal que te faça gostar do horário de verão?
- Talvez. Lembro que quando era criança, achava ótimo ter mais tempo de sol pra curtir a piscina, as brincadeiras, o dia.
- E?
- Pode ser que só a lembrança da minha felicidade infantil, me deixe quase-feliz na vida adulta. Pode ser que eu tenha acostumado a gostar do horário de verão e não queira me desfazer dessa lembrança.
- Calma aí. Você gosta do horário de verão pela mudança de hábito ou pela manutenção de hábito?
- Já sei. Vai me chamar de incoerente de novo.
- Incoerente, você? Imagina.
- Está vendo? Era melhor ter ficado com minha primeira resposta. Gosto do horário de verão porque gosto.
- E perder esse show de coerência e racionalidade? Não mesmo... rs.
A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade
P.S.: Dessa vez vou me abster de quaisquer comentários. Por quê? Por serem exatamente essas as palavras que andaram povoando minha cabeça de vento por todo o dia, sem acréscimos, sem correções. Simples assim.
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade
P.S.: Dessa vez vou me abster de quaisquer comentários. Por quê? Por serem exatamente essas as palavras que andaram povoando minha cabeça de vento por todo o dia, sem acréscimos, sem correções. Simples assim.
Freud e Chaplin num filme de segunda
Parecia o clímax de um filme barato. Ela caminhava pelo meio da estrada entre os carros parados e pensava no que faria se suas suposições se confirmassem. Um cigarro. Era melhor acender um cigarro. Tudo pareceria menos trágico se na hora da verdade ela estivesse fumando. O cigarro fazia com que ela lembrasse que a morte e o prazer são companheiros de viagem. Tudo que é bom mata, o que varia é o tempo. O tempo. Ela se lembrou que tinha visto a previsão na TV. Chuva o fim de semana todo. Se aquilo fosse mesmo cena de filme começaria a chover.
Uma coisa era certa. Tinha mesmo ocorrido um acidente. À distância já dava pra ver o ônibus atravessado na pista. Mas e o carro? Está certo, ela sofria de considerável redução auditiva depois da terceira dose. Só que dessa vez tinha certeza. Ela até pediu pra que o policial repetisse. A estrada estava bloqueada. Tinha acontecido um acidente, um ônibus e um carro. Um homem preso nas ferragens do carro. Foi isso que ele disse. Ela tinha certeza.
Continuou caminhando. As pernas pesavam. Sua mãe vivia dizendo que ela precisava fazer exercícios físicos. Sua mãe. Ela precisava retornar suas ligações, mesmo que fosse pra ouvir de novo a palestra sobre os males do sedentarismo. Acontece que, nesse caso, o motivo do peso das pernas não era cansaço. Era medo. E se fosse ele o tal homem nas ferragens?
Pensou na última vez que o tinha visto. Menos de uma hora atrás. O cabelo despenteado, a barba por fazer, a calça surrada. Um ar de desleixo que o deixava ainda mais atraente. Era como se estivesse escrito em sua testa que ele precisava de uma mulher que cuidasse dele. E havia candidatas, aos montes. Em uma das mãos, um copo, na outra, a chave do carro. Ele perguntou se ela queria ir embora. Disse que seu cachorro, Freud, andava sentindo falta dela. Um cachorro, era o que ele era.
Ela já sabia o final daquela história. Dormiria com ele, seria incrível. Ele a faria dormir com afagos nos cabelos. Ao amanhecer, acordaria com o cheiro bom do café que só ele sabia fazer. E era só. Ele sumiria de novo até a próxima vez que tivesse vontade de dividir sua cama com uma mulher que ao menos soubesse quem foi Freud. Um cachorro, era o que ele era.
Ela não foi embora com ele. Cumpriu a promessa que havia feito pra si mesma no dia em que acordou ao lado dele e teve vontade de ficar ali pelo resto da vida. Ela amava aquele homem. Fato consumado. Levantou-se, lavou o rosto e prometeu que aquela seria a última vez. A última vez. Será que era ele o homem preso às ferragens?
Acendeu outro cigarro. Agora já podia ver o carro. Na verdade, podia ver o que havia sobrado do carro. Um monte de ferro retorcido. Um corpo de ferro com cabeça de gente. O tal homem estava com o corpo todo encoberto pelo carro amassado, dele só se podia ver a cabeça que pendia de lado. Era ele? Ela não sabia, precisava chegar mais perto. As pernas criaram vida, ou morte. Elas simplesmente não se moviam mais. Ela estava paralisada.
As pernas imóveis. A mão esquerda tremendo. Seria nervoso? Era o celular. Vibrava, ansioso, como se soubesse a gravidade da situação. Devia ser a amiga que deixara sozinha no carro quando ouviu do policial o relato sobre o acidente. Saíra do carro sem dizer uma palavra. Apenas viera caminhando solitária por aquela estrada cheia de carros parados e pessoas atônitas.
- Alô.
- Freud não vai me deixar dormir. Ele sente sua falta. Cachorro. Eu sou um cachorro, mas também sinto sua falta. Eu preciso te ver. Onde você está?
- Eu? Eu estou indo a seu encontro.
- Você disse que não queria mais saber de sexo, café e muito menos de cachorro? O que te fez mudar de idéia?
- Um monstro de ferro com cabeça de gente.
- E o que esse monstro te disse a meu favor?
- Disse que era pra eu parar de me poupar e viver sem tanto medo de sofrer. Disse que a vida é tão inevitável quanto a morte.
- Espera aí. Foi Chaplin que disse isso. Não importa. Você vai demorar?
- Não sei. Preciso perguntar ao monstro.
- É justo, afinal foi ele que te trouxe de volta à vida. Minha vida.
Ela desligou e deu mais alguns passos em direção ao destroços de carro e gente. Não queria mais saber quem era o tal homem. Preferia mesmo pensar que estava diante de um monstro de ferro com cabeça de gente. Mas já que estava ali, decidiu perguntar aos policiais se ele estava bem. Bem? Claro que ele não estava bem. Está certo, perguntaria só se demorariam a liberar a estrada.
Aproximou-se mais do local. Já estava a poucos metros. Caminhou até os policiais tentando não olhar pro monstro de ferro. Ficou sabendo que o resgate já estava a caminho, mas não tinham previsão de quanto tempo demoraria pra liberarem a passagem. Agradeceu e começou a retornar pro seu carro quando ouviu o início de uma conversa:
- O resgate já está vindo. Vamos tirá-lo daí. Você precisa ficar acordado até eles chegarem. Fala comigo. Qual é seu nome?
- Charles. Meu nome é Charles.
Uma coisa era certa. Tinha mesmo ocorrido um acidente. À distância já dava pra ver o ônibus atravessado na pista. Mas e o carro? Está certo, ela sofria de considerável redução auditiva depois da terceira dose. Só que dessa vez tinha certeza. Ela até pediu pra que o policial repetisse. A estrada estava bloqueada. Tinha acontecido um acidente, um ônibus e um carro. Um homem preso nas ferragens do carro. Foi isso que ele disse. Ela tinha certeza.
Continuou caminhando. As pernas pesavam. Sua mãe vivia dizendo que ela precisava fazer exercícios físicos. Sua mãe. Ela precisava retornar suas ligações, mesmo que fosse pra ouvir de novo a palestra sobre os males do sedentarismo. Acontece que, nesse caso, o motivo do peso das pernas não era cansaço. Era medo. E se fosse ele o tal homem nas ferragens?
Pensou na última vez que o tinha visto. Menos de uma hora atrás. O cabelo despenteado, a barba por fazer, a calça surrada. Um ar de desleixo que o deixava ainda mais atraente. Era como se estivesse escrito em sua testa que ele precisava de uma mulher que cuidasse dele. E havia candidatas, aos montes. Em uma das mãos, um copo, na outra, a chave do carro. Ele perguntou se ela queria ir embora. Disse que seu cachorro, Freud, andava sentindo falta dela. Um cachorro, era o que ele era.
Ela já sabia o final daquela história. Dormiria com ele, seria incrível. Ele a faria dormir com afagos nos cabelos. Ao amanhecer, acordaria com o cheiro bom do café que só ele sabia fazer. E era só. Ele sumiria de novo até a próxima vez que tivesse vontade de dividir sua cama com uma mulher que ao menos soubesse quem foi Freud. Um cachorro, era o que ele era.
Ela não foi embora com ele. Cumpriu a promessa que havia feito pra si mesma no dia em que acordou ao lado dele e teve vontade de ficar ali pelo resto da vida. Ela amava aquele homem. Fato consumado. Levantou-se, lavou o rosto e prometeu que aquela seria a última vez. A última vez. Será que era ele o homem preso às ferragens?
Acendeu outro cigarro. Agora já podia ver o carro. Na verdade, podia ver o que havia sobrado do carro. Um monte de ferro retorcido. Um corpo de ferro com cabeça de gente. O tal homem estava com o corpo todo encoberto pelo carro amassado, dele só se podia ver a cabeça que pendia de lado. Era ele? Ela não sabia, precisava chegar mais perto. As pernas criaram vida, ou morte. Elas simplesmente não se moviam mais. Ela estava paralisada.
As pernas imóveis. A mão esquerda tremendo. Seria nervoso? Era o celular. Vibrava, ansioso, como se soubesse a gravidade da situação. Devia ser a amiga que deixara sozinha no carro quando ouviu do policial o relato sobre o acidente. Saíra do carro sem dizer uma palavra. Apenas viera caminhando solitária por aquela estrada cheia de carros parados e pessoas atônitas.
- Alô.
- Freud não vai me deixar dormir. Ele sente sua falta. Cachorro. Eu sou um cachorro, mas também sinto sua falta. Eu preciso te ver. Onde você está?
- Eu? Eu estou indo a seu encontro.
- Você disse que não queria mais saber de sexo, café e muito menos de cachorro? O que te fez mudar de idéia?
- Um monstro de ferro com cabeça de gente.
- E o que esse monstro te disse a meu favor?
- Disse que era pra eu parar de me poupar e viver sem tanto medo de sofrer. Disse que a vida é tão inevitável quanto a morte.
- Espera aí. Foi Chaplin que disse isso. Não importa. Você vai demorar?
- Não sei. Preciso perguntar ao monstro.
- É justo, afinal foi ele que te trouxe de volta à vida. Minha vida.
Ela desligou e deu mais alguns passos em direção ao destroços de carro e gente. Não queria mais saber quem era o tal homem. Preferia mesmo pensar que estava diante de um monstro de ferro com cabeça de gente. Mas já que estava ali, decidiu perguntar aos policiais se ele estava bem. Bem? Claro que ele não estava bem. Está certo, perguntaria só se demorariam a liberar a estrada.
Aproximou-se mais do local. Já estava a poucos metros. Caminhou até os policiais tentando não olhar pro monstro de ferro. Ficou sabendo que o resgate já estava a caminho, mas não tinham previsão de quanto tempo demoraria pra liberarem a passagem. Agradeceu e começou a retornar pro seu carro quando ouviu o início de uma conversa:
- O resgate já está vindo. Vamos tirá-lo daí. Você precisa ficar acordado até eles chegarem. Fala comigo. Qual é seu nome?
- Charles. Meu nome é Charles.
O nome do monstro era Charles. Voltando pro carro ela olhou o relógio. Duas da madrugada. Já era segunda-feira. Não pôde evitar um sorriso. Aquele seria mesmo um bom final pra um filme de segunda.
Fatídicas verdades
Fato número 1: Não foi uma semana fácil. O passado e as escolhas estúpidas que fui fazendo voltaram todos pra cobrar suas respectivas contas. (Eis aqui a versão feminina do colecionador de ossos.)
Fato número 2: Chorar não foi uma boa idéia. Até que consoladora, mas nada produtiva.
Fato número 3: Não dá pra apagar ao mesmo tempo incêndios em lugares diferentes com uma mangueira só. (Eu escrevi mesmo isso??? Ai ai, alguém por favor remova esse blog antes que eu seja capaz de criar uma metáfora pior que essa.)
Fato número 4: Sexta-feira não é dia de declarar guerra, nem mesmo de propor as condições pra um acordo de paz. Sexta-feira não é dia de explicar coisas cuja existência o outro nem supunha existir. Sexta-feira nem é dia de lamentar.
Fato número 5: Sexta é dia de sair, olhar a lua e encher a cara. É isso!!! Vou renascer da ressaca tal fênix. E as cinzas? Lembra que falei sobre a impossibilidade de apagar ao mesmo tempo vários incêndios com uma só mangueira? Em que vc pensa que se transformou o que ardia? Cinzas, meu caro, cinzas.
Fato número 2: Chorar não foi uma boa idéia. Até que consoladora, mas nada produtiva.
Fato número 3: Não dá pra apagar ao mesmo tempo incêndios em lugares diferentes com uma mangueira só. (Eu escrevi mesmo isso??? Ai ai, alguém por favor remova esse blog antes que eu seja capaz de criar uma metáfora pior que essa.)
Fato número 4: Sexta-feira não é dia de declarar guerra, nem mesmo de propor as condições pra um acordo de paz. Sexta-feira não é dia de explicar coisas cuja existência o outro nem supunha existir. Sexta-feira nem é dia de lamentar.
Fato número 5: Sexta é dia de sair, olhar a lua e encher a cara. É isso!!! Vou renascer da ressaca tal fênix. E as cinzas? Lembra que falei sobre a impossibilidade de apagar ao mesmo tempo vários incêndios com uma só mangueira? Em que vc pensa que se transformou o que ardia? Cinzas, meu caro, cinzas.
A merda e o bolo
- Oi. Tudo bem?
- É pra ser sincera ou educada?
- Sincera, mas sem xingamentos hein. Lembre-se que essa é uma conversa vespertina.
- Engraçadinho.
- O que foi?
- Nada demais. Se eu conseguisse ser um pouco racional, perceberia que nem vale à pena me preocupar tanto. Pelo menos não agora. Mas quem disse que estou conseguindo usar a razão?
- Na verdade são raros os momentos em que pensamos com razão. Acho que nunca pensamos com razão quando realmente precisamos.
- Isso já é um consolo. Tipo: "Você está fazendo merda, mas sorria, você não é a única."
- Exato! Afinal de contas, é fazendo merda que se aduba a vida.
- Se é assim mesmo, minha vida está devidamente adubada. Mas calma aí. Cadê as flores?
- Aí você está querendo tudo mastigado demais. Por falar em mastigado, procura aí suas flores que eu já venho, antes que meu bolo queime!
...
- Tudo sob controle.
- E você sabe até fazer bolo, é?
- Claro, afinal não é só de merda que vive o homem. Por falar nisso, encontrou as flores?
- Não.
- Vai continuar procurando?
- Sempre.
- Boa menina, merece até um pedaço de bolo.
P.S.: Todos os créditos pra Frank, seus ditos populares e sua mania de, brincando, me fazer pensar.
- É pra ser sincera ou educada?
- Sincera, mas sem xingamentos hein. Lembre-se que essa é uma conversa vespertina.
- Engraçadinho.
- O que foi?
- Nada demais. Se eu conseguisse ser um pouco racional, perceberia que nem vale à pena me preocupar tanto. Pelo menos não agora. Mas quem disse que estou conseguindo usar a razão?
- Na verdade são raros os momentos em que pensamos com razão. Acho que nunca pensamos com razão quando realmente precisamos.
- Isso já é um consolo. Tipo: "Você está fazendo merda, mas sorria, você não é a única."
- Exato! Afinal de contas, é fazendo merda que se aduba a vida.
- Se é assim mesmo, minha vida está devidamente adubada. Mas calma aí. Cadê as flores?
- Aí você está querendo tudo mastigado demais. Por falar em mastigado, procura aí suas flores que eu já venho, antes que meu bolo queime!
...
- Tudo sob controle.
- E você sabe até fazer bolo, é?
- Claro, afinal não é só de merda que vive o homem. Por falar nisso, encontrou as flores?
- Não.
- Vai continuar procurando?
- Sempre.
- Boa menina, merece até um pedaço de bolo.
P.S.: Todos os créditos pra Frank, seus ditos populares e sua mania de, brincando, me fazer pensar.
Simples incompatibilidade de gênios
Ele dirigia. 40 quilômetros por hora. Ela falava. Centenas de palavras por minuto.
Ela falava sobre seus planos pro futuro. Ele só queria chegar em casa. Ela falava sobre receitas de felicidade. Ele só queria uma dose de whisky. Ela falava sobre meios de se alcançar a paz no mundo. Ele só queria que o próximo sinal não estivesse fechado.
Ele olhava pra frente. Precisava ficar atento, já que vivia passando direto pela entrada da rua estreita que o faria economizar uns minutos de trânsito. Ele não precisava olhar pra ela pra saber que seus olhos estavam brilhando, seu rosto corado, as mãos em constante movimento, como querendo tomar pra si o mundo todo.
Ela pediu pra que ele parasse o carro um pouco à frente. Mostrou o prédio em que morava. Ele fingiu que olhava. Ela disse que ele poderia aparecer qualquer dia. Ele mentiu que apareceria. Parou o carro. Ela desceu. Pela primeira vez, ele a observou. Ela segurava a porta com uma das mãos, a bolsa com a outra, tentando se equilibrar num dos saltos enquanto saía do carro. Agora sim ele tinha vontade de admirá-la. Suas curvas, sua falta de jeito, sua mão de unhas vermelhas.
Ele teve vontade de dormir com aquela mulher. Talvez encontrasse no perfume dos cabelos dela a paz que há muito tempo havia perdido. Perdido? Ele riu da sua própria tolice. Uma pessoa não pode perder o que nunca possuiu. Ligou o carro e partiu. Pelo retrovisor pôde ver a garota em pé na calçada.
Ela teve vontade de dormir com aquele homem. Era nisso que pensava enquanto abria a porta de casa. Por que não o chamara pra subir? Porque ele a faria sofrer. Soube disso no dia em que fitou o semblante sério e o olhar melancólico dele. Ele era o tipo de homem que trazia nos olhos todo o peso dos fantasmas que o atormentavam. O tipo de homem a quem ela poderia amar.
Ele não conhecia o amor. Já flertara com o encantamento nascido de um encontro cheio de ternura. Já enlouquecera com a lascívia causada por um corpo exuberante. Já perdera o sono e o senso por uma paixão insana pela mulher errada. Mas o amor, ele não conhecia, nem haveria de conhecer.
Eles não combinavam. Ele e ela? Não. Ele e o amor.
Ela falava sobre seus planos pro futuro. Ele só queria chegar em casa. Ela falava sobre receitas de felicidade. Ele só queria uma dose de whisky. Ela falava sobre meios de se alcançar a paz no mundo. Ele só queria que o próximo sinal não estivesse fechado.
Ele olhava pra frente. Precisava ficar atento, já que vivia passando direto pela entrada da rua estreita que o faria economizar uns minutos de trânsito. Ele não precisava olhar pra ela pra saber que seus olhos estavam brilhando, seu rosto corado, as mãos em constante movimento, como querendo tomar pra si o mundo todo.
Ela pediu pra que ele parasse o carro um pouco à frente. Mostrou o prédio em que morava. Ele fingiu que olhava. Ela disse que ele poderia aparecer qualquer dia. Ele mentiu que apareceria. Parou o carro. Ela desceu. Pela primeira vez, ele a observou. Ela segurava a porta com uma das mãos, a bolsa com a outra, tentando se equilibrar num dos saltos enquanto saía do carro. Agora sim ele tinha vontade de admirá-la. Suas curvas, sua falta de jeito, sua mão de unhas vermelhas.
Ele teve vontade de dormir com aquela mulher. Talvez encontrasse no perfume dos cabelos dela a paz que há muito tempo havia perdido. Perdido? Ele riu da sua própria tolice. Uma pessoa não pode perder o que nunca possuiu. Ligou o carro e partiu. Pelo retrovisor pôde ver a garota em pé na calçada.
Ela teve vontade de dormir com aquele homem. Era nisso que pensava enquanto abria a porta de casa. Por que não o chamara pra subir? Porque ele a faria sofrer. Soube disso no dia em que fitou o semblante sério e o olhar melancólico dele. Ele era o tipo de homem que trazia nos olhos todo o peso dos fantasmas que o atormentavam. O tipo de homem a quem ela poderia amar.
Ele não conhecia o amor. Já flertara com o encantamento nascido de um encontro cheio de ternura. Já enlouquecera com a lascívia causada por um corpo exuberante. Já perdera o sono e o senso por uma paixão insana pela mulher errada. Mas o amor, ele não conhecia, nem haveria de conhecer.
Eles não combinavam. Ele e ela? Não. Ele e o amor.
Por hoje, é só
É como um peso que te faz arriar.
Uma espinha que te faz entalar.
Uma venda que te faz cegar.
Um muro que te faz estancar.
Um cisco que te faz chorar.
É só o cansaço que me fez parar.
Uma espinha que te faz entalar.
Uma venda que te faz cegar.
Um muro que te faz estancar.
Um cisco que te faz chorar.
É só o cansaço que me fez parar.
Parte de mim
Ó parte de mim
Parte daqui e ganha os céus
Voa, liberta-se
Serve-se do meu sentir, tal trampolim
Ó parte de mim
Parte de hoje e ganha a eternidade
Nós que não tivemos início, nem um só meio
Não havemos também de conhecer um fim
Ó parte de mim
Fonte que renova
Chama que arde
Ó parte de mim
Porção que não se aparta
E ainda sim deixa saudade
Parte daqui e ganha os céus
Voa, liberta-se
Serve-se do meu sentir, tal trampolim
Ó parte de mim
Parte de hoje e ganha a eternidade
Nós que não tivemos início, nem um só meio
Não havemos também de conhecer um fim
Ó parte de mim
Fonte que renova
Chama que arde
Ó parte de mim
Porção que não se aparta
E ainda sim deixa saudade
Querido arengueiro
Hoje vi algumas homenagens a você. Entre elas uma começava assim: "Se vivo, Cartola completaria hoje 100 anos." Isso me fez pensar.O tal crítico musical (nome pomposo) tem lá seus motivos pra te considerar morto. Seu coração parou de bater, sua cabeça, de funcionar. Há até testemunhas que viram seu derradeiro berço de flores. Então, quem sou pra questionar? Aliás, pra que questionar, não é mesmo?
Mas, tenho que confessar que cometi a indelicadeza de abandonar a "agradável" companhia do seu (arremedo de) biógrafo lá pelo segundo parágrafo. Ninguém pode negar que a tal homenagem era cheia de pompa e circunstância, muito chique, você precisava ver. Justamente por isso, acabei achando aquilo tudo meio inadequado, sem sentido, sem graça.
A verdade é que, ao dobrar o jornal, senti uma certa tristeza. Saudade, eu acho. Mas, felizmente eu sabia muito bem onde te encontrar. Vivo. Pulsando. Sentindo. Cantando e encantando. Acalentei no meu abraço mais afetuoso as formas arredondadas do antigo companheiro de noites insones. A sua arte. Ela estava ali, nos meus dedos afagando cordas, nas minhas cordas entoando notas, nas minhas notas das suas letras de gênio.
Então, é isso...
Simples Assim
P.S.: Texto escrito no dia 11.10.08. Aniversário de 100 anos de Cartola, cuja obra e biografia valem uma longa pausa, nem tanto para análises e reflexões, mas primordialmente para serem sentidas, degustadas, absorvidas. Eis apenas um aperitivo...
O MUNDO É UM MOINHO
Cartola
Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés...
* Quer mais? Acesse: http://www.cartola.org.br/cartola.html
Meias flutuantes em céu de carpete azul

Nada melhor pra representar o que foi meu dia hoje do que essa imagem. Percebi isso assim do nada. De repente, olhei pros meus pés, mais exatamente pras meias de flores coloridas flutuando num céu feito de carpete azul. É, meu céu estava azul sim. Azul e sob meus pés. A ordem natural das coisas estava invertida a meu bel prazer.
Lá fora um dia cinza. Frio que gela os ossos. Chuva fina, intermitente. Neblina que faz do chão, nuvem, que faz dos homens, espectros. Aqui dentro, o calor. Calor de xícara, de livro, de alma, de meia de flores coloridas.
Acabado o chá e o capítulo, fechei o livro e fui até a cozinha. Na volta, olhei a TV desligada (há dias) e resolvi, sabe-se lá por que, ligar o tal aparelho. Você deve estar pensando que fui movida por uma incapacidade absoluta de conviver com o que chamam de "paz de espírito". Não? Pois foi nisso que pensei quando apertei o botão.
O fato é que hoje tudo estava conspirando a meu favor, até a humanidade. Era o jornal do fim da tarde, passava uma matéria sobre pianos. É isso. Pianos espalhados pela cidade, posicionados em espaços públicos, a livre acesso de todos. Música individualizando a multidão. Arte retirando da massa disforme mãos habilidosas, olhos atentos, lágrimas, aplausos.
Desliguei a TV. Afinal, melhor não dar sorte pro azar (mais uma expressão fofa do baú da vovó), estava tudo muito perfeito pra eu arriscar ver a matéria seguinte. Televisão devidamente calada, voltei a meu mundinho provisoriamente colorido e particular. Mais uma xícara fumegante, mais um capítulo do livro, mais um sobrevôo de flores coloridas pelo céu de carpete azul.
Um novo dia
Um novo dia é uma promessa
Promessas são como bolhas de sabão
Nascem impetuosas, ganhando os céus
Mas podem estourar ao simples toque das mãos
Um novo dia é uma dádiva
Dádivas são presentes divinos
Ninguém sabe ao certo porque os recebe
Nem mesmo se voltará a ser escolhido
Um novo dia é uma batalha
Batalhas podem ferir, fazer chorar, fazer sofrer
Há momentos de pura glória, satisfação, regozijo
Mas a grande e real vitória é a capacidade de sobreviver
Um novo dia é uma dúvida
Dúvidas alimentam a debilidade, a insegurança
Mas também podem ser elas, as mesmas dúvidas
As únicas mantenedoras da menina esperança
Um novo dia é uma chance
Chances são como a garota faceira, espevitada
Se não for João, será Pedro
Fica com ela o que for capaz de conquistá-la
Um novo dia é um mistério
Mistérios instigam o intrépido a desvendá-los
E ele fica ali parado, imóvel, compenetrado
Enquanto o dia, sem parcimônia, trata de devorá-lo
Um novo dia é uma folha em branco
Folhas em branco podem virar lixo, tratado, carta de amor
E seu destino será definido, escrito, será traçado
Pelas mãos daquele que se aventurar a ser o escritor
Promessas são como bolhas de sabão
Nascem impetuosas, ganhando os céus
Mas podem estourar ao simples toque das mãos
Um novo dia é uma dádiva
Dádivas são presentes divinos
Ninguém sabe ao certo porque os recebe
Nem mesmo se voltará a ser escolhido
Um novo dia é uma batalha
Batalhas podem ferir, fazer chorar, fazer sofrer
Há momentos de pura glória, satisfação, regozijo
Mas a grande e real vitória é a capacidade de sobreviver
Um novo dia é uma dúvida
Dúvidas alimentam a debilidade, a insegurança
Mas também podem ser elas, as mesmas dúvidas
As únicas mantenedoras da menina esperança
Um novo dia é uma chance
Chances são como a garota faceira, espevitada
Se não for João, será Pedro
Fica com ela o que for capaz de conquistá-la
Um novo dia é um mistério
Mistérios instigam o intrépido a desvendá-los
E ele fica ali parado, imóvel, compenetrado
Enquanto o dia, sem parcimônia, trata de devorá-lo
Um novo dia é uma folha em branco
Folhas em branco podem virar lixo, tratado, carta de amor
E seu destino será definido, escrito, será traçado
Pelas mãos daquele que se aventurar a ser o escritor
A roupa do meu bem
Eu nunca aprendi a costurar. Mas vendo suas vestes rasgadas, curtas, rotas, tive vontade de vesti-lo de mim. Peguei agulha e linha e comecei o trabalho.
Confesso que no início fui bem devagar. A agulha. Eu sabia que podia me ferir. Aos poucos fui esquecendo de lembrar. A linha foi tomando toda a minha atenção. Finita sim, mas longa o suficiente pra transfomar o meu desejo em abrigo.
Pronta. Levantei-a à altura dos olhos e sorri. Torta, disforme, cheia de remendos. Maravilhosamente imperfeita. Ri de mim. Ri pra ela. A roupa do meu bem.
Acomodei-a nos braços como quem acalanta uma ave ferida. Com passos vagorosos e decididos, levei-a para cumprir seu destino. Chegamos. Entreguei-lhe a oferenda. Ele sorriu de lado. Jogou ao chão os trapos que o vestiam e experimentou o singelo presente.
Surpresa. A roupa não serviu. Era ampla demais, exagerada. Teimava em não se ajustar às formas daquele que lhe serviu de modelo.
Eu quase não acreditei no que meus olhos teimavam em me fazer aceitar. A pouca habilidade, o receio, o capricho. Sabe-se lá qual o motivo. O fato é que a roupa havia demorado demais a ficar pronta. Ele havia definhado. Era o que gritavam os espaços vazios entre suas carnes e as paredes finas de pano.
Ele não rasgou as vestes insurgentes. Ele não me lançou um olhar de reprovação. Ele simplesmente não reagiu. Resignado, até tentou sorrir. Mas ele não precisava dizer nada. Levei as mãos aos ouvidos, mas os fatos, esses sim gritaram até eu admitir a realidade.
Ele até podia aceitar vestir-se de cadáver. Mas isso não amenizaria a pungência dos fatos. A roupa nasceu morta. E eu morri em vida, sem ter tido tempo de aprender a costurar.
Confesso que no início fui bem devagar. A agulha. Eu sabia que podia me ferir. Aos poucos fui esquecendo de lembrar. A linha foi tomando toda a minha atenção. Finita sim, mas longa o suficiente pra transfomar o meu desejo em abrigo.
Pronta. Levantei-a à altura dos olhos e sorri. Torta, disforme, cheia de remendos. Maravilhosamente imperfeita. Ri de mim. Ri pra ela. A roupa do meu bem.
Acomodei-a nos braços como quem acalanta uma ave ferida. Com passos vagorosos e decididos, levei-a para cumprir seu destino. Chegamos. Entreguei-lhe a oferenda. Ele sorriu de lado. Jogou ao chão os trapos que o vestiam e experimentou o singelo presente.
Surpresa. A roupa não serviu. Era ampla demais, exagerada. Teimava em não se ajustar às formas daquele que lhe serviu de modelo.
Eu quase não acreditei no que meus olhos teimavam em me fazer aceitar. A pouca habilidade, o receio, o capricho. Sabe-se lá qual o motivo. O fato é que a roupa havia demorado demais a ficar pronta. Ele havia definhado. Era o que gritavam os espaços vazios entre suas carnes e as paredes finas de pano.
Ele não rasgou as vestes insurgentes. Ele não me lançou um olhar de reprovação. Ele simplesmente não reagiu. Resignado, até tentou sorrir. Mas ele não precisava dizer nada. Levei as mãos aos ouvidos, mas os fatos, esses sim gritaram até eu admitir a realidade.
Ele até podia aceitar vestir-se de cadáver. Mas isso não amenizaria a pungência dos fatos. A roupa nasceu morta. E eu morri em vida, sem ter tido tempo de aprender a costurar.
A rendição e a redenção
Era o final de uma tarde daquelas. Trabalho, correria, calor, trânsito infernal. Sinal fechado. Avalanche de pedidos, ofertas, lamentos. Esmola, antena de tv, cegueira.
O motorista praguejou. Ela ouviu apenas recortes. Culpa... governo... trabalho... desgraça. O botão "não preciso ouvir isso pra completar um dia infeliz" estava acionado. Não ouviria o discurso inteiro. Ela já o conhecia de cor. Além do mais, não faltariam oportunidades de ouvir e falar sobre o assunto. Era só esperar o amanhã chegar e torcer pra que ele não fosse tão ruim a ponto de fazer com que ela se recusasse a ouvir de novo.
De repente, algo furou a barreira acústica. Gritos. Muitos gritos. Vozes finas, estridentes. Pivetes, certamente. Teriam roubado alguém? Seria a euforia do álcool, das drogas? Quis que tudo aquilo acabasse logo. O dia, o calor, o barulho. Ela só queria chegar em casa. Era pedir demais?
O homem tinha parado de discursar. Teria percebido que ela não estava disposta a servir de platéia? Provavelmente não. Ela duvidava até mesmo de que ele realmente estivesse falando com ela. O fato é que os gritos não pararam. Eles insistiam em fazê-la lembrar que não havia como ignorar um mundo inteiro. Tudo bem. Rendição. Ela se voltou para a direção dos gritos.
Não viu pivetes correndo com uma bolsa na mão. Não viu pequenos seres devastados pelo vício. Ela viu meninos. Eles eram crianças ainda. Como ela sabia? O sorriso. Eles ainda sorriam com a alma. Ela podia ver isso até de dentro de um carro, do outro lado da rua.
Pronto. Ela não podia mais ignorar. A vida estava ali, gritando através das bocas miúdas daqueles meninos. Eles berravam e olhavam pro céu. Ela olhou também. Viu várias pipas coloridas que dançavam ao sabor do vento. As linhas. Havia uma linha presa a cada pipa. Na outra extermidade, mãos pequenas faziam movimentos seguros. Ela percebeu naquele momento o motivo dos gritos, dos sorrisos abertos. As pipas voavam. Os meninos voavam.
Ela quis voar também. Quis correr e gritar com aqueles meninos. Ela não se moveu. Também não emitiu qualquer som. Mas alguma coisa havia mudado.
Ela não tinha uma linha na mão. Não se sentia capaz de abrir a porta daquele carro e correr junto com as crianças. Estava cansada demais. Mas ela ainda podia perceber o quão azul estava aquele céu de pipas dançantes, ainda era capaz de mudar de idéia e ver a beleza daquele dia. Um dia que ela chamara de infeliz há uns segundos atrás.
Tudo bem. Ela não podia voar, mas ainda podia sorrir. Sorrir com a alma. Ela ainda era criança. Um sinal. O sinal. Abriu. O carro prosseguiu e ela sorrindo, despediu-se dos seus pequenos e barulhentos redentores.
O motorista praguejou. Ela ouviu apenas recortes. Culpa... governo... trabalho... desgraça. O botão "não preciso ouvir isso pra completar um dia infeliz" estava acionado. Não ouviria o discurso inteiro. Ela já o conhecia de cor. Além do mais, não faltariam oportunidades de ouvir e falar sobre o assunto. Era só esperar o amanhã chegar e torcer pra que ele não fosse tão ruim a ponto de fazer com que ela se recusasse a ouvir de novo.
De repente, algo furou a barreira acústica. Gritos. Muitos gritos. Vozes finas, estridentes. Pivetes, certamente. Teriam roubado alguém? Seria a euforia do álcool, das drogas? Quis que tudo aquilo acabasse logo. O dia, o calor, o barulho. Ela só queria chegar em casa. Era pedir demais?
O homem tinha parado de discursar. Teria percebido que ela não estava disposta a servir de platéia? Provavelmente não. Ela duvidava até mesmo de que ele realmente estivesse falando com ela. O fato é que os gritos não pararam. Eles insistiam em fazê-la lembrar que não havia como ignorar um mundo inteiro. Tudo bem. Rendição. Ela se voltou para a direção dos gritos.
Não viu pivetes correndo com uma bolsa na mão. Não viu pequenos seres devastados pelo vício. Ela viu meninos. Eles eram crianças ainda. Como ela sabia? O sorriso. Eles ainda sorriam com a alma. Ela podia ver isso até de dentro de um carro, do outro lado da rua.
Pronto. Ela não podia mais ignorar. A vida estava ali, gritando através das bocas miúdas daqueles meninos. Eles berravam e olhavam pro céu. Ela olhou também. Viu várias pipas coloridas que dançavam ao sabor do vento. As linhas. Havia uma linha presa a cada pipa. Na outra extermidade, mãos pequenas faziam movimentos seguros. Ela percebeu naquele momento o motivo dos gritos, dos sorrisos abertos. As pipas voavam. Os meninos voavam.
Ela quis voar também. Quis correr e gritar com aqueles meninos. Ela não se moveu. Também não emitiu qualquer som. Mas alguma coisa havia mudado.
Ela não tinha uma linha na mão. Não se sentia capaz de abrir a porta daquele carro e correr junto com as crianças. Estava cansada demais. Mas ela ainda podia perceber o quão azul estava aquele céu de pipas dançantes, ainda era capaz de mudar de idéia e ver a beleza daquele dia. Um dia que ela chamara de infeliz há uns segundos atrás.
Tudo bem. Ela não podia voar, mas ainda podia sorrir. Sorrir com a alma. Ela ainda era criança. Um sinal. O sinal. Abriu. O carro prosseguiu e ela sorrindo, despediu-se dos seus pequenos e barulhentos redentores.
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